Congregação Judaica Shaarei Shalom – שערי שלום

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Disse Rabi Shimon: “O Mundo apoia-se sobre três pilares: Sobre a Torá, o serviço Divíno e a bondade”

  1. Entre D’us e o mundo de natureza esconde-se uma ponte “oculta”. Atravessá-la é perigoso e um pequeno deslize significa cair no abismo da idolatria.

A maioria das crianças se impressiona com histórias de bruxas e diabos, como aparece nos filmes de Harry Potter e o Conde Voldemort. Já num mundo contrário a aquele, ou seja, racional, estas forças misteriosas adicionam um elemento de diversão e excitação e mexem com a imaginação. Eles permitem a uma criança sentir que existe um caminho para pelo qual podem ultrapassar um sistema impiedoso e insensível.

Nasceu pobre sem ser culpa sua? Não tem problema, uma maravilhosa fada virá até a porta da sua casa e lhe dará a fortuna que você tanto ansiava. Há alguém lhe atormentando impiedosamente? Um feitiço será lançado e ele se tornará um esquilo para o resto de sua vida.

Os filmes da Bruxa de Blair proporcionam aos adolescentes alguns momentos de excitação e medo, e uma leve sensação de que talvez realmente exista algo espreitando do lado de fora.

TRÊS ABORDAGENS GERAIS

Quando uma pessoa amadurece, três abordagens gerais em relação ao “oculto” e às forças externas começam a se manifestar.

Existem pessoas sérias, racionais que riem de tudo isso. Para elas o mundo é racional, determinado e qualquer outra coisa não faz sentido para elas.

Existe também, um segundo grupo de pessoas, que tendem a ser espirituais, artísticas, poéticas, etc. Estas sentem que o mundo tem uma dimensão espiritual, por isso, existem todos os tipos de forças e mistérios que a razão não pode compreender. Este é o mundo em que há a leitura da borra do café, cartas de tarô, bolas de cristal e previsões psíquicas.

Em seguida, existem pessoas profundamente religiosas, cuja visão de mundo é a  de uma grande batalha entre as duas forças no mundo: a do bem e a do mal.

O capitão da força do bem é D’us, ajudado por muitos anjos, santos, mártires, etc. O capitão da força do mal é o diabo, ajudado por demônios, espíritos e políticos maus. O mundo deles é ameaçado por gente como as pessoas más do livro de Harry Potter, devido a grande severidade com que é lidada a bruxaria na Bíblia.

NÃO JUDAICAS

Nenhumas destas três abordagens gerais estão de acordo com o Judaísmo. Qual é a perspectiva da Torá em relação à bruxaria?

A Torá tem uma opinião negativa em relação à bruxaria em seus variados formatos, como por exemplo:

“O feiticeiro não deve ter permissão para viver.” (Êxodo 22:17)

” Quando entrares na terra que D’us lhe concedeu; não aprenderás a fazer conforme as abominações daqueles povos.Não se achará entre ti…nem adivinhador, nem agoureiro, nem feiticeiro…nem quem consulte os mortos. Pois todo aquele que faz tal coisa é abominação para D’us, e é por causa destas abominações que D’us está lhe dando sua terra.” (Deuteronômio. 18:9-12)

Mas por que? Qual  é o problema ?

A abordagem antagonista “diabo versus D’us” é um anátema para o Judaísmo por causa do dualismo que se encontra nela. D’us é Um, e só Um. Ele age de muitos modos diferentes, mas não existem “dois” exércitos no sentido completo da palavra.

O Judaísmo sim fala do “Satanás/diabo,” mas o vê como um agente de D’us, testando a sinceridade das ações do homem, a força de suas convicções, e a perseverança de sua fibra moral. Embora este “diabo” pareça atrair o homem para fazer o que é errado, ele não é uma criatura má. Mais do que isso, ele conduz uma “operação de picada”; atraindo para o lado ruim, mas na realidade trabalhando para D’us. Uma leitura superficial do início do livro de Jó transmite esta mensagem: D’us enviou  “Satanás/diabo” para testar  a retidão de Jó.

Da mesma forma que um dentista ou médico testa a firmeza de um dente ou osso sondando-os e da mesma forma também que o exército analisa a integridade e fidelidade de seus soldados testando-os, assim é que D’us faz com relação ao homem. Um teste revela o mérito interno das ações da pessoa, demonstrando realmente do que elas são feitas.

Então, se mágico e oculto existem, por que são tão maus?

