Congregação Judaica Shaarei Shalom – שערי שלום

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  1. A luta judaica pela justiça social – Desde o início da história do mundo, vemos que as injustiças sociais acabaram por arruinar as sociedades. Este foi o caso explícito da geração do Dilúvio, de Sodoma e Gomorra e da decadência de outros impérios. Portanto, a questão da justiça social é de vital importância para a continuidade sadia da sociedade como um todo.

O judaísmo, através da mitsvá (boa ação) da tsedacá (benevolência) — que etimologicamente provém da palavra tsedec, significando “justiça” —, estabelece uma ligação entre os dois termos. A tsedacá acarretará um tsedec na sociedade; ou, mais claramente, a bondade tem a função de estabelecer a justiça social. O fato de a Torá ter transformado a tsedacá numa obrigação reforça fortemente a noção da generosidade. Todavia, falando da tsedacá como obrigação moral, o judaísmo se dirige ao indivíduo em linguagem singular. Apela então à consciência do homem, não a considerando uma obrigação coletiva.

A justiça social nos versículos bíblicos – Assim você encontrará nos versículos do Deuteronômio (15:7-10): “Quando, num assentamento na terra que D’us, teu Senhor, está te dando, qualquer de teus irmãos é pobre, não endureças teu coração ou feches tua mão contra teu irmão necessitado. Abre tua mão generosamente, e estende-lhe qualquer crédito de que ele necessita para cuidar de suas carências. Sê muito cuidadoso para que tu não tenhas uma ideia irresponsável e digas para ti mesmo: ‘O sétimo ano está se aproximando, e ele será um ano de remissão’. Tu podes então olhar perversamente para teu irmão empobrecido, e não lhe dar nada. Se ele então reclama a D’us a teu respeito, tu então terás um pecado. Portanto, faze todo esforço para dar-lhe e não te sintas mal em dar-lhe, uma vez que D’us te abençoará em todos os teus empreendimentos, não importa o que tu fizeres.” Observem bem como todos esses versículos estão no singular.

A dimensão pessoal que a Torá enfatiza sobre o altruísmo e a benevolência se expressa na prática de duas seguintes formas: a) se a comunidade ou o governo, por qualquer motivo, não cuida da justiça social, esta continua naturalmente sendo obrigação do individuo; b) a tsedacá não se limita a uma assistência financeira.

A carência é um estado recuperável à pessoa – Os nossos sábios do Talmud aprenderam do versículo supra­citado (“qualquer crédito que ele necessita para cuidar de suas carências”) que devemos prover o carente de tudo o que ele necessita: assisti-lo moralmente, restituir a sua honra e a vida que ele estava acostumado; de modo geral, considerar a situação de cada indivíduo e reerguê-lo com dignidade.

A visão judaica possui uma abordagem realista e uma vasta experiência milenar de como combater a injustiça social. Basta citar o testemunho do grande filósofo e legislador Maimônides (séc. XII): “Nunca vimos ou ouvimos falar de uma comunidade judaica no mundo que não tenha organizado o seu Fundo de Assistência (tsedacá) (Leis dos Presentes aos Necessitados, capítulo 9, artigo 3).

Lembremos o que o salmista Rei David escreve (41:2): “Louvável é aquele que entende o pobre”. A literatura midráshica ressalta que não está escrito “louvável é aquele que dá”, mas “aquele que entende o pobre”. Extraído do prefácio do livro “A Luta Pela Justiça Social”) [1]

  1. Judaísmo e justiça social – Por Rabino Henry I. Sobel, Z”L

Caridade nos é um imperativo ético e religioso; a palavra hebraica para isso é “tzedaká”, justiça

No Ano Novo judaico, que se iniciou ontem à noite, comemoramos o aniversário do universo, de toda a humanidade

A fome e a miséria em nosso país constituem um escândalo social e moral ao qual não podemos mais fechar os olhos. Nada, mas nada mesmo, é mais urgente no Brasil de 2000 do que o combate à fome. É verdade que somente a ação governamental pode cortar pela raiz esse mal tão profundo e persistente. Existem, porém, muitas medidas que nós, indivíduos e grupos de cidadãos, podemos tomar para atenuá-lo.

