Congregação Judaica Shaarei Shalom – שערי שלום

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“Nem só de pão vive o homem, mas da palavra de D’us” (Devarim/Deuteronômio V.lll:3).

 

  1. Introdução: Shavuot – Shavuot é o segundo dos três maiores Dias Festivos (Pêssach é o primeiro e Sucot o terceiro), e vem exatamente cinqüenta dias após Pêssach. A Torá foi outorgada por D-us ao povo judeu no Monte Sinai há mais de três mil e trezentos anos. Todos os anos neste dia, renovamos nossa aceitação do presente de D-us. A palavra Shavuot significa “semanas”: assinala a compleição das sete semanas entre Pêssach e Shavuot (o período do ômer), durante o qual o povo judeu preparou-se para a Outorga da Torá. Durante este tempo, purificou-se das cicatrizes da escravidão e tornou-se uma nação sagrada, pronta a entrar em uma aliança eterna com D-us, com a Outorga da Torá. Shavuot também significa “juramentos”. Com a Outorga da Torá, o povo judeu e D-us trocaram juramentos, formando um pacto duradouro de não abandonar um ao outro.

 

A Torá é composta de duas partes: a Lei Escrita e a Lei Oral. A Torá escrita contém os Cinco Livros de Moshê (Moisés), os Profetas e os Escritos. Juntamente com a Torá Escrita, Moshê recebeu também a Lei Oral, que explica e esclarece a Lei Escrita. Foi transmitida oralmente de geração a geração e finalmente transcrita no Talmud e Midrash.

 

A palavra “Torá” significa instrução ou orientação. A palavra mitsvá significa tanto mandamento como conexão. Há 613 mandamentos. Os positivos (faça), totalizando 248, são equivalentes ao número de órgãos no corpo humano. Os 365 negativos (não faça) são equivalentes ao número de vasos sanguíneos no corpo humano. Através do estudo de Torá e cumprimento das mitsvót conectamos a nós e ao ambiente a D-us. O propósito de D-us ao criar o mundo é para que santifiquemos toda a Criação, imbuindo-a de santidade e espiritualidade.

A Outorga da Torá foi um evento de grande alcance espiritual — que tocou a essência da alma judaica na ocasião e para todo o sempre. Nossos Sábios a compararam a um casamento entre D-us e o povo judeu. Um dos muitos nomes de Shavuot é o Dia do Grande Juramento, (a palavra shavua significa também juramento). Neste dia, D-us jurou-nos eterna devoção, e nós também prometemos lealdade eterna a Ele.

Neste dia recebemos um presente do Alto, que não teríamos conseguido com nossas limitadas faculdades. Recebemos a habilidade de atingir e tocar o Divino; não apenas para sermos seres humanos refinados, mas seres humanos Divinos, capazes de se elevar acima e além das limitações da natureza.

Shavuot é o dia no qual celebramos a grande revelação da Outorga da Torá no Monte Sinai, no ano 2448. Você ficou ao pé da montanha. Seus avós e bisavós antes deles. As almas de todos os judeus de todos os tempos juntaram-se para ouvir os Dez Mandamentos, transmitidos pelo próprio D-us. [1]

  1. “Nem só de pão vive o homem, mas da palavra de D’us” (Devarim/Deuteronômio V.lll:3).

A explicação óbvia deste versículo é que o homem exige uma dimensão espiritual em sua vida, e não deveria viver apenas para comer, beber e saciar seus desejos físicos. Mas isto também pode ser interpretado de maneira bastante literal; não é o próprio alimento que dá vida, mas a centelha da Divindade – a “palavra de D’us” – que está nos alimentos. O sistema digestivo extrai os nutrientes, enquanto a Neshamá, a alma, extrai a centelha Divina que se encontra na natureza. Estas “centelhas” provêm de uma fonte de Divindade mais elevada ainda que a Neshamá do homem.

A energia Divina em cada molécula de alimento é o que realmente nos dá vida. O alimento Casher possui uma poderosa energia que confere força intelectual e emocional. O judaísmo, através da cashrut bem como de todos demais preceitos da Torá, nos exercita diariamente a conectar o físico ao espiritual. O ato de comer, dormir, acordar, caminhar e agir em todas as esferas de nossa vida está intrinsecamente ligado a elevação das centelhas Divinas que se encontram em nosso caminho. Comer ou beber é apenas uma ínfima, mas essencial, parcela de todas as ações que nos ajudam a entender e a nos aproximar um passo a mais do Criador.

Os critérios chassídicos, baseados nos ensinamentos místicos do Rabi Yitschac Luria, explicam por que a influência da alimentação Casher é tão poderosa. Assumimos como certo o fato de que precisamos comer para viver.

Porém, se a alma dá vida ao corpo, então por que precisamos de nutrição externa? Por que precisamos comer? Os filósofos gregos fizeram a mesma pergunta, mas não encontraram uma resposta satisfatória.

A questão se complica ainda mais quando consideramos que somos mais dependentes de matéria inanimada – ar e água – do que de plantas, e ainda mais de plantas do que de animais. A hierarquia da Criação parece invertida; normalmente, deveríamos esperar que, quanto mais força vital aparente em alguma coisa, mais vida aquilo seria capaz de conceder.

A Revelação no Sinai

A alvorada do terceiro dia trouxe trovões e relâmpagos que encheram o ar. Pesadas nuvens pairavam sobre a montanha, e os sons crescentes e constantes do shofar fizeram o povo estremecer com temor. Moshê levou os Filhos de Israel para fora do acampamento e colocou-os ao pé do Monte Sinai, que estava todo coberto por fumaça e trepidações, pois D-us tinha descido sobre ele, em fogo. O toque do shofar intensificou-se, mas de repente todos os sons cessaram, e seguiu-se um silêncio absoluto; então D-us proclamou os Dez Mandamentos desta forma:

 

1 – “Eu sou o Senhor teu D-us, que te tirei da terra do Egito, da casa dos escravos.

2 – “Não terás outros deuses diante de Mim. Não farás para ti imagem de escultura, figura alguma do que há em cima, nos céus, e abaixo na terra, ou nas águas, abaixo da terra. Não te prostrarás diante deles, nem os servirá, pois sou o Eterno, teu D-us, D-us zeloso, que visita a iniqüidade dos pais aos filhos sobre terceiras e quartas gerações aos que me aborrecem; e mostrarei misericórdia até mil gerações daqueles que Me amam e guardam Meus mandamentos.

3 – “Não jurarás em nome do Eterno, teu D-us, em vão; porque não livrará o Eterno ao que jurar Seu nome em vão.

4 – “Lembra-te do dia de Shabat para santificá-lo. Seis dias trabalharás, e farás toda tua obra. E o sétimo é o Shabat do Eterno, teu D-us, e não farás nenhuma obra, tu, teu filho, tua filha, teu servo, tua serva, teu animal, e teu peregrino que estiver em tuas cidades; pois em seis dias o Senhor fez os céus e a terra, o mar, e tudo o que há neles, e repousou no sétimo dia; portanto, abençoou o Eterno o dia de Shabat e o santificou.

5 – “Honra teu pai e tua mãe, para que se prolonguem teus dias sobre a terra que o Eterno, teu D-us, te dá.

6 – “Não matarás.

7 – “Não cometerás adultério.

8 – “Não furtarás.

9 – “Não levantarás falso testemunho contra teu próximo.

10 – “Não cobiçarás a casa de teu próximo; não cobiçarás a mulher de teu próximo, e seu servo, ou sua serva, e seu boi, e seu asno, e tudo que seja de teu próximo.”

 

Todo o povo ouviu as palavras de D-us, e ficaram assustados. Imploraram a Moshê para ser o intermediário entre D-us e eles, pois se o próprio D-us continuasse a dar-lhes toda a Torá, certamente morreriam. Moshê disse-lhes para não terem medo, pois D-us revelara-Se a eles para que O temessem e não pecassem.

Então D-us pediu a Moshê para subir a montanha; pois apenas ele era capaz de ficar na presença de D-us. Lá Moshê receberia as duas tábuas contendo os Dez Mandamentos e a Torá completa, para ensiná-los aos Filhos de Israel. Moshê subiu a montanha e lá permaneceu por quarenta dias e quarenta noites, sem comer ou dormir, pois havia se tornado semelhante a um anjo. Durante este tempo, D-us revelou a Moshê toda a Torá, com todas suas leis e suas interpretações. Finalmente, D-us deu a Moshê as duas Tábuas do Testemunho, feitas de pedra, contendo os Dez Mandamentos, escritos pelo próprio D-us. [2]  

 

III. O GPS: Sistema de Posicionamento Divino * Por Rabino Yosef Y. Jacobson

A Nuvem – A jornada do povo judeu no deserto, relata a Torá na porção (parashá) Behaalotechá (Bamidbar/Números), foi guiada por D’us. Uma nuvem pairava sobre o Santuário portátil construído no deserto. “Toda vez que a nuvem se erguia da Tenda, os israelitas empreendiam viagem; e no local onde a nuvem parava, eles acampavam.”1

“Eles então acampavam à palavra de D’us e se moviam à palavra de D’us,” declara a Torá.2

Ora, a Torá repete esta frase “Eles então acampavam à palavra de D’us e prosseguiam à palavra de D’us” – três vezes!3 Isso é estranho. Por que repetir as mesmas palavras três vezes? A mensagem ficou bem clara da primeira vez: a jornada dos judeus através do deserto – seu movimento, bem como suas paradas – foi determinada por D’us.

Três Atitudes – Essa declaração triplamente repetida do mesmo fato – “Eles então acamparam à palavra de D’us e se moveram à palavra de D’us” – representa três estados de consciência relacionados a D’us orientando a jornada israelita através do deserto. A nuvem pode ter determinado o caminho, mas havia três maneiras de entender esta verdade.

Da primeira vez que a Torá faz essa declaração, é meramente declarando o fato objetivo. O povo judeu moveu-se à palavra de D’us e acampou à palavra de D’us. Alguns deles podem não ter prestado atenção à nuvem ou até pensaram que a mudança de posição era aleatória. Porém sua falta de percepção não alterou a verdade: era o GPS – …, Sistema de Posicionamento de D’us – que os guiava no deserto.

A segunda declaração nos informa sobre uma percepção profunda que invadia o povo judeu na época. Nas palavras do comentarista espanhol medieval Ramban (Rabi Moshê ben Nachman, Nachmânides, 1194-1270 E.C.): “Embora eles possam ter ficado exaustos (e quisessem ficar mais tempo) ou mesmo se estivessem descontentes com o local e quisessem prosseguir, eles desconsideraram os próprios desejos e guiaram seus movimentos pela nuvem”.4

Eles estavam conscientes do fato de que deveriam subordinar suas preferências à vontade de D’us que ditava sua jornada.

A terceira declaração leva isto a um novo nível. O povo judeu, noz diz a Torá, não tinha as próprias preferências. Eles não se importavam de acampar, nem de seguir em frente. Seu exclusivo desejo era servir como condutores para o rumo que D’us mapeara para eles, abraçar os destinos que o Todo Poderoso preparara para eles. Sua visão pessoal era inteiramente alinhada com a visão de D’us para eles.5

Ilusão ou Sinfonia? Esta trilha israelita através do deserto é uma metáfora vívida para nossas próprias jornadas de hoje, tanto como indivíduos quanto como parte de um povo. Uma nuvem paira acima de cada um de nós guiando nossa viagem individual e coletiva na vida. O Baal Shem Tov (1698-1740 E.C.), fundador do Movimento Chassídico, ensinava que há um “GPS Divino” instilado na alma de toda criatura, guiando-a através dos tortuosos caminhos do deserto da vida.

Ora, cabe a nós escolher dentre as três perspectivas mencionadas acima.

No primeiro estado de consciência, você está separado do “quadro geral” da sua vida. Sua jornada ainda é determinada por D’us, mas aquela verdade ilude você. Tem sua imaginação, você é uma bolha isolada num universo vasto e sem significado; a realidade em seu âmago é indiferente às suas lutas e triunfos. Sua vida carece de uma narrativa. Porém ao contrário de seu GPS terreno que você tem a opção de ignorar, ficar furioso com ele ou desligar, seu GPS celestial ainda o orienta mesmo que sua voz permaneça inaudível.

No segundo e mais elevado estado de consciência, você fica ciente de uma verdade inevitável – que a vida apresenta a cada um de nós um conjunto específico de desafios e oportunidades. Cada um de nós tem uma missão para a qual nossa alma foi enviada à terra, portanto todo encontro e experiência é um componente indispensável de uma grande sinfonia cósmica que cobre o universo inteiro. Você está consciente dele e se rende a ele, muitas vezes de má vontade, subjugando seus próprios sonhos aos de D’us.

No terceiro e mais profundo estado de consciência, você alinha suas ambições, sonhos e metas com aqueles de D’us. Vai além de sua estreita percepção de aonde sua vida deve levar você, e você permite que o âmago da realidade de D’us estabeleça o rumo.

Em vez de resistir, escapar e se esconder, você abraça a vida, a todo momento, com um grande abraço. Toda manhã você acorda e diz: D’us! Estou pronto para o que der e vier! Onde quer que Você deseje que eu vá hoje, estou dentro. Você dirige e eu aperto o pedal à toda velocidade. Bon voyage!  Sim, às vezes preferimos outras rotas e destinos alternativos. O GPS de D’us às vezes nos leva através de estradas estranhas e complexas; muitas vezes prefere caminhos de pedra em vez dos pavimentados.

Mas você vai passar o resto da sua vida combatendo a realidade? Há sequer uma existência fora da realidade? Ou você terá a coragem de ouvir a “pequena voz silenciosa” guiando você através do deserto até a Terra Prometida?

* Rabino Yosef Y. Jacobson é editor de Algemeiner.com, um site de notícias e comentários judaicos em inglês e yidish. Rabino Jacobson  também faz palestras sobre ensinamentos chassídicos, sendo muito popular e bastante procurado. É autor da série de fitas “Um Conto Sobre Duas Almas”.

NOTAS: 1.  Bamidbar/Numeros 9:17           2.  Ibid. 9:18   3.  Ibid. 9:18; 20:23   4.  Rambam(Maimonides) ibid. 9:19                        5.  Veja o comentário de Rabi Chaim ben Atar (falecido em 1740 E.C. em Jerusalém}, conhecido como o Or Hachaim a estes versículos. Baseado em sua explicação, fica claro como as palavras em cada um dos três versículos representam essas três perspectivas. [3]

Fontes:

[1] Visão Judaica Online: http://www.visaojudaica.com.br/Junho2005/artigos/17.htm

[2] Chabad: http://www.chabad.org.br/mitsvot/cashrut/artigos/alimentoParaAAlma.html

[3] Chabad: http://www.pt.chabad.org/library/article_cdo/aid/1874351/jewish/GPS-G-d-Position-System.htm

 

Coordenador: Saul Stuart Gefter

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