MÁGICA BOA, MÁGICA MÁ

Nós também encontramos muitos tipos de “mágica boa” nas fontes talmúdicas, como bênçãos, amuletos etc. Então, como distinguimos entre estes dois tipos de forças espirituais?

A perspectiva mais usada é a de Nachmânides, um grande pensador. Tentaremos adaptar e explicar esta perspectiva.

Embora D’us seja o único criador do universo, Ele criou um sistema autônomo de “natureza” que serve como uma superfície intermediária entre D’us e o homem.

O sistema da natureza é auto-suficiente e tem suas leis e relações de causa e efeito. Então se uma pessoa utilizar este sistema sem recurso imediato de D’us, pode ser considerado como um tipo de ateísmo. É fácil pensar que o sistema se movimenta sozinho, independente de D’us. Gravidade, inércia, eletromagnetismo, e etc., todos funcionam da mesma forma se a pessoa é um pecador ou um santo. Uma pessoa que acredita nos fenômenos de natureza sem se preocupar em si perguntar sobre sua causa, nem sendo sensível à manipulação de D’us nestes eventos naturais, é iludido pelo sistema a desacreditar em D’us.

Entre D’us e este mundo da natureza esconde-se uma ponte que chamamos  “oculta” ou “quase-espiritual”. Ela é capaz de mudar e desviar-se das regras da natureza, por milagres, mágicas, etc. Mas este mundo quase-espiritual, embora seja mais elevado do que o da natureza, não é o Divino. Tem suas regras e leis de operação e é talvez mais poderoso do que o mundo físico, mas certamente não é onipotente.

Então devemos usar este mundo do mesmo modo que usamos o mundo físico?

Segundo Nachmânides, de modo geral, D’us não deseja que nós façamos uso deste mundo. D’us quer que tomemos consciência Dele dentro do mundo natural, e através de Seus fenômenos. Alguém que subverte o sistema da natureza, usando constantemente o mundo sobrenatural, vai contra a vontade de D’us.

Em casos como estes, em que pessoas utilizaram estas forças sobrenaturais, elas sempre enfatizaram o fato de que os milagres gerados deste modo mostram a onipotência de D’us de superar os fenômenos naturais. Isto é semelhante  (entretanto não é o mesmo que) os milagres que D’us mostrou a Israel no Egito com o objetivo de estabelecer verdades Divinas. Quando uma pessoa íntegra usa, por acaso, a intervenção Divina, ela se apóia nestas grandes verdades.

O PERIGO DE FAZER ERRADO

É neste momento que existe o perigo de fazer errado. Uma pessoa que percebe que as leis da natureza em relação a elas mesmas são insuficientes para explicar o mundo, ela penetra neste mundo mais espiritual e encontra uma mistura de todos os tipos de “seres espirituais.” Se ele entender que estes são agentes de D’us, esta se torna uma experiência espiritual verdadeira.

Mas, se ele entender de modo errado que estes seres são independentes de D’us, estará participando de uma adoração de ídolos! Estas forças, então se tornam uma fonte para o mal quando  são vistas como um poder alternativo para D’us.  Talvez a melhor ilustração para esta dupla abordagem está no episódio da “serpente de cobre”:

E as pessoas falaram mal de D’us e Moisés… e D’us mandou  entre o povo serpentes abrasadoras, que mordiam o povo e morreram muitos do povo de Israel. E disso D’us a Moshé faça uma serpente abrasadora (de cobre), põe-na sobre uma haste: e será que todo mordido que a olhar, viverá. Então Moisés fez uma serpente de cobre e a pôs sobre uma haste; sendo alguém mordido por alguma serpente, se olhava para a de cobre, sarava.. (Números 21:4-9)

A Mishná (Rosh Hashaná 29a) faz uma abordagem:

A serpente curou ou matou? Mais propriamente, quando Israel olhou ao céu e dedicou seus corações ao seu Pai Divino [eles eram curados], e quando não, eles se enfraqueciam.

Aqui temos ambas as facetas do sobrenatural: primeiramente, a natureza milagrosa da serpente fez com que as pessoas percebessem que a praga foi mandada por D’us, ou seja, Ele a criou, e então trabalharam para se melhorar. Desta forma, foi uma experiência espiritual positiva.

Mas, mais tarde as coisas se desintegraram e ao invés da serpente ser uma forma de reconhecimento a D’us, se tornou uma serpente curativa independente do poder de D’us. E isto era idolatria. Por essa razão, centenas de anos mais tarde, o Rei Hezekiah destruiu esta serpente de cobre, pois as pessoas a tinham transformado em ídolo!