Para nós, judeus, ajudar os necessitados é um imperativo ético e religioso. A justiça social é uma constante em nossa Torá, o Antigo Testamento. Nossos profetas -Amós, Ezequiel, Isaías, Jeremias- condenavam a indiferença aos pobres como um pecado mais grave do que não render culto a D’us.

A palavra hebraica que expressa o conceito de caridade é “tzedaká”. “Tzedaká” significa justiça. Alimentar um faminto não é um ato de condescendência, não é na verdade um ato de caridade. É um dever de justiça. O objetivo de “tzedaká” é restituir a um ser humano a dignidade que D’us lhe deu. O que a tradição judaica está nos dizendo é que, quando se trata de alimentar quem está com fome, vestir quem está com frio e abrigar quem não tem onde morar, não se pode depender unicamente do sentimento humano. Faz-se necessário um ato de justiça.

No Talmud encontra-se uma afirmação interessante: “Mesmo aquele que dá a um pobre apenas uma prutá -a menor das moedas- tem o privilégio de sentir a presença divina”. Há algo de muito especial no ato de “tzedaká”; tão especial que a quantia dada é muitas vezes secundária em relação ao ato em si. Mesmo a doação mais insignificante (“insignificante” em termos monetários), quando feita no espírito certo, na hora certa e no lugar certo, permite ao doador captar o sentido mais profundo e mais alto da vida.

É óbvio que a comunidade judaica não tem condições de nutrir sozinha toda uma população. Mas temos o dever de colaborar. E, ao cumprir esse dever, talvez estejamos nutrindo também nossa própria condição humana.

No folclore judaico, há várias anedotas sobre a cidade de Chelm, conhecida pela baixa inteligência de seus habitantes. Conta uma delas que certa vez criou-se em Chelm uma polêmica a respeito do shofar (o chifre de carneiro que era utilizado como instrumento musical nos tempos bíblicos e que é tradicionalmente soado nos serviços religiosos do Ano Novo judaico): o shofar deve ser soprado pelo lado mais estreito ou pelo lado mais largo?

Depois de muita discussão, a questão foi levada ao rabino. Com sua grande sabedoria, o rabino percebeu que aquela pergunta, aparentemente ridícula, era muito mais profunda do que parecia à primeira vista. O que se estava questionando era a definição da identidade judaica e o próprio caráter do judaísmo. Sua resposta foi esta: “A extremidade pela qual se sopra o shofar depende da finalidade com que se sopra o shofar”.

Aqueles judeus que consideram o judaísmo provinciano, estreito demais, fazem questão de soprar o shofar pelo lado mais largo. São eles os judeus cosmopolitas, sofisticados, intelectuais e universalistas que não se definem como membros de uma comunidade em particular, e sim como cidadãos do mundo. Sua lealdade é para com a humanidade como um todo. Meu próprio professor de filosofia no Hebrew Union College, Harry Orlinsky, que defendia fervorosamente a luta pela autodeterminação dos mais variados grupos étnicos e religiosos, desprezava o sionismo, considerando-o “um movimento excessivamente chauvinista”. Aos ouvidos desses universalistas, desses “judeus não-judeus”, o protesto de toda e qualquer minoria -seja de pele branca, negra, amarela ou vermelha- ressoa nobremente, exceto o protesto da minoria judaica. Para eles, o pranto do judeu é um choramingo.

A meu ver, tal cosmopolitismo, soprado pela extremidade larga do shofar, soa oco. É um idealismo ingênuo, que desconsidera a sabedoria do mandamento bíblico: “Amar o próximo como a si mesmo”. Antes de amar a humanidade em geral, é preciso amar seu próprio povo. A compaixão, a solidariedade e a filantropia começam em casa. Não é de estranhar que muitos judeus se oponham ao pseudo-universalismo da elite intelectual judaica. O problema é que alguns caem no extremo oposto e insistem em soprar o shofar sempre pelo lado mais estreito. Vivem dizendo que a lição mais importante da história judaica, principalmente do Holocausto, é: “Im ein ani li, mi li?” – “Se nós, judeus, não cuidarmos de nós mesmos, quem cuidará?”.O argumento mais usado por esses judeus para justificar seu raciocínio é que, quando nossos irmãos estavam sendo aniquilados pelos nazistas, o mundo virou as costas. Por isso nós não devemos nada ao mundo. Devemos lealdade somente a nós mesmos. Já são tantos os problemas que temos de enfrentar, dizem eles -os jovens que se afastam da comunidade, o ressurgimento do anti-semitismo na Europa e em outras partes do mundo-; quem tem tempo para se preocupar com o sofrimento de outros povos, de outras raças, de outros grupos étnicos?

