Congregação Judaica Shaarei Shalom – שערי שלום

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  1. Introdução – Os judeus mizrahim (do hebraico מזרחים, translit. “orientais” מזרחי; sing. mizrahi: “oriental”) ou judeus orientais são aqueles originários das comunidades do Oriente Médio. Geralmente o termo se aplica aos judeus que vivem ou viveram no mundo islâmico. Nesta categoria incluem-se os judeus não-sefarditas do mundo árabe e outras comunidades, tais como os gruzim, os judeus iranianos, os judeus bukharan, os judeus iraquianos, os judeus curdos e os judeus iemenitas, entre outros. Trata-se de comunidades fortemente arabizadas nas suas tradições linguísticas, alimentares e culturais. As suas línguas tradicionais são o árabe, o pársi (no caso dos residentes no Irão) e um dialecto do aramaico (para os habitantes do Curdistão). Os mizrahim e o moderno Estado de Israel – Com a fundação do Estado de Israel em 1948, a maior parte dos mizrahim migraram para o novo estado nos anos que se seguiram, em alguns casos fugindo a perseguições em países árabes, em outros aliciados pelo projecto sionista. Eles representaram a maioria da população israelita até à grande migração de judeus da Europa Oriental que se seguiu à queda da União Soviética. Estas comunidades foram estabelecidas em “cidades de tendas” (ma’abarot), em condições de vida precárias, e posteriormente enviadas para as chamadas “cidades de desenvolvimento”. Tentativas de fixá-los nos moshavim revelaram-se infrutíferas, já que a maioria dos mizrahim não tinha na agricultura a sua ocupação principal, mas sim no comércio. Nos anos 1970, alguns judeus mizrahim organizaram-se num movimento denominado “Panteras Negras”, que à semelhança do grupo homônimo americano, alegava combater a discriminação, o racismo e a exclusão social de que se diziam vítimas por parte dos asquenazes, usando tácticas de guerrilha urbana. Personalidades mizrahim – Amir Peretz – membro do Knesset (parlamento israelita) e líder do Partido Trabalhista, de origem marroquina. Dana International – cantora pop descendente de judeus do Iêmen. Ofra Haza – cantora pop e de música tradicional descendente de judeus do Iêmen. [1]
  2. Os judeus e as divisões geo-culturais – Espalhados através dos continentes, os Judeus assimilaram grande parte da cultura dos povos entre os quais viveram, e muitas vezes o casamento exógeno acompanhado de conversões ao judaísmo trouxe para o grupo grande número de elementos, o que veio marcar profundamente o tipo físico desses Judeus:

Louros em regiões europeias, morenos no norte da África, quase mulatos no Iêmen, negros na Etiópia e no sul da Índia, mongólicos na Ásia Central; altos aquelouros, atarracados outros, dolicocéfalos ou mesocéfalos, uns com o nariz grande, outros com ele curto etc.

Em cada área geográfica, por seu isolamento relativo, desenvolveram costumes, tradições, linguagens, rituais diferentes e características, além do uso de nomes segundo as línguas locais. Individualizaram-se, regionalizaram-se através dos séculos.

Entre os principais grupos regionais, destacam-se:

Judeus Asquenazitas: São chamados em hebraico “Ashkenazi” plural “Ashkenazim” (Ashkenaz = Alemão). Formaram-se culturalmente no Vale do Rio Reno, na Idade Média, para onde haviam sido levados cativos pelos soldados romanos após a destruição do Segundo Templo. Seu número aumentou consideravelmente com a chegada de novos contingentes, na Alta Idade Média, vindos da Itália, atraídos pelos estímulos oferecidos por Carlos Magno. As cruzadas, nos séculos XI e XII, se abateram sobre eles, espoliando-os, massacrando-os, obrigando-os a emigrar em massa para Europa Oriental (Polônia, Ucrânia, etc), para onde levaram a “linguagem germano-renana” que falavam.

Essa linguagem alto-germânica, em novo ambiente geográfico e social, tomou evolução filológica diferente da sua irmã do Vale do Reno: Conservou arcaísmo, introduziu neologismos, adotou palavras russas, polonesas e até latinas, adaptou palavras hebraicas e aramaicas, modificou-se morfológica e foneticamente e passou a ser escrita com alfabeto hebraico ou arameu-hebraico.

Surgiu assim o idioma judaico, que guarda em relação aos seus irmãos gêmeos (alemão, holandês, frisão) semelhanças morfológicas, fonéticas, gramaticais e sintáticas, principalmente se comparado com certos dialetos do alemão (o alemão da Suíça, Áustria). O Min´hag religioso asquenazita segue os costumes e Tacanot originários das Academias Talmúdicas do Vale do Ren, que por sua vez abeberaram-se nas Academias da Babilônia. Os Judeus asquenazitas até o séc. XVIII ainda não usavam sobrenomes, que adotaram por imposição dos Déspotas Esclarecidos para facilitar o seu registro para a arrecadação de impostos.

Por isso os Asquenazitas usam sobrenomes alemães, russos, poloneses, húngaros, iugoslavos, conforme a área em que viviam à época. São muita vezes nomes de lugares (ex. Berlinski, Frankfurter, Hambúrguer, etc.), nomes de profissionais (ex. Treiger, Weiner, Weizmann, Goldman, Goldenberg, etc.). Caracterizam-se pelo grande número de consoantes, por serem nomes eslavos, germânicos, etc.

Judeus Sefaraditas: São ditos em hebraico “Sefardi” plural “Sefardim”, pois têm o seu nome derivado de Sefarad que é Espanha em hebraico. Parece que os Judeus já viviam na Península Ibérica deste os tempos de Salomão. A cidade da Tarxixe ou Társis, mencionada na Bíblia (I Reis 10:22 e II Crônicas 9:21), como o local onde as naus de Salomão iam buscar prata, ficava na Espanha , segundo uns, ou na Sardenha, segundo outros.

O número de Judeus na Espanha cresceu com a chegada dos cativos trazidos pelos romanos quando da destruição do Beit Hamicdaxe, e, principalmente a partir do Séc.VIII com a invasão Árabe. Na Espanha medieval os Judeus espanhóis falavam o mesmo romanche ibérico que as populações cristãs da Península. Nos Séc. XI e XII formaram uma grande civilização ( a Época de Ouro Judeu-Espanhola).

A partir de então passaram a adotar também sobrenomes espanhóis ( e portugueses), principalmente em função dos batismos forçados durante a Inquisição. Com a expulsão no fim do Séc.XV (1492 da Espanha e 1497 de Portugal), levaram consigopara os seus domicílios ( norte da África, Império Otomano, Hamburgo, Bordéus, Amsterdã, Londres, Ferrara, Salônica, Ismirna e posteriormente Brasil) a sua linguagem latina que, arrancada do seu berço de origem, assumiria novo rumo evolutivo, mantendo , de um lado, formas estruturalmente arcaicas, e de outro, acrescentando palavras portuguesas, árabes, gregas, turcas, hebraicas ou aramaicas, além de neologismos próprios, e usando para a escrita o alfabeto arameu-hebraico.

Conservou, todavia, estreita identidade com sua coirmãs (espanhol, português), seja pela etiologia, morfologia, sintaxe, fonética, semântica e gramática. A evolução do romancha pelos Judeus emigrados iria dar origem ao Ladino ( também chamado Judesmo e Espanholito) entre os hebreus da Grécia, Turquia, Romênia, Bulgária, sul da Iuguslavia, Albânia e até da Hungria , enquanto no norte do Marrocos uma variante seria chamada Haquitia, com mais influência do Árabe. O Min´hag sefaradita segue as tradições da Península Ibérica e do Marrocos, principalmente.

Judeus Italquitas ou Italianos: Não devem ser confundidos com aqueles Judeus português (sefaraditas) que, no séc. XVI, se instalaram em algumas cidades do norte da Itália como Ferrara, Ancona e outras, nem com os Judeus da Europa Central (asquenazitas) que, em épocas diversas, também se instalaram pelo centro-norte da Península, italianizando-se com os passar dos séculos.

Entende-se por Italquitas aquelas outros Judeus italianos, cujo exemplo mais representativo é a comunidade de Roma, cujas origens remontam há mais de 2000 anos, deste os tempos do Império, antes ainda da destruição de Jerusalém, pois já na Época de Pompeu são registrados Judeus em Roma. É, portanto, a mais aintiga comunidade judaico européia, uma das mais antigas da diáspora. Houve época em que chegou a usar um dialeto italiano próprio – o ítalo-judaico.

Judeus da Criméia ou Crimchacs: Não devem ser confundidos com os Caraítas da Criméia. Seu número hoje é extremamente reduzido após o Holocausto.

Judeus Orientais ou Levantinos: São ditos em hebraico “Mizrahi” plural Mizrahim”. Não devem ser confundidos com os sefaraditas, embora ambos tenham vivido durante séculos em ambientes árabes .

Os Judeus Orientais ( Mizrahi = Oriente) são aqueles Judeus do Iraque, da Síria, do Líbano, do Egito, etc., que nunca tiveram vivência com a Espanha. Só falam o árabe e possuem nomes árabes. Já viviam no Oriente deste a Antiguidade, muito antes que aí chegassem as levas dos sefaraditas emigrados. Em certas áreas os Judeus Orientais assimilaram os Sefaraditas, noutras ocorreu o contrário. A confusão entre eles decorre do fato de ambos viverem na bacia do Mediterrâneo e de que uns e outros terem min´hag religioso semelhantes (apenas com pequenas variantes locais).

Judeus Mustarabes:São um pequeno grupo de Judeus que nunca sai de Israel durante todo o período da diáspora. Viviam principalmente na aldeia de Pequim na Galileia Superior, entre árabes e druzos.

Judeus Teimanitas: São chamados em hebraico “ Teimanim” (Teiman = Iêmen). Suas tradições os colocam no Iêmen deste os tempos de Salomão quanod, para lá teria ido um grupo de Judeus acompanhado a Rainha de Sabá. Assemelham-se lingüisticamente aos Judeus Orientais (falam árabe), porem sua tez é de moreno escuro, quase amulatado, e possuem uma riqueza cultural (folclore) muito típica.

Judeus Beta-Israel (Falaxim): O termo “Falaxa” com que os etíopes os denominam é pejorativo, pois significa “estrangeiro”. Seu centro se localiza no norte da Etiópia e também remontam suas tradições ao período do rei Salomão, relacionando-se com o mesmo grupo de judeus assessores da rainha de Sabá ( que teria governado em ambas as margens do Estreito de Bab el –Mandeb, no Iêmen e na Etiópia).

São totalmente negros como os demais abissínios. É sabido que os etíopes, antes de serem cristianizados , praticavam a religião de Moisés (Atos 8:27,28), pois a visita da rainha de Sabá a Salomão certamente resultara na conversão dos etíopes ao judaísmo, ou então o mordomo de que fala o Livro de Atos seria um descendente daqueles Judeus da tradição Beta-Israel que teriam acompanhado a rainha de Sabá. Por tuo isso , os Beta-Israel seriam os descendentes daqueles etíopes-judeus.

Judeus de Coxim: Localizam-se no sul da Índia. São totalmente negros como os demais indianos do sul. Remontam suas origens a uma da 10 tribos de Israel “desaparecidas” no exílio assírio, embora isto não possa ser historicamente comprovado. A razão nos leva a afirmar que os Judeus de Coxim sejam resultantes da conversão de escravos indianos por seus senhores Judeus (como determina a Tora).

Nas localidades onde há Bené-Isarel, Judeus de Coxim e mesmo outros chegados mais recentemente, os de Coxim mantém suas Sinagogas próprias e estão submetidos às mesmas separações (discriminações) do sistema indiano de castas, embora isso não os torne, de maneira nenhuma, menos Judeus que os Judeus brancos.

Judeus Bené-Israel: São de Bombaim, na Índia Ocidental. Mais claros que os Judeus de Coxim, são todavia idênticos aos demais indianos da sua região (maratis), seja no tipo físico, seja na língua que falam, diferenciando-se deles apenas pela guarda do Shabat. Os Bené-Israel (filhos de Israel) remontam suas origens à época de Antíoco IV, cujas perseguições os teriam feito emigrar para a Índia. Justificam essa tradição pelo fato de não conhecerem a Festa de Hanucá e outros eventos posteriores.

Judeus Georgianos: São chamados em hebraico de “Gruzi”, plural “Gruzim”, pois a Geórgia, região do Cáucaso ocidental soviético de onde são originários é chamada em russo de Grúzia. Sua presença aí, junto ao Mar Negro, é antiqüíssima. Seus costumes são típicos e são muito ciosos da sua ortodoxia, tanto que de todos os Judeus soviéticos são os que mais emigram para Israel.

Caracterizam-se por ter os seus sobrenomes terminados em shvilli (= filho de ), como qualquer outro georgiano. Enquanto isso, os Judeus da Armênia, seus vizinhos no Cáucaso, têm sobrenomes terminados em –ian (filho de ), como qualquer armênio.

Judeus Persas: Sua origem remonta ao exílio babilônico; seu ritual era, até o século passado, o de Saádia Gaon (Min´hag babilônico), quando, aos poucos, foi substituído pelo ritual dos Judeus orientais (semelhantes ao sefaradita). Falam os judeu-persa. Na alta Idade Média o Caraísmo teve muitos adeptos entre os Judeus Persas.

Posteriormente, a intolerância dos muçulmanos xiitas conduziu a muitas discriminações e conversões forçadas (os Gded al Islã, do Corasão), colocando os Judeus pesas em defensiva (fechamento), do que lhes resultou grande atraso cultural.

Judeus do Cáucaso: Não devem ser confundidos com os Judeus georgianos, pois vivem na parte oriental daquela cadeia montanhosa, no Azerbajão, e nas margens do Mar Cáspio. São as vezes chamados de Judeus montanheses. Falam o parsi-tati, que é a língua ancestral do persa moderno.

Data a sua posição geográfica, poderiam ser eventualmente remanescentes dos Cazaros, povo situado outrora, entre o Cáucaso, Mar Cáspio e Mar Negro, entre os rios Volga e Don, e que no século VIII se converteu ao Judaísmo, tendo sido mais tarde conquistado pelos eslavos e dispersado. Os sobrenomes dos Judeus montanheses terminam normalmente em –ov, -ev , enko, como os russos.

Judeus Bocarianos: São de origem persa, tendo-se estabelecido na Ásia Central (Usbequistão e outras regiões vizinhas, tendo a cidade de Bocara como seu principal centro), quando esta cidade de Samarcanda era grandes centros políticos, culturais e econômicos (dominando a rota a seda). Os Judeus bocarianos desenvolveram uma cultura independente. Falam o judeu-tajique (mistura de tajique, persa, línguas turcomanas e hebraico. Como os demais exemplos citados, é escrito com letras arameu-hebraicas.

Judeus Curdos: De certa forma assemelham-se aos judeus persas, embora com notáveis características culturais e sociais próprias, desenvolvidas nos insulamentos das montanhas do Curdistão.

Judeus Negros: Nos E.U.A há grupos de negros que praticam o Judaísmo. Chamam-se a si mesmos de “judeus etíopes”. Sua posição um tanto radical em relação aos judeus brancos tem levado o Rabinato e o Governo de Israel a não reconhece-los oficialmente como Judeus, o que em varias ocasiões geral gerou mal-estares em relação aqueles que emigram para Israel, aos quais foram negados os benefícios da Lei do Retorno.

Judeus Índios: Informa-ser que há um grupo no México e outro menos no Chile de características físicas e culturais índias, mas que religiosamente praticam uma forma de judaísmo. Têm sua própria organização separada dos demais judeus locais. Suas origens são um tanto obscuras. Há anos lutam por um reconhecimento haláquico, sendo para isso exigida deles a conversão, do que discordam por se considerarem Judeus.

Judeus de Caifeng-Fu: Viviam na cidade no mesmo nome, sobre o Rio Amarelo (Hoang-ho), na China oriental. Missionários cristãos dão noticias deles nos séculos XVI e XVII. Eram em tudo idênticos aos demais chineses, física e culturalmente, inclusive os nomes próprios usados . No séc. XIX foram encontradas as ruínas de sua sinagoga e vários de seus livros sagrados localizados em mãos de antiquários.

Ainda por volta de 1932 havia alguns Judeus chineses mais ou menos conscientes de sua identidade, mas ao fim da II Guerra Mundial não houve mais notícias deles. O fim dos Judeus chineses nos é um vívido exemplo do desaparecimento de uma comunidade judaica por progressiva assimilação. [2]

III. Sobre a discriminação dos mizrahim em Israelpor Sheila Mann – Por fidelidade a Israel e aos nossos ideais, tendemos muitas vezes a ignorar fatos históricos, documentados e comprovados. Nada estranho nisso. Se falamos a palavra “ideais”, é justamente para falar de uma imagem ou conceito idealizado, algo a ser almejado e atingido. Hoje gostaria de falar sobre quem são os Mizrahim. A palavra “Mizrah”, significa leste ou oriente em hebraico. Isso inclui os países do Levante, ou seja, os países do Oriente Médio e dos descendentes dos babilônios – Syria, Líbano, Bahrein, Kuwait, Uzbequistão, Kurdistão, Afeganistão, Paquistão, Yemen e Geórgia . E os Mizrahim são as populações judaicas oriundas desses países de maioria muçulmana, que foram expulsas depois da guerra da independência de Israel, ou ainda antes por motivos de perseguição.

Todos passaram a ser chamados de Sefaradim junto com os judeus do Magreb (Marrocos) e Espanha( Sefarad em hebraico). Na origem, os Sefaradim, são os judeus oriundos de Sefarad que foram expulsos durante a Inquisição espanhola e que se espalharam pela bacia mediterrânea, norte da África, chegando até a Turquia.

Comum aos dois grupos é a maneira como se conduz o serviço religioso nas sinagogas, é o tal de “Noussakh sefaradi”(maneira sefaradi), nas liturgias, nos ritos e costumes, em contraponto ao “Noussakh Ashkenazi” dos judeus oriundos dos países da Europa, tanto oriental quanto ocidental. Numa viagem minha a Israel, me deparei com uma reportagem no jornal “Yediot Aharonot” sobre documentos históricos, relativos à formação do Estado de Israel, que foram liberados para consulta.

Os documentos trazem o relato do dilema que o então Primeiro Ministro, David Ben Gurion, nos primórdios da formação do Estado de Israel, teve que enfrentar sobre como formar a identidade do “novo judeu israelense“; ele tentou entender como se transformam dezenas de culturas diferentes vindas do mundo todo em uma única cultura. Trago aqui uns trechos do texto do jornal relativos a essa questão, que me chocaram: “Vocês marroquinos vieram para causar estragos“- Com essa manchete começou essa história no dia 27 de março de 1949, ao final da guerra da independência, quando jornais reportaram sobre a saída de judeus marroquinos que deixaram Israel por causa de humilhações sofridas no país.”

Os marroquinos reclamam que não se cuida deles em Israel e admitem que é difícil para eles o trabalho duro”, publicou naquele ano o jornal Yediot Aharonot, e num outro dia publicou : ” Nós, somos os israelenses que conquistamos essa terra e vocês marroquinos vieram aqui só para causar estragos.” Assim, a Agência Judaica recusou trazer uma imigração de jovens da África do Norte. “Naquela época, os dirigentes da nação estavam muito preocupados com a imagem que a nação teria do ponto de vista cultural”, comenta o Dr. Hazi Amior, responsável sobre os documentos da Biblioteca Nacional.” Como o Estado de Israel terá uma cultura ocidental, se continuar a aceitar hordas que não conhecem essa cultura?

Havia aqueles que achavam que isso era um grande perigo”. “…naquele tempo em Israel, havia uma grande discussão sobre se era preciso mesmo aceitar e integrar todos esses imigrantes oriundos dos países do Oriente. Não resta dúvidas sobre alguns casos de imigração seletiva”. “Apesar das boas intenções, um olhar mais aprofundado nos protocolos mostra a discriminação e o racismo em relação a esses novos imigrantes”. À essa reportagem no jornal, seguiu-se um documentário para televisão,”Hashed Ha edati” (O diabo étnico) do famoso jornalista Amnon Levy, ele próprio descendente de imigrantes tunisianos.

Ele pesquisou o assunto da discriminação das comunidades mizrahis e chegou à conclusão que o preconceito existe ainda nos dias atuais, por isso resolveu fazer uma ampla pesquisa que resultou nesse documentário. Estou trazendo esses trechos para tentarmos entender e analisar (essa análise e teoria são minhas) o que está acontecendo hoje em Israel em relação ao conflito Israel/Palestina. Entender o porquê da resistência em se aceitar um estado palestino lado a lado com o estado israelense. Israel tem a pretensão de pertencer à Comunidade Europeia, mesmo estando cravada no Oriente Médio e não na Europa.

É compreensível que queiramos ser identificados com os vencedores da História, ou seja com os ideais ocidentais, mas esquecemos que esses mesmos ideais ocidentais, que tanto admiramos e louvamos e com os quais queremos ser reconhecidos, levaram ao nazismo e ao massacre de milhões de seres humanos entre eles seis milhões de judeus. Israel é um país árabe, com influência árabe na língua, na escrita, na música, na culinária… Os árabes israelenses são tratados como cidadãos de segunda classe, e os Mizrahim não ficam muito atrás, e apesar da situação deles ser melhor daquela dos palestinos, ainda está longe daquela que os Ashkenazim usufruem.

Hoje ainda, os Mizrahim ganham em média 30% menos do que os Ashkenazim nas mesmas funções… Na verdade os Mizrahim têm muito mais em comum com os palestinos e os árabes israelenses, do que eles gostam de admitir. Depois de décadas rejeitando sua herança cultural árabe e mediterrânea, tentando assimilar a cultura ashkenazi, eles têm uma grande dificuldade em reconhecer que são muito mais próximos dos seus compatriotas árabes e não querem ser identificados com eles… É preciso levar em conta esses fatos, acordar e tentar fazer um “Heshbon Ha Nefesh” (exame de consciência), e se perguntar que democracia queremos para Israel?

Não somos nós que nos gabamos de ser a única democracia da região?

Será que isso é verdadeiro?

Como ficam os direitos desses povos que vivem na mesma terra, sejam eles os judeus mizrahim que imigraram pra Israel, ou os palestinos que estavam lá?

Israel está obcecado com a demografia do país, almeja superar em número os palestinos e os árabes israelenses, e continua chamando e acolhendo judeus da Diáspora, mas a que preço e com que tratamento? Acabamos de ver recentemente como os etíopes são tratados por causa da cor da sua pele.

Não se conseguiu ainda superar a discriminação étnica e racial, depois de tantos anos da existência de Israel, e isso tem implicações morais e éticas sérias, que está pondo em questão tanto o judaísmo quanto o sionismo. Depende de nós todos, ao termos consciência desses fatos, dar espaço para todos e fazer com que o conflito tenha uma solução viável e justa para todos os envolvidos.

Sheila Mann é judia, formada em artes plásticas, nascida no Líbano e crescida em Israel. Ela é conhecedora das culturas árabe e judaica com fluência em ambas as línguas, o que a torna ainda mais próxima das duas comunidades. A artista chegou ao Brasil, com 18 anos, casada e grávida de gêmeas.

A dura fase de adaptação a nova cultura e aos filhos logo foi superada com a decisão de voltar a estudar. Inscreveu-se no curso de literatura da Aliança Francesa, para não perder a fluência no idioma adquirido em sua escola primária no Líbano, e também resolveu estudar artes plásticas. Sheila Mann criou o POT – Peace On The Table (Paz Na Mesa), projeto que propõe unir os povos através da culinária, projeto que hoje se tornou a sua grande razão de viver, e com essa proposta se tornou uma ativista pela paz, principalmente entre árabes e judeus.

No ano passado Sheila lançou um livro de memórias e culinária denominado “Culinária do Líbano a Israel”. Atualmente dá aulas de culinária libanesa na sua própria escola, em São Paulo, e palestras sobre o seu trabalho, tendo formado um grupo de mulheres judias e mulheres árabes que se reúnem para compartilhar experiências e fortalecer laços de amizade . [3]

Fontes: [1] Wikipédia, a enciclopédia livre: https://pt.wikipedia.org/wiki/Judeus_mizrahim [2] ABRADJIN, 25/07/2012: http://anussim.org.br/os-judeus-e-as-divisoes-geo-culturais/ [3] http://glorinhacohen.com.br/?p=24229.

Coordenador: Saul Stuart Gefter



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