ENTENDENDO A ADORAÇÃO DE ÍDOLOS

A adoração de ídolos é a percepção de que existem muitas forças com variados poderes sobre a humanidade e talvez até acima de D’us. O idólatra acha que pode usar estes “poderes” contra D’us se souber como arrancá-los para longe de D’us.

É como se o poder do D’us fosse investido numa arma de fogo que Ele segura em Sua mão. O idólatra acha que se  arrancar esta arma de fogo de D’us, poderia, então controlar, ter todo o poder. Ele compara os feitiços da bruxaria com a habilidade de dominar D’us.

O exemplo principal deste tipo de pensamento é o do profeta do mal Bilam, que é chamado de feiticeiro pela Torá. Ele era uma pessoa com muito conhecimento nesta área do universo. Sempre conspirava em usar o mundo mágico contra D’us. Pensava que entendia a mente de D’us e que com uma poderosa manipulação, poderia ser mais esperto do que Ele!

De certo modo, esta é a pior forma de idolatria possível. Por um lado, a pessoa está ciente de algo “real.

” Não é um estranho que olha para uma pedra que uma mente primitiva fantasiou num  d’us. Mais do que isso, é um poder que trabalha. Mas, mesmo assim é totalmente falso, porque nada é independente de D’us.

Para nós, o teste de “espiritualidade” é a moralidade. Qualquer forma de “espiritualidade” que não faz nenhuma demanda moral ao ser humano, não busca  trazê-lo mais íntimo de D’us e não destaca o potencial Divino de homem, é espiritualidade falsa ou mal. Se uma pessoa prática “rituais ocultos” e o conteúdo deles é um murmurar de palavras estranhas, fantasias estranhas, ou rituais estranhos, é, ou falso ou mal. Normalmente é falso, mas nos casos em que ele mexe com estes poderes, é mal, pois separou estes poderes de D’us.

Os grandes rabinos que executaram atos sobrenaturais, tinham o objetivo de trazer para casa uma mensagem sobre D’us. Eles ordenaram as pessoas a reconhecerem o Criador, desenvolverem seu caráter, serem bons com o próximo, serem honrados e féis, etc. Colocados num contexto maior de D’us, Torá e moralidade, estes milagres incomuns foram realmente revelações  Divinas.

por Rabbi Ahron Lopiansky, Rosh yeshivah de Yeshiva of Greater Washington, Washington, D.C., EUA

  1. Palavras finais Mesmo existindo uma total proibição nas fontes judaicas, os atos que envolviam tanto feitiços como também magia negra, conquistaram espaços significativos na vida judaica medieval, principalmente entre os judeus portugueses. Contrariando as afirmações do historiador Pedro de Azevedo, que afirmava existir “uma supremacia intelectual entre os judeus e era de certo que entre eles se recrutavam os feiticeiros mais famosos”, a nossa opinião é bastante diferente: Não existe relação alguma entre o nível intelectual dos judeus com a cura através da magia ou dos feitiços. Até por que a magia nunca foi uma atividade das elites. Pelo contrário, a história de Aviziboa representa um episódio único dessa natureza. Ele nos ensina também que crenças e superstições populares penetraram de forma profunda na tradição judeu-portuguesa no medievo. Concluímos este estudo com a célebre frase do inquisidor espanhol D. Alonso de Salazar, o homem que reprimiu o forte movimento de bruxaria em Logronho, na região dos vascos, entre 1609 e 1614: “No hubo brujos ni embrujados en el lugar hasta que se comenzó a tratar y escribir de ellos” (Não houveram bruxas nem feiticeiros no lugar até que começaram a falar e escrever sobre eles.) [2]

 

Fontes: [1] Aish Brasil.com, Publicado no dia 29 de outubro de 2000, domingo: http://www.aishbrasil.com.br/new/artigo_bruxaria.asp

[2] Cong. Judaica P`Nei Or, Centro de Estudos e Pesquisas, FEITIÇARIA, BRUXARIA  E JUDAISMO (Parte 1, 5771), 06 de maio 2011 –  02 de Iyar de 5771: Por Reuven Faingold é Doutor em História e História Judaica pela Universidade Hebraica de Jerusalém. Professor no Departamento de História da Arte da FAAP em São Paulo e Ribeirão Preto. ArquivoMaaravi,RevistaDigitaldeEstudosJudaicosda,UFMG,2007: http://www.reuvenfaingold.com/artigos/avisiboa.pdf

 

Coordenador: Saul Stuart Gefter

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