Por que acrescentar à já lotada agenda judaica a tragédia das crianças aidéticas da África ou a dos menores famintos do Brasil? Quem nos defendeu quando crianças judias estavam sendo massacradas em Auschwitz? O particularismo daqueles que sopram o shofar pelo lado estreito também soa oco. Existe algo de moralmente irresponsável em seu conselho. Nós, judeus, que sempre nos queixamos da passividade da igreja durante os anos sombrios do regime nazista, será que temos o direito de exigir da igreja uma moralidade que não exigimos da sinagoga? Será que a lógica do Holocausto sustenta a tese “Ninguém nos ajudou, portanto não ajudaremos a ninguém”?

Por qual lado do shofar se deve soprar é uma questão com que se defronta todo e qualquer judeu pensante, toda e qualquer comunidade judaica séria. A polêmica travada em Chelm surge e ressurge diariamente. A miséria é um problema judaico ou um problema humano? A fome é um problema judaico ou humano? A violência é um problema judaico ou humano? O preconceito contra outras minorias é um problema judaico ou humano? A própria formulação da pergunta é maliciosa. A implicação é que temos de escolher entre ser judeus ou ser seres humanos, como se fossem duas categorias excludentes. Trata-se de uma falsa escolha, que contraria o judaísmo. Existe uma resposta judaica para a miséria, para a fome, para a violência e para o preconceito. Tais respostas não provêm da cabeça de um liberal maluco, mas de uma tradição de mais de 4.000 anos.

O Talmud estipula os requisitos necessários para que um shofar possa ser usado nas grandes festas. Um shofar que se quebrou em duas partes e depois foi restaurado não é válido. E por quê? Porque o som que emite parece provir de dois shofares diferentes. A voz deve emanar de um único shofar, inteiro e perfeito. Assim como existe um Deus, um mundo, uma humanidade, o shofar não pode ser tocado em duas vozes distintas. O que está faltando é o corolário que o próprio sábio Hillel acrescentou: “U’che’she’ani le’atzmi, ma ani?” – “Se nós judeus cuidamos apenas de nós mesmos, o que somos?”

A ética do universalismo judaico é parte integrante da herança judaica. Em Rosh Hashaná, o Ano Novo judaico, que se iniciou este ano na noite de 29 de setembro, os judeus não comemoram o aniversário do seu povo nem o nascimento do fundador da fé judaica. O que comemoramos é o aniversário do universo e da humanidade. Nas palavras do Machzor, nosso livro de orações, “Hayom harat olam” -“Hoje o mundo foi criado. Hoje todas as criaturas do universo são julgadas”.

O que se deve dizer àqueles que alegam que o fardo é pesado demais, que já é suficientemente difícil ser judeu, que acrescentar responsabilidade pelas injustiças no mundo inteiro é absurdo? A eles deve-se dizer que o judaísmo é uma fé inextrincavelmente ligada ao destino da humanidade. Esse é o sentido maior do judaísmo. O nome do D’us que bendizemos é Ribono Shel Olam, não Ribono Shel Yisrael; o Soberano do Universo, não um soberano exclusivo, particular, privativo de Israel.

Ser judeu é envolver-se com seu próprio povo e, por meio de seu próprio povo, com o mundo. Nós, judeus brasileiros, vivemos num país em que 300 mil crianças morrem de fome a cada ano. Isso é problema delas ou um problema nosso?

Um judeu que acredita em D’us não pode se desvincular do mundo que Deus criou. É claro que não podemos sanar todos os males do mundo. Mas devemos fazer tudo o que podemos. Àqueles que consideram essa definição de judaísmo grande demais, ampla demais, larga demais, abrangente demais, eu pergunto: “D’us é grande demais?”. Ser judeu é ser um aliado de Deus, é ser co-criador e co-santificador do mundo. Essa é a grandeza do judaísmo; essa é sua singularidade, seu encanto, sua emoção, seu desafio.

Able Nathan, um israelense que se dedica a promover a paz, ergueu na Somália, próximo à fronteira com o Quênia, um acampamento para 40 mil crianças somalis. Na entrada de cada barraca há uma faixa com as palavras “Mi’Yerushalayim b’achavá”, “De Jerusalém, com amor”.

Grande demais, amplo demais, largo demais, abrangente demais, trabalhoso demais? Não para o povo judeu -um povo dotado de visão universal, um povo que serve ao Deus do mundo inteiro. Um povo que sopra o shofar pelo lado estreito, pelo lado da singularidade judaica, e faz sua voz irromper pelo lado mais largo, sonora e ampliada, chegando aos ouvidos de toda a humanidade.

Henry I. Sobel, Z”L era presidente do rabinato da Congregação Israelita Paulista e coordenador da representação judaica da Comissão Nacional de Diálogo Religioso Católico-Judaico, órgão da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil). [2]

III. Atos de bondade: Pilar do Judaismo

Shimon, o Justo, um dos últimos participantes da Grande Assembléia, afirmava: “Sobre três coisas se sustenta o mundo: o estudo da Torá, o serviço Divino (a oração) e guemilut chassadim, os atos de bondade”. (Pirkei Avot – A Ética dos Pais).

O judaísmo ensina que o homem é o único ser que possui livre arbítrio e que pode, de forma consciente, beneficiar seus semelhante são praticar atos de bondade – guemilut chassadim, em hebraico. A Torá e nossos sábios ensinam que a bondade, a generosidade, a ética e a responsabilidade coletiva constituem parte integral dos mandamentos Divinos transmitidos para o povo judeu no deserto do Sinai. O mandamento de guemilut chassadim vai além da prática da tzedaká e inclui qualquer ato de bondade que é feito a outro. Mais especificamente, inclui emprestar dinheiro ou objetos, ser hospitaleiro, visitar e confortar os doentes, dar roupas a quem o necessita, auxiliar e alegrar noivas e noivos, enterrar os mortos, consolar os enlutados e promover a paz entre pessoas. Um simples sorriso, uma palavra bondosa e um ouvido atento em um momento de aflição são também atos de bondade. Cada vez que estendemos a mão a alguém que precisa de ajuda estamos cumprindo esse mandamento.

Desde seus primórdios, o judaísmo e a prática de guemilut chassadim são inseparáveis e entrelaçados, pois sem compaixão, moralidade e justiça social não há como manter uma sociedade ou sustentar a humanidade. Ensinam nossos sábios: “Se Israel considerasse as palavras da Torá que lhe foi dada, nenhuma nação ou reinado teria domínio sobre esse povo. E o que a Torá pede que se faça? Que se aceite sobre si o jugo do Reinado Celestial e que os membros do povo de Israel pratiquem, uns com outros, atos de bondade”.

O Midrash vai mais longe e revela que a prática de atos de bondade é a pedra fundamental, o pilar sobre o qual se ergue todo o universo.

O judaísmo ensinou ao mundo que o homem foi criado à “imagem de D’us”. Isto significa que o ser humano é um microcosmo dos atributos e qualidades Divinas. Portanto, assim como a bondade, a generosidade e a compaixão do Todo-Poderoso se estendem a todos, o homem deve buscar fazer o mesmo.

A Torá nos ordena: “Deves seguir D’us e ser fiel a Ele” (Deuteronômio 13:5). Ao comentar este verso, nossos sábios afirmam que o ser humano só pode apegar-se a D’us e se aproximar Dele se emular Suas qualidades. D’us é Misericordioso e Generoso. De fato, um dos nomes de D’us mais usado no Talmud é Rachmaná – “O Misericordioso”, então o homem também deve ser misericordioso, generoso e bondoso com todos. Portanto, afirmam nossos sábios, assim “como D’us veste os que não possuem roupa… visita os doentes…consola os enlutados… cuida dos mortos… alegra os noivos e noivas…, também tu deves assim proceder”.

Os rabinos do Talmud consideravam a bondade uma das três marcas singulares do judeu. Guemilut chassadim é tão fundamental no judaísmo que, se alguém não pratica atos de bondade, deve-se questionar se realmente faz parte da Nação Judaica, pois, está escrito que “Israel, o povo sagrado, é caracterizado por três qualidades: a modéstia, a misericórdia e a prática da bondade” (Yevamot, 79a). O Talmud vai além e afirma que alguém que só estuda Torá, mas não pratica a bondade, repudia a D’us e não adquire nem mesmo o mérito do estudo. Pois, como ensinou Rabi Akiva, o maior mestre do Talmud, o mandamento “Amarás a teu semelhante como a ti mesmo” (Levítico 19:18) é o princípio fundamental da Torá.

Ser um ish chessed – Uma das principais metas do judaísmo é ajudar o homem a se aperfeiçoar espiritualmente para que ele se torne um ish chessed, um homem de bondade. Não surpreende, portanto, que o primeiro patriarca judeu, Avraham, personifique a Sefirá, o atributo Divino, de chessed – benevolência, generosidade e amor infinito. Bondoso e altruísta, Avraham estava sempre preocupado com o bem-estar dos outros, respeitando e amando todos os seres e cercando-os de atos de bondade e generosidade. Hospitaleiro, o primeiro judeu usou sua riqueza para acomodar os viajantes; as portas de sua tenda estavam sempre abertas a todos aqueles que por lá passavam. Qualquer um, anjo, mendigo ou mesmo idólatra, podia entrar em seu lar e comer à sua mesa, ou descansar em uma de suas tendas. Avraham também compartilhava com outros sua sabedoria e seu conhecimento. Para salvar alguém do sofrimento e da morte, não hesitava em tomar a medida necessária, mesmo arriscando a própria vida. Avraham é o paradigma do judeu ideal – bondoso com D’us e com os homens; o Talmud ensina que qualquer pessoa que tenha compaixão por outras certamente descende do patriarca.

Na Cabalá, a Sefirá de Chessed, simbolizada por Avraham, representa a bondade, o altruísmo, o compartilhar, o dar incondicional, o amor. É o fluxo de energia que nos abre para o mundo e nos leva a estender a mão ao outro. Em hebraico, a palavra que significa “amar” é ohev e advém de hav, “dar”. O verdadeiro amor, ensina o judaísmo, é constituído por atos de doação e bondade.

Guemilut hassadim e tzedaká – Como vimos, guemilut hassadim é definido por qualquer ato realizado com o objetivo de beneficiar o outro. Um ato de bondade ocorre quando uma pessoa doa algo de si para outro, seja dinheiro, energia, tempo ou afeição. Em hebraico, o termo guemilut chassadim é sempre utilizado no plural, pois cada ato de bondade é recíproco, beneficiando o receptor e o doador também. Ensinam nossos sábios que cada ato de bondade tem dupla conseqüência: ajuda o que recebe e abençoa o que dá. A tzedaká é um dos sustentáculos do judaísmo. Mas nossos sábios ensinam que os atos de guemilut chassadim são, geralmente, superiores. O Talmud explica: “Os sábios ensinaram: de três maneiras os atos de bondade são maiores que a caridade. A caridade é realizada com dinheiro; a bondade é feita quando alguém dá de si. A caridade é dada ao pobre; a bondade pode ser feita tanto para o pobre quanto para o rico. A caridade é para os vivos; a bondade é para os vivos e para os mortos” (Sucá, 49b).

O Maharal de Praga, Rabi Yehudá Loew, afirmava que por mais louvável e necessária que fosse a tzedaká, muitas vezes é impulsionada por um sentimento momentâneo de compaixão. É difícil não ajudar alguém quando somos defrontados com a dor ou fome de outro ser. Mas, explica o Maharal, para que o homem se “aproxime” de D’us, ele precisa ir além de momentos passageiros de compaixão; o homem que deseja elevar-se espiritualmente precisa se tornar um verdadeiro homem de chessed. Para tal homem, agir para beneficiar outros não é uma resposta frente a uma necessidade, mas uma qualidade intrínseca de sua personalidade. O coração e a mente de um homem de chessed estão sempre atentos, percebendo as necessidades dos que estão a sua volta e agindo para atendê-las.

Maimônides, o maior dos filósofos judeus e codificador da Lei Judaica, explicou qual a diferença entre tzedaká e chessed. Tzedaká vem da palavra tzedek, cujo significado é justiça. Justiça quer dizer dar a alguém algo que é seu por direito – no judaísmo, a caridade é considerada uma forma de justiça e não bondade gratuita. Chessed, por sua vez, é uma atitude em relação àqueles que não necessariamente precisam de gestos de bondade – ou na proporção na qual são receptores. Assim, Maimônides conclui que enquanto a tzedaká está relacionada a um ato de generosidade, geralmente feito por alguém que deseja aperfeiçoar a sua própria alma, chessed aplica-se à realização da beneficência sem limites.

Praticando o bem – A prática de atos de bondade é necessária para se constituir uma sociedade saudável e justa. Mas, para que a generosidade seja canalizada de forma positiva, deve incluir medidas de empatia, discernimento e respeito. Deve-se tomar, sempre, o maior cuidado para salvaguardar os sentimentos e o amor próprio de quem necessita de ajuda. A Torá ensina que se uma pessoa der a outra os mais valiosos presentes do mundo, porém de má-vontade, será como se não tivesse dado nada. Por outro lado, se um indivíduo for recebido com um sorriso de boas-vindas, ainda que não seja possível dar-lhe algo, será como se os presentes mais valiosos do mundo lhe tivessem sido ofertados. D’us nos ordena ser gentis não apenas com atos, mas também com palavras – falar gentilmente com os menos afortunados e estimulá-los. Na Torá, D’us promete abençoar aqueles que assim agem.

Atos de bondade cobrem uma gama quase infinita de possibilidades, pois qualquer ser humano é “pobre” em relação ao que lhe falta. Alguns precisam de ajuda financeira, outros de afeição e outros, ainda, de conhecimento. Da mesma maneira que temos a obrigação de cuidar física e mentalmente dos outros, devemos fazer o mesmo em relação a seu espírito. É isto que D’us nos ordena na Torá: “… se há um necessitado entre vós… certamente deveis estender-lhe vossa mão e emprestar-lhe o suficiente para suas necessidades, seja o que for que lhe falte”. (Deuteronômio,15:7-8). Este é um mandamento amplo, que não se limita às necessidades materiais do indivíduo. Guiar os outros, ensinando-lhes a Torá, é um elemento essencial de guemilut chassadim. Todo aquele que segue o mandamento de estudar a Lei tem também a obrigação de ensiná-la não apenas às crianças, mas a qualquer um. Nossos sábios ensinam que desviar alguém do caminho da Torá é pior do que feri-lo fisicamente, pois o dano espiritual é maior do que o físico. O dever de cuidar do bem-estar espiritual dos necessitados ultrapassa, muitas vezes, a obrigação de prover-lhes de bens materiais.

Ensinam nossos sábios que o verdadeiro altruísmo, a verdadeira bondade, são realizados quando não se espera nada de volta. Freqüentemente, mesmo se de forma inconsciente, ao darmos algo de nós mesmos para outro, temos a expectativa de receber algo em retorno. Mas o verdadeiro amor, a verdadeira bondade, devem ser dados incondicionalmente, sem esperar nada em troca. É por isso que o judaísmo considera que o verdadeiro ato de bondade, chamado de Chessed shel Emet, é feito aos mortos, pois os falecidos jamais poderão dar algo para aquele que tudo faz para que sejam enterrados com dignidade e respeito. A passagem de um ser humano desta vida terrena para a sua Morada Celestial é um dos ciclos de sua existência, não o seu fim. Portanto, o corpo do falecido deve ser enterrado com dignidade e conforme as leis judaicas e deve-se recitar o Kadish, estudar a Torá e realizar atos de tzedaká, para ajudar a elevar a alma do falecido.

Mais do que um – No judaísmo, o conceito de guemilut hassadim não é uma sugestão ou uma convenção social desejável. É uma obrigação religiosa, uma ordem Divina. Guemilut chassadim literalmente quer dizer “devolver chessed”. Cada um de nós recebe do Todo-Poderoso, todos os dias, um fluxo inesgotável de bondade. Basta olhar em nossa volta e prestar atenção a todas as bênçãos que recebemos, dia após dia. A única maneira de pagar por este chessed é fazendo algo pelos outros. O judaísmo ensina que o homem é uma criatura que mantém hábitos; à medida que a prática da bondade se torna uma constante em sua vida ele vai-se elevando e se torna um ish chessed, um homem de bondade. Desta forma, realizará a missão Divina de consertar e santificar o mundo e torná-lo um reino de D’us.

Fontes: [1] legalsaber.com.br/audioteca/

[2] https://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz3009200009.htm

[3] Morasha, Edição 45 – Junho de 2004: http://www.morasha.com.br/sabedoria-judaica/atos-de-bondade-pilar-do-judaismo.html

Coordenador: Saul Stuart Gefter

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