Congregação Judaica Shaarei Shalom – שערי שלום

Tempo de leitura: 64 Minutos

 

  1. Alma no Fogo Por Chana Weisberg

“A alma do homem é uma lâmpada de D’us” (Provérbios 20:7).

O homem é um conglomerado complexo de céu e terra, espírito e matéria, fogo e pavio. Assim como a lâmpada, o homem t é constituído por três elementos que determinam a direção de suas ações. O pavio da vela, a chama, e o óleo podem ser comparados ao corpo e alma do homem, na fonte da Torá com suas mitsvot.

Sua alma, semelhante à chama quando acesa sempre aponta para cima, em busca de inspiração. Ela arde intensamente dentro dele, inspirando-o a se conectar ao seu Criador. Ele deseja romper totalmente os laços com o mundo físico a fim de transcender as barreiras da existência material e poder unir-se ao seu Criador.

A alma, quando livre para expressar-se, incentiva o homem a empreender buscas espirituais, quase o livrando da gravidade física que cerca sua realidade. No entanto, semelhante a chama da vela, após a alma realizar sua dança celestial, ela retorna novamente para iluminar este mundo e deixar sua impressão única na realidade física. Aderindo a Fonte final, a alma é abraçada. Somente porque sua existência é tão distinta, a alma é capaz de cumprir o propósito de sua descida, razão pela qual foi criada.

O corpo do homem, assim como o pavio da vela são bem físicos. Com limitações, necessidades e desejos, o corpo aprisiona e escraviza a alma dentro dele. No entanto, ao mesmo tempo que impõe restrições, o corpo abriga a alma e proporciona um meio para a sua expressão singular.

A alma só pode sentir, perceber e saborear a realidade através dos sentidos do corpo, e somente é capaz de mover-se livremente utilizando os membros do corpo humano. Só pode pensar se for através da mente humana. O corpo tão físico é quem fornece um meio e uma oportunidade para o relacionamento da alma com a Criação.

Torá, como o óleo da lâmpada, é a fonte para os ideais do homem, dando a direção para uma vida significativa que o conecta ao seu Criador.

As mitsvot acendem o potencial humano, mostrando-lhe, de uma forma concreta, como utilizar suas habilidades e talentos para um propósito Divino.

Esclarecedor, pura e clara, como o óleo, a Torá e suas mitsvot direcionam o potencial para atingir seu objetivo final.

“O espírito do homem gravita para cima” (Cohelet/ Eclesiastes . 3:21).

Quando o homem é fiel ao anseios de sua alma, direcionando-a através da sabedoria e da luz da Torá, colocando na prática o cumprimento das mitsvot com todas suas faculdades e membros de seu corpo, ele gera luz tornando-se “uma lâmpada de D’us.”

Toda sexta-feira ao entardecer, quando uma mulher risca um fósforo, acendendo uma chama que ‘bebe’ o óleo das luzes de Shabat, ela está desenhando, de forma muito real e física, esta luz.

Esta não é uma luz passageira e ilusória, que a remove brevemente das preocupações mundanas, mas uma inspiração permanente que impregna a escuridão profunda de nossa realidade física. Estas chamas elevam o comum saturando de santidade o mundo e a Criação como um todo. E o Universo passa a ganhar uma perspectiva mais verdadeira, em harmonia e fiel a vontade de seu Criador.

Assim como as luzes físicas representam a alma do homem e do ser, cada mitsvá traz uma luz espiritual real a este mundo. As velas de Shabat dissipam fisicamente todas as trevas espirituais colocando fim à escuridão que nos rodeia. Já que envolvem a luz física, as velas do Shabat, mais do que qualquer outra mitsvá, harmoniza essa dicotomia que vacila entre corpo e alma na essência do ser humano, trazendo luz e inspiração para a temporalidade da vida.

“Um fogo perpétuo permanecerá em chamas sobre o altar; e não será extinto. ” (Vayicra 6:6).

“Nosso coração é o altar. Em tudo que você faz, deixe uma centelha do fogo sagrado queimar dentro, para que você o transforme em uma chama” (Baal Shem Tov, fundador do hassidismo).

Quando o fósforo beija a vela, cria uma luz sagrada, revelando algo invisível e intangível, ao mesmo tempo vasto e potente: a energia Divina que envolve e ao mesmo tempo imbui toda a criação.

