Congregação Judaica Shaarei Shalom – שערי שלום

Tempo de leitura: 17 Minutos

 

  1. Espiritualidade, Judaísmo – Onde consigo uma alma judaica? בס”ד

Maimonides (Rambam), uma das maiores mentes mundiais, foi mais educado no pensamento de codificação da Torah do que qualquer rabi vivo hoje. Não é sem surpresa que Rabi Yosef Caro baseou muito do Shulchan Aruch nas posições de Rambam. Maimonides louvou Aristóteles conforme atingisse o cume da perfeição intelectual. Ele não ofereceu seu louvor em relação a um Judeu.

Assim nós desejamos saber: Alguns Judeus são injustos se consideram os gentios “humanos de segunda classe”? Maimonides foi correto em seu louvor a um gentio? Tão frequentemente nós escutamos o termo “alma Judaica” usado como uma expressão de arrogância Judaica desprovida de base. Outros, aceitam a crença que D-us literalmente soprou um “pedaço” de Si Mesmo no interior do homem, derivado de tais versículos como “e soprou-lhe nas narinas o fôlego da vida” (Gen. 2, 7) e “…Criou, pois, D-us o homem à sua imagem; à imagem de D-us o criou…” (ibid, 1:27).

Certamente Maimonides, Ramban, Rashi, Unkelos e consecutivamente  todos os outros principais rabis consideravam tais antropomorfismos falsos e heréticos, e assim nós devemos, portanto, compreender inteiramente o porquê desses gênios reinterpretarem aqueles versículos – e por isso devemos adotar essas verdades para nós mesmos. Maimonides ensina que, posto que D-us não é físico, Ele não possui qualidades físicas (13 Princípios; Princípio III; Yesodei HaTorah 1:7). Todos os rabis concordam – D-us não tem “partes”; assim, metáforas como o “tzelem Elokim” (“figura de D-us”) plantado no homem deve ser entendido como simplesmente indicando o mais alto status que humanos gozam sobre todas as criações.

D-us anexou Seu nome à expressão “tzelem Elokim” para enfatizar o grande potencial de nossas almas. Porque somente com nossas almas podemos aprender sobre D-us. Mas de nenhum modo D-us pode ter partes, e, portanto, a tentativa do homem de abandonar a responsabilidade por sentir D-us “dentro” de si é falácia. (Essa visão panteística levou os Judeus a acreditarem que D-us existia mesmo no interior do pecado, assim como outros absurdos.) Ironicamente, os Judeus reclamando almas Judaicas “superiores” se auto-contradizem, posto que eles derivam sua visão dos versículos citados acima – que endereçam ao “gentio” Adam Harishon (Adão O Primeiro).

A eleição de D-us da convertida Ruth (Rute) como a precursora de nosso futuro Messias e dos Reis David e Salomão claramente nos ensina que D-us encontra não nenhum favorito entre o Judeu. Em verdade, D-us criou o homem somente uma vez, e todos os homens são diretos descendentes daquele primeiro casal gentio. D-us nunca recriou o homem ou a alma, dando ao Judeu algum tipo de novo e aperfeiçoado modelo. Nós todos compartilhamos do mesmo exato desenho e potencial.

Foi somente devido aos pecados de idolatria da humanidade do estilo de vida monoteístico de Abraão que D-us elegeu Abraão e seus filhos a receberem e guardarem a Torah…para toda humanidade. O plano de D-us era, e permanece que “Todos os filhos de carne chamam Seu nome.” (reza Alenu) Além disso, posto que D-us planejou dar Sua Torah aos descendentes dos Gentios, isso significa que os gentios são totalmente capazes de praticar o Judaísmo e obter a perfeição Torânica. O Judeu nascido não tem vantagem.

Não é o recebimento da Torah que torna os homens perfeitos, mas nossa aderência aos seus mandamentos – e isso se aplica tanto ao Judeu quanto ao gentio. A perfeição humana não é um direito inato Judaico, mas uma realização humana, disponível a todas as criaturas de D-us. Se um gentio é sábio, ele amará a Torah conforme faz um Judeu com discernimento, e ele aceitará mais do que suas meras sete leis de Noé. Ele verá que os mandamentos de D-us tornam um homem perfeito e ele desejará participar dos mandamentos da Torah. Os conversos Gentios por toda a história mostraram-se como os membros mais sábios de suas culturas – e nossas – e muitas das vezes se tornando grandes líderes Judeus.

Os sete mandamentos são não um limite para o gentio ou, como alguns dizem, “seu” sistema. As leis de Noé são os limites essenciais que designam um ser humano a reter seu direito à vida. As leis de Noé são um ponto de partida preferível a uma destinação exaltada. Posto que o gentio não é diferente do Judeu, ele também beneficia-se da igualdade aderindo aos mandamentos da Torah, conforme ensina a Torah: “Uma mesma lei e uma mesma ordenança haverá para vós e para o estrangeiro que peregrinar convosco.” (Num. 15 ,16, Ex. 12, 49) Isso prova que todos os humanos compartilham o desenho e potencial idênticos.

A visão que conversos sempre tinham alguma “centelha” Judaica é igualmente arrogante e sem base.  O Talmud afirma que “futuros Judeus e futuros conversos são também parte do pacto” (Shavuos 39a) é que qualquer pessoa que vê a verdade da Torah é “como se” ele ou ela testemunhasse a Revelação, que prova a Torah além de toda dúvida. Da mesma forma que aqueles testemunharam o Sinai perderam toda dúvida da existência de D-us e da natureza Divina do Judaísmo, aqueles que hoje percebem essa verdade são “como se” eles também colocassem o pé no Sinai. Igualmente verdade: um Judeu hoje que abandona a Torah é “como se” ele não esteve no Sinai.

Abraão não era mais Judeu do que os habitantes pecaminosos de Sodoma que foram aniquilados por D-us. Mas a diferença de Abraão estava em seu uso de seu tzelem Elokim, libertando-se através unicamente da razão de uma juventude idólatra e descobrindo e ensinando o monoteísmo a seus companheiros. Ele via todos os homens como iguais expressões da vontade divina. Todos os homens são criados iguais. Abraão foi um profeta, e mais perfeito do que qualquer um vivo hoje, os Judeus – mesmo os rabis – incluídos. Ele não nasceu Judeu, todavia D-us o amou.

O Talmud (Sanhedrin 59a declara: “Um gentio que estuda a Torah é parecido a um Alto Sacerdote.” E o profeta Isaías 2:2 ensina que em tempos messiânicos os gentios literalmente correrão para Jerusalém para aprender a Torah. Mas os gentios não podem simplesmente acordar um dia e desejarem a Torah – e portanto Mashiach não pode chegar – se os Judeus esconderem a Torah dos gentios proclamando aceitação de outras religiões. Não, isso ilude os gentios em acreditar que nós vemos suas religiões em paridade com a Torah.

A Torah ensina, “De uma falsa matéria distancie-se” (Êxodo 23, 7). Então, nós devemos ser honestos e claros: O Judaísmo vê todas as outras religiões como impostoras, posto que nenhuma outra religião foi dada por D-us. Isso explica por quê outras exigem fé, não prova como faz o Judaísmo. Nosso dogma central é que apenas o Judaísmo é divino, provado por testemunhas em massa no Sinai – a mesma maneira em que toda história é provada. Revelação a massa é ausente em todas as outras religiões, e isto é por quê nós não aceitamos afirmações sem base. Se nós reconhecemos qualquer outra religião, nós violamos as palavras de D-us: “Não acrescente a ela [Torah] e não subtraia dela” (Deuteronômio 13, 1). Todas as outras religiões desafiam essa diretiva fundamental de D-us em sua adição ou subtração da lei da Torah. Novamente, D-us disse, “Uma Torah…para vós e o converso.” Isso significa que nenhuma outra lei é aceitável, para qualquer pessoal.

Uma outra popular citação adulterada usada para apoiar a superioridade Judaica deriva de uma rude má leitura de Jó 31, 1-2: “Fiz pacto com os meus olhos; como, pois, os fixaria numa virgem? Pois que porção teria eu de D-us lá de cima, e que herança do Todo-Poderoso lá do alto?” Jó de foma justa se defende, reclamando que nunca observou uma mulher por qualquer outra razão que examinava suas qualidades para determinar se ela era uma noiva adequada para seus filhos.

Porque observando mais do que isso, ele perderia sua porção da recompensa divina. [Tornando-se um Rashá (pessoa mal)]. Mas muitos citam de forma adulterada esse versículo, isolando as palavras “porção de D-us de cima” (“chelek Elokim mima’al”) para significar que D-us colocou uma “parte de Si” no interior do homem: Verdadeiramente uma inescusável corrupção da Torah. Isso é também uma clara negação de nossos maiores rabis, que expressam que tais crenças apropriam-se de nosso olam haba, nossa vida futura. E isso tudo em nome do sentimento que como Judeus, nós somos os melhores? Desde quando ignorância e negação da Torah e rabis elevam a alma de alguém sobre o gentio?

Foi a humildade de Ruth que atraiu Boaz. Em verdade, a arrogância Judaica é o exato traço oposto de que Ruth, a conversa, expressou e que conseguiu para si o papel escolhido como ancestral de nossos grandes reis David e Salomão, e do Mashiach que virá.

Pense a respeito que – nossas preces diárias (Salmos), nossos maiores reis, e nosso iminente Mashiach são todos devidos à gentia Ruth. D-us não favorece uma pessoa simplesmente porque seus parentes são Judeus, porque isso não é mérito para um pecador. E D-us não nutre desdém pelo gentio, como nós vemos na escolha de D-us de Ruth, e no louvor de Maimonides de Aristóteles.

D-us não criou o gentio e o Judeu; Ele simplesmente criou o “homem e a mulher”. O “Judeu” não foi uma nova criação, mas simplesmente uma nova designação, fixada para o mesmo objetivo original.

Cada ser humano possui igual potencial para atingir a perfeição e o amor de D-us. Podemos abandonar falsas idéias de superioridade Judaica e gratificação de ego, e trocá-las pela verdade humilde que D-us criou todo homem com uma mesma alma por uma razão – e que Ele ama todas Suas criações igualmente. “Uma Torah…para vós e para o converso.”

Artigo traduzido do site http://www.mesora.org/website/Rabbi Moshé Ben Chayim/Rav Y. Lopes [1]

  1. Imortalidade e a alma – O homem é uma combinação de dois elementos diversos: corpo e alma. A alma é a verdadeira razão de nossa existência. É esta centelha Divina que se constitui na essência de nossa vida interior. Apesar de ser o homem composto de matéria e espírito, seu corpo é somente o invólucro material dessa faísca Divina. Além disso, é a alma que reflete diretamente nossa relação com D’us, pois, como está escrito, “a chama de D’us é a alma do homem” (Provérbios, 20:27). Podemos comparar a alma à chama de uma vela. Quando acesa, sobe, percorre o ar, mas o pavio a puxa de volta à terra. Da mesma forma, enquanto a alma está em constante movimento ascendente, em direção a D’us, o corpo, com suas exigências físicas, a retém neste plano físico. Uma pessoa íntegra e saudável é aquela em quem alma e corpo convivem unidos, em perfeita sintonia; é aquela que consegue atingir uma harmonia entre o seu lado material e o espiritual, alguém que consegue levar uma vida espiritualmente significativa e, ao mesmo tempo, produtiva.

Tipos de alma – O homem tem dois tipos de alma: a “alma animal” (Nefesh HaBehamit), faísca de D’us contida no sangue, a dizer, nos processos da vida químico-fisiológica, é responsável pelos sentimentos e pela inteligência natural do ser humano. Está escrito na Torá: “A força vital da carne está no sangue” (Levítico, 17:11). Como esta “alma animal”, para atender suas necessidades materiais, afasta o homem do plano espiritual, é chamada no Talmud, de “má inclinação” (Yetzer HaRá).

Este tipo de alma não existe somente no homem, mas em todas as criaturas vivas. Transmitida através do material genético no momento da concepção, expande-se constantemente à medida que a criatura amadurece. Conseqüentemente, a inteligência das diversas espécies animais varia muito de uma espécie a outra. O intelecto do ser humano é muito diferente do intelecto dos animais, e sua “alma animal” é responsável por atributos e faculdades distintos como: imaginação, memória, inteligência e vontade.

Além desse “eu” material, o homem possui também uma alma que é única entre todas as criações Divinas. Ao descrever a criação de Adão, diz a Torá: “D’us formou o homem da poeira da terra, e depois soprou em suas narinas a alma da vida – Nishmat Chaim”. O homem, então, tornou-se uma criatura viva – Nefesh Chayá (Gênese, 2:7). A Torá está-nos indicando que a alma humana veio diretamente da Essência mais íntima de D’us. O restante da Criação, por sua vez, foi criado por D’us através da Palavra Divina, que é de um nível inferior, pois assim como as ondas sonoras são geradas por uma pessoa mas não constituem a própria pessoa, da mesma forma o restante da Criação emana do Poder de D’us, mas não de Sua Essência.

Este segundo tipo, a “alma divina”, é uma entidade espiritual muito diferente e mais elevada que a alma “animal”. É a “divina” que dirige a “animal” – nosso lado material – e é através dela que a alma, como um todo, cumpre suas funções e sua missão na terra. Em cada momento da vida do homem neste mundo físico, interagem o lado espiritual e material, um influenciando o outro.

O contato e a atração mútua entre o corpo e a alma criam uma contingência, uma situação única, gerando a pessoa humana, que não é nem só corpo nem só alma, mas uma fusão dos dois. A “alma divina” é freqüentemente denominada “entidade singular” por ser única em sua missão. Pois, apesar de todos os laços que unem cada alma individual à sua Fonte Superior, cada uma dessas é única e especial em sua essência, em sua capacidade e naquilo que delas se exige. Não há duas almas que coincidam quanto aos atos, funções e caminhos que percorrem.

Os cinco níveis da alma – A alma não é algo concreto; está além daquilo que o intelecto consegue compreender por si próprio. A Cabalá explica que o que comumente chamamos da “alma” de um homem consiste, de fato, de várias “almas”. Não é um ponto único no espaço e deve ser entendida não como uma única “existência” que tem uma qualidade ou caráter, mas como muitas “existências”, de vários níveis espirituais.

Podemos dizer que, na realidade, em cada homem há um determinado número de níveis de almas, unidas como os elos de uma corrente que se estende do corpo da pessoa até a Fonte de todas as almas. A ligação entre corpo e alma pode ser comparada com o que acontece na extremidade de um raio de luz, ao iluminar um corpo escuro. O “eu” que surge da relação entre o corpo e a alma não é algo constante de uma essência especifica, é diferente em cada estágio da vida de um homem. Por exemplo, no início de nossa existência, o “eu” concentra-se quase que totalmente no corpo e em suas necessidades. Com o amadurecimento, a pessoa se torna cada vez mais consciente da essência mais elevada de sua alma.

Segundo a Cabalá, o que chamamos de alma humana é composto por cinco partes:

1) Nefesh -“alma animal”, é a alma humana em seu nível mais primário. Anima a existência dando-lhe força de vida, de movimento e propagação das espécies, também capacitando o homem a pensar, divagar e sonhar. A palavra deriva da raiz Nafash, que significa repouso, como no verso.

2)”No sétimo dia, (D’us) cessou o trabalho e descansou (Nafash)” (Êxodo, 31:17). 2) Ruach – que significa vento, é o Espírito, a “alma divina”.

3) Neshamá, literalmente “sopro”, é a Respiração, a “alma superior”, mais pura ainda.

4) Chayá, a Essência vivente.

5)Yechidá, a Essência única, pode ser considerada o ponto de contato entre a alma e a própria essência do Divino. Esta alma só se manifesta ao término do Yom Kipur, durante a Neilá. Essas almas mais elevadas referem-se à verdadeira essência humana e sua associação com D’us, Raiz Suprema, e com os mundos espirituais. Este conceito inclui também a alma adicional, que chega no início do Shabat e se vai, ao seu término.

Nossos sábios ensinam que o ato de D’us, ao insuflar a alma em um corpo, pode ser comparado ao do artesão que sopra o vidro para dar forma a um recipiente. A alma, Neshamá, deixa os lábios d’Ele, viaja como o vento, Ruach, até finalmente descansar, Nefesh.

Dos três níveis, a Neshamá é o mais elevado e, portanto, mais próximo a D’us. Enquanto Nefesh é aquele aspecto da alma que reside no corpo, Ruach fica entre os dois, vinculando o homem à sua Fonte Espiritual. É por essa razão que a Inspiração Divina é chamada Ruach Hakodesh, em hebraico. A Neshamá é movida apenas pelo pensamento; Ruach pela fala e Nefesh pela ação.

A imortalidade da alma – Um dos fundamentos do judaísmo é a crença na imortalidade da alma, na vida após a morte. Se acreditamos na Justiça Divina, conseqüentemente acreditamos também na imortalidade da alma. De que outra forma poder-se-ia conciliar o fato de tantas pessoas justas sofrerem nesta vida?

Da mesma forma que, antes de seu nascimento, uma criança já possui muitas qualidades que não lhe são úteis no ventre materno, mas indicam que nascerá em um mundo onde virão a ser utilizadas, o ser humano possui muitas qualidades que lhe são de pouca valia durante esta vida.

Isto indica que após sua morte física, o homem renascerá em uma dimensão superior (Sh’nei Luchot HaB’rit, BeAssará Maamarot 1:63b, nota. Ver Gesher Ha Chaim, 3:1-2). Detalhes da imortalidade não são mencionados na Torá, já que a Revelação trata apenas do mundo atual. No entanto, quando o profeta Isaías fala sobre o Mundo Vindouro, diz: “Porque em tempo algum se ouviu, jamais os ouvidos se aperceberam nem os olhos viram outro D’us além de Ti, que realizas em favor daqueles que em Ti acreditam” (Isaías, 64:3). Isto significa que nem mesmo aos maiores profetas foi dada permissão de antever a recompensa dos justos.

A partida da alma – Ensinam nossos sábios que todas as almas foram criadas no início dos tempos e estão armazenadas como parte do “tesouro celestial” até o momento de um nascimento. A alma é vinculada ao corpo desde o momento da concepção e nele permanece até o final da vida física desse corpo. Por isso, em hebraico, fala-se da morte como a “partida da alma” (Yetziat haNeshamá).

Nesse momento, após ter completado sua jornada terrena, a alma procura retornar à sua Fonte. No judaísmo o corpo do homem não é meramente um objeto, mas parte da própria pessoa. Por isso, temos a obrigação de enterrar e honrar o corpo, mesmo após a alma o ter deixado. Nossos sábios ensinam que imediatamente após a morte, a alma encontra-se em um estado de grande confusão.

Daí o costume de se permanecer ao lado de uma pessoa em seus últimos momentos: para que não esteja sozinha ao enfrentar a derradeira partida. (Turei Zahav, Yorê Deá, 339: 3) Itzur Shulchan Aruch, 194:4). A Cabalá ensina que nesse momento de desligamento, a alma está totalmente ciente das limitações físicas de seu corpo. Isto ocorre mais intensamente antes do enterro. A alma, então, literalmente vela por aquele corpo que era “seu”, durante sete dias. Isto foi dito por Jó, no verso … “E só por ele sofre sua alma” (14: 22).

O julgamento da alma – de fato a avaliação espiritual de sua atuação durante a vida na esfera terrena – ocorre durante o primeiro ano após a “partida”. É este o motivo pelo qual os homens recitam o Kadish no primeiro ano após a morte do pai ou mãe. Pela mesma razão, quando é mencionado o nome dessa pessoa, durante o primeiro ano do luto, deve-se dizer: “Que eu possa servir de expiação por seu descanso final” (Hareni Kaparat Mishkavó-á). O julgamento principal após a morte ocorre em Gehinam, esfera onde, para poder receber a recompensa eterna, a alma é “branqueada” e purificada em “fogo espiritual”.

Sabemos que a idéia de inferno eterno não é um conceito judaico, mas cristão. Somente as almas dos tzadikim, os justos, têm condições de ascender rapidamente pela dimensão espiritual e atingir níveis espirituais elevados. Neste tocante foi dito ao profeta: “Se andares nos Meus caminhos e observares os Meus preceitos, também tu julgarás … e Te darei livre acesso entre os anjos que aqui se encontram” (Zacarias 3:7).

Com isto, D’us fazia ver ao profeta a visão dos anjos como estacionários e dizia que ele poderia mover-se entre eles. Isto está mencionado também no verso, “E o pó retorne à terra, de onde veio, e o espírito retorne a D’us, que o concedeu” (Eclesiastes, 12: 7). Ademais, enquanto os anjos estão limitados a seu próprio nível, os homens, através de seus atos, podem “mover-se” e ascender espiritualmente.

Algumas autoridades religiosas afirmam que aquilo que os Sábios chamam de Olam HaBá, ou Mundo Vindouro, refere-se à dimensão espiritual à qual a alma ascende após deixar o corpo. A maioria entretanto considera Olam HaBá, um estágio novo e completo da vida terrena, ao qual o homem será conduzido somente após a Era Messiânica e a Ressurreição dos Mortos. Todas as almas dos falecidos passam, após a morte, para uma dimensão intermediária chamada Olam HaNeshamot, “Mundo das Almas”. É lá que são julgados e permanecem até a Ressurreição e o Juízo Final.

A reencarnação: retificando os erros – Quando uma alma deixa seu corpo, adentra esse Mundo das Almas, onde permanece, em estado de repouso. Durante esse período, experimenta um sublime deleite. Seu nível, no Mundo das Almas, também é determinado por suas realizações, da mesma forma como o será em sua recompensa final.

No entanto, a verdadeira perfeição destinada aos que desta são dignos, não é atingida somente pelo corpo ou pela alma, mas por ambas as partes, em conjunto, após a Ressurreição. (Ver R. Bachya ad loc) (De Kidushin 71ª). Uma mesma alma humana pode ser reencarnada várias vezes, em corpos diferentes, tendo dessa maneira oportunidade de retificar danos feitos em encarnações anteriores ou de atingir a perfeição não alcançada previamente. Em sua origem, a alma é parte da Essência Divina, sendo totalmente pura.

Mas, em sua vida terrestre, pode desviar-se. Será, pois, necessário voltar para retificar os erros ou para tentar ascender a níveis espirituais mais elevados. Ao cabo de todas essas encarnações, a alma é, finalmente, julgada. E esse julgamento depende de tudo o que aconteceu em suas várias encarnações, ou seja, de sua condição como ser vivente em cada uma destas. É extremamente rígido o julgamento Divino de cada indivíduo. Abrange todos os aspectos de sua natureza e de sua exata situação.

Porém, no Mundo Vindouro, o do Bem verdadeiro, cada indivíduo terá que arcar apenas com a responsabilidade por sua missão e ação neste mundo – e não pelo que não resulte de seus próprios atos. Contudo, o ponto crucial é o fato que tudo ser verdadeiro e justo, como afirma a Torá (Deuteronômio, 32: 7): “A obra do Criador é perfeita, todos os Seus caminhos são justiça”.

Nada que foi criado pode englobar os pensamentos de D’us, nem a infinita profundidade do Seu plano. Sabemos apenas que o princípio da reencarnação, como uma das experiências humanas, também segue a regra do julgamento imparcial, determinado por D’us, para aperfeiçoar a humanidade como um todo. O princípio da reencarnação é o da continuidade, de maneira que uma obra não seja aniquilada pelo desaparecimento de um “ser”. A reencarnação pode ser explicada por uma bela analogia de Rabi Moshé Cordovero: é como a chama de uma vela, que pode acender muitas outras sem que sua própria flama se veja diminuída…

Bibliografia: Kaplan, Rabi Aryeh, Handbook of Jewish Thought./ Cohen, Raphaël, Le Judaïsme en 7l thèmes./ Schneerson, Rebe Menachem Mendel, Rumo a uma vida significativa. A sabedoria do Rebe Adaptado por Simon Jacobson. Tradução Benjamin Albagli Neto, Editora Maayanot, São Paulo./ Luzzatto, Rabi Moshé Chaim, O caminho de D’us, anotado por Rabi Aryeh Kaplan, Editora Maayanot, São Paulo. [2]

Fontes: [1] DvarTorah Blog, junho 19, 2016: https://dvartorahblog.wordpress.com/2016/06/19/onde-consigo-uma-alma-judaica/ [2] Morasha, Edição 46 – Setembro de 2004: http://www.morasha.com.br/misticismo/imortalidade-e-a-alma.html

Coordenador: Saul S. Gefter

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