Ao acender as velas do Shabat, a mulher tem o poder especial de revelar toda a santidade do Shabat. Seu ato de acender a vela e recitar a bênção apropriada atrai a aura especial deste dia sagrado que se espalha em pontos de luz em todos os lares judaicos que iluminam o mundo.

Chana Weisberg é diretora editorial do Chabad.org. Possui diversas obras publicadas, é palestrante internacional cujos temas envolvem espiritualidade, educação e questões relacionadas à mulher.

 

  1. Enfrentando a Infertilidade Por Leah Weitz-Cohen

Eu mal a conhecia. Miriam era uma profissional com trinta e poucos anos – trabalhamos no mesmo escritório, lado a lado por cerca de um ano. Ela era sempre muito simpática, inteligente e charmosa, mas nunca fomos muito chegadas porque ela morava em outra comunidade e não frequentávamos os mesmos círculos.

Creio apenas que cada qual estava muito preocupada com si mesma, e como nossas vidas eram tão diferentes, elas nunca coincidiam. Gostávamos de trabalhar juntas, falar sobre isso e aquilo, mas não tínhamos muito em comum. Afinal, o mundo dela parecia girar em torno do seu trabalho, ao passo que minha carreira era minha família, e o escritório apenas uma pequena parte da minha vida.

Eu sempre achei que ela fosse feliz; tudo em sua vida corria exatamente conforme os planos – ela amava o trabalho e estava fazendo carreira na empresa, tinha um marido atencioso e bem-sucedido, e tinham acabado de comprar uma bela casa. Tudo estava indo bem. Tudo estava perfeito. Ou assim eu pensava.

E então, um dia, assim do nada, enquanto estávamos ao lado da máquina de café, ela de repente explodiu em lágrimas. Chocada, tentei acalmá-la, e quando ela se sentiu um pouco melhor abriu o coração para mim.

Tudo corria bem em sua vida… exceto uma coisa. Ela não conseguia engravidar.

Miriam contou-me que ela e o marido estavam tentando conceber, jamais esperando ter problemas, mas após dois anos de tentativas, nada acontecera. A princípio eles riram, achando que fosse “estresse devido ao trabalho”, mas após algum tempo viram que o problema era mais sério. E, embora tudo o mais estivesse bem, neste aspecto tudo ia mal. E isso era o que eles desejavam acima de tudo.

“Eu só pensava naquilo”, disse-me ela. “Eu me sentava para uma reunião com um cliente e ficava pensando em ter bebês. Lembro-me que uma vez uma colega de trabalho fez uma observação inocente sobre viajar no fim de semana com o marido e deixar os filhos com a mãe.

Ela estava nervosa pensando que as crianças sentiriam falta dela, e achando que a mãe teria dificuldade para cuidar de três crianças pequenas. Ela sorriu para mim e disse: “Você tem sorte, não tem estes problemas.” Rangi os dentes, sorri para ela, e depois fui ao banheiro chorar durante duas horas.”

Eu me senti mal por alguém ter dito aquilo a ela, e depois vi como facilmente poderia ter sido eu. O que eu tinha dito no passado? Eu tinha sido insensível?

Jamais me ocorrera que este assunto era doloroso para ela. Não tendo qualquer idéia de que ela lutava com problemas de fertilidade (na verdade, jamais tinha percebido que alguém lutava com problemas de fertilidade) eu não sabia o quanto este tema poderia trazer sofrimento para tantas pessoas.

Fiquei chocada – eu tinha trabalhado com esta jovem durante um ano, tínhamos conversado casualmente sobre todo o tipo de coisas, e eu deduzira que sua vida estava exatamente como ela planejara.

Porém o tempo todo ela estava se sentindo infeliz, e escondendo isso muito bem. E então um dia, na hora do café, ela não conseguiu mais segurar – desabafou tudo – e para alguém que ela mal conhecia!

A princípio eu não sabia como reagir. Ironicamente, eu sempre me sentira um pouco intimidada por ela. Miriam era uma verdadeira fortaleza. Perto dela, uma mulher extremamente bem-sucedida, eu me sentia uma dona de casa comum.

Mal sabia eu que ela valorizava tanto aquilo que eu tinha. Miriam parecia precisar de alguém para fazer confidências, alguém objetivo e de certa forma afastado da sua vida pessoal; e eu tive a responsabilidade de escutar. Embora eu não soubesse por que ela me escolhera, achei que se ela o tinha feito, eu deveria tentar ajudá-la da maneira que pudesse.

Ela me contou que tinha começado a consultar um especialista em fertilidade, que a mandava fazer testes e mais testes – sem resultados.

“Eu estava acabrunhada; ia ao consultório médico fazer exames de ultrassom para ver quando eu estava ovulando, e depois corria de volta para o trabalho. Muitas vezes cheguei atrasada, e embora o chefe fosse muito compreensivo, eu me sentia mal por ter de explicar a ele e aos colegas por que eu estava sempre atrasada e muitas vezes ranzinza. E quando comecei com a medicação, sentia-me mal fisicamente também. E depois de tudo aquilo, minha menstruação chegava. Eu estava um feixe de nervos.”

Porém apenas ir ao médico, explicou ela, não basta. Aparentemente cada médico tem uma especialidade específica, e um médico que ajuda um casal talvez não consiga ajudar outro. Miriam disse que conheceu muitos casais que passaram horas intermináveis atrás de médicos que não ajudavam, faziam-nos perder tempo em tratamentos que só aumentavam sua ansiedade. Às vezes eles aguardavam durante meses para consultar um médico, apenas para ouvir que deveriam parar de tentar, que estavam velhos demais para conceber.

“Você não sabe o que fazer, com quem falar,” disse ela. “E eu não podia falar com ninguém à minha volta – minha família se sentia mal por nós, eles não queriam tocar no assunto; minha irmã mais nova estava preocupada com os próprios filhos, e obviamente o assunto era pessoal demais para eu conversar com os colegas de trabalho. Todas as minhas amigas também tinham os próprios filhos para mantê-las ocupadas, ou então não estavam interessadas em ficar grávidas… e elas certamente não queriam ouvir os meus problemas. Eu me sentia só, como se fosse a única pessoa no mundo com estes problemas – eu não tinha ninguém a quem me voltar.”

Bem… eu certamente estava lisonjeada por ela ter decidido confiar em mim, praticamente uma estranha – deve ter sido um ato de puro desespero da parte dela. Mas eu também estava empolgada; aqui estava um problema que eu pessoalmente – graças a D’us – conhecia pouco, algo que para muitos é importante. Em retrospecto, é claro, eu deveria ter percebido como deve ser difícil ter dificuldades para conceber, especialmente em nossa comunidade. Afinal, o Judaísmo dá um valor incrível à vida em família e à criação dos filhos.

E é impossível não ter a vida girando ao redor dos filhos depois que você os tem. Desde o momento da concepção, nossa vida muda para sempre.

Estou envergonhada por admitir que jamais dei muita atenção ao tema da infertilidade. Acho que eu simplesmente acreditava que as pessoas tinham filhos quando quisessem. Depois que Miriam e eu conversamos, comecei a pensar quem mais eu conhecia que pudesse estar afetada. Jamais me ocorrera que talvez algumas pessoas que eu achava que não queriam filhos na verdade não podiam tê-los. Jamais pensei em ser sensível quando conheci pessoas e logo perguntava: “Então, quantos filhos você tem?”

Comecei a me perguntar quantas pessoas talvez tenham histórias sofridas para contar sobre a minha falta de consideração.

A primeira coisa que eu fiz depois da minha conversa com Miriam foi pesquisar no computador para aprender mais sobre infertilidade. Infelizmente, Miriam e seu marido estão longe de serem os únicos – são apenas um dos milhares de casais que têm problemas para conceber. Na verdade, parece que cerca de um em cada sete casais podem ter problemas com fertilidade a certa altura da vida conjugal.

E parece que o número aumenta à medida que o casal fica mais velho. Isso significa que cerca de 15% dos casais pode não conceber após tentarem durante doze meses. Alguns subseqüentemente conseguirão sem qualquer intervenção, mas a maioria precisará de ajuda médica. Infelizmente é um problema que afeta a muitos… e eu não tinha a menor idéia.

Poucos meses depois do “incidente da máquina de café”, Miriam chegou ao escritório um dia parecendo mais calma do que eu a vira por um longo tempo. Ela finalmente encontrara um médico em quem confiava, que lhe dava apoio emocional e conforto para ela e o marido, e os estava orientando através de todo o processo de tratamentos de fertilidade. Ele os estava ajudando a recuperar o controle de sua vida. Com essa ajuda positiva, ela continuou o tratamento com maior confiança e um renovado senso de esperança.

Miriam continua a agradecer-me “por estar lá” quando ela precisou de mim; a verdade é que eu aprendi muito com ela e tenho muito a lhe agradecer. Aprendi a ser mais consciente, a abrir meus ouvidos e meu coração aos outros. E se alguém escolher confiar em mim para expressar seus sentimentos, ou se alguém apenas aparentar que precisa de apoio, farei o melhor possível para escutar, deixá-la falar livremente das suas frustrações e desapontamentos.

Por causa de Miriam eu comecei a ser voluntária num centro para casais com problemas de fertilidade, partilhando com essas pessoas suas esperanças e preocupações. Há centenas de casais como Miriam e seu marido, a maioria sofrendo em silêncio. Talvez sejam nossos vizinhos, nossos amigos, pessoas com quem vamos à sinagoga; e muitas vezes ficamos alheios, insensíveis, ou absorvidos demais em nossa própria vida para prestar atenção às preocupações dos outros. Por meio desse incidente, fiquei determinada a ajudar, de qualquer maneira que eu possa.

E não apenas fornecendo informação sobre fertilidade àqueles que sofrem com isso, mas para aqueles que felizmente não têm esse problema, para que estes se tornem uma fonte de apoio e força para aqueles que têm, em vez de uma fonte de sofrimento e tristeza.

E o mais importante, aprendi a contar minhas bênçãos e a jamais contar com algo como certo. Espero e rezo para que um dia eu consiga ver Miriam e o marido felizes, bem como outras famílias que tentam conceber, para que eu esteja lá para saber quando conceberam e tiveram um bebê saudável, e com gratidão dar as boas-vindas a um pequenino em suas casas.

III. Lidando com a Fertilidade Secundária Por Elana Mizrahi

Quando tentei conceber pela primeira vez perguntei ao médico se eu teria de passar por tratamentos de infertilidade toda vez que quisesse ter um filho. Eu queria que ele me dissesse que uma vez que eu engravidasse, poderia deixar de lado todas as injeções e comprimidos, para conceber naturalmente. Ele não o fez. Em vez disso, respondeu sinceramente: “Eu não sei.”

Tratamento após tratamento, mês após mês, ano após ano meu útero continuava vazio. Nada acontecia, exceto que a dor em meu coração ficava mais forte. Eu me sentia como se todas ao meu redor estivessem grávidas e tendo bebês. Especialmente em minha comunidade é difícil não sentir que você é “a única” sem filhos.

Clamei a D’us, implorei a Ele. Olhava para nossas matriarcas em busca de orientação e ajuda para superar este teste. Conversei com rabinos e amigos. Aos poucos percebi que eu não tinha controle sobre isso. Era a primeira vez na vida que eu tinha uma revelação tão clara da grandeza do meu Criador e como eu estava completamente em Suas mãos.

Então parei de me preocupar. A voz teimosa dentro de mim que dizia “Você terá filhos” jamais desapareceu por completo, mas aquietou-se. Deixamos de lado os tratamentos convencionais, fizemos uma pausa, e então decidimos tentar uma abordagem diferente. Mudamos nossa dieta, tentei acupuntura e tomava ervas. Pouco depois concebi, e meses depois nosso filho nasceu.

Demorei meses para perceber que eu realmente tinha um filho. Era difícil acreditar que esta vida linda viera do meu corpo e que eu era sua mãe. A gratidão que sinto é imensurável. Por que então o anseio retornou, bem como o sofrimento e a incerteza?

Rezo diariamente pelos casais sem filhos e sinto-me culpada pelos meus sentimentos. Por que não posso simplesmente ficar encantada com aquilo que tenho – a bênção que D’us me deu? Em vez disso, meus olhos se concentram na barriga das mulheres grávidas. Vejo irmãos brincando juntos e famílias grandes caminhando pelas ruas. Abraço meu filho e me pergunto se algum dia poderei ter novamente a sensação da vida crescendo dentro de mim. Pergunto-me se serei capaz de dar-lhe irmãos e irmãs para brincar.

Voltei à acupuntura e à dieta. Nada aconteceu, ainda. Portanto, estou esperando e me vejo na mesma situação de dois anos atrás, embora hoje, tendo um filho, tudo mudou. A vozinha dentro de mim insiste: “Você já tem um, não há motivo para não ter outro.” Porém a voz está desaparecendo.

Estou outra vez completamente nas mãos do meu Criador. Admito a Ele, para mim, que mesmo com tudo que faço, não tenho controle sobre isso, sobre qualquer assunto. Vejo que abrir mão me ajuda a passar pelos momentos mais sombrios.

Uma amiga minha perguntou-me como posso fazer isso: como eu pude desistir? Expliquei a ela que abrir mão e deixar D’us tomar conta não é desistir. Na verdade, é a única maneira de lutar página a um amigoCompartilhe isto uma batalha.

  1. Shalom Bait Por Dra. Miriam Biber, PhD

Quando está sob a chupá, qual o casal que não espera shalom bait, harmonia conjugal eterna? Os parceiros rezam ardentemente para que nos muitos anos de sua vida juntos sintam-se tão bem um com o outro nos como se sentem no dia do casamento. De fato, não apenas eles esperam se sentir tão positivos no futuro como estão agora, como desejam que aqueles sentimentos se aprofundem à medida que o casamento progride. Junto com essas expectativas está a idéia de que ser feliz no casamento significa estar constantemente junto do seu parceiro, e jamais querer se separar.

Parece que isso faz sentido. Se vocês estão felizes um com o outro, então deveriam querer, e poder, ficar juntos o tempo todo.

Portanto, pode ser um pouquinho desconcertante que a Torá, de acordo com as Leis da Pureza Familiar, diga a um casal que em determinadas épocas do mês eles não podem ser fisicamente íntimos um com o outro. Se a Torá deseja que um casal construa um lar duradouro, por que os instrui a separar-se regularmente durante parte do mês?

Para muitos casais, esta época do mês pode ser tensa e estressante. Aparentemente, parece que o fato de não ficarem juntos cria mais atrito, o que afeta a harmonia familiar. Então, por que a Torá insiste nesse tipo de relacionamento? Isso parece ir contra a natureza humana, e contra o bom senso.

Por mais surpreendente que possa parecer, pesquisas sobre satisfação conjugal apóia a opinião da Torá – que a chave para um casamento duradouro e satisfatório é ajudar os casais a se separarem de maneira previsível. Por que deve ser assim?

Primeiro, a pesquisa sugere que os casais deveriam ter reservas emocionais para ficarem juntos o tempo todo. Contrário ao que se apregoa nas canções populares e programas de TV, ficar perto demais durante muito tempo pode levar à tensão conjugal.

Estar junto significa estar atento às necessidades do outro, deixando de lado seus próprios desejos. Significa também abrir-se à outra pessoa.

Embora este tipo de intimidade seja importante para o casamento, pode ser sufocante quando se torna perto demais ou dura tempo demais. A descrição acima pode soar um tanto abstrata. Porém, sabemos que sentir que estamos sendo asfixiados é como sentir que perdemos uma parte de nós mesmos.

O que geralmente resulta, sugerem os terapeutas matrimoniais, é um tipo de termostato emocional que dispara, sinalizando aos parceiros que eles precisam dar um tempo. Um ou ambos sente a necessidade de mais privacidade, mais espaço pessoal. O desafio para qualquer casal é conseguir dar ao outro este espaço numa maneira construtiva, não ameaçadora.

Muitas vezes uma chance que permitiria aos parceiros uma maior independência desencadeia sentimentos negativos como raiva ou rejeição. Por exemplo, em vez de interpretar a emoção de um parceiro como uma necessidade de privacidade, o outro pode sentir como se estivesse sendo posto de lado.

Uma mulher poderia dizer a si mesma: “Por que ele está menos interessado em mim nestes dias?” Um cônjuge poderia levar isso para o lado pessoal – “O que estou fazendo de errado?” – ou ficar furioso: “Como ele pôde fazer isso comigo?” Ou então: “Ela teve a coragem de fazer isso?” Da mesma forma, a pessoa que se afasta diz: “Preciso de algum espaço. Por que ele está sendo tão intrometido?”

Pode-se ver como esse conflito de sinais pode levar a mais tensão e muitas vezes a brigas. As teorias sobre a satisfação no casamento sugerem que a briga serve como uma maneira de permitir que os parceiros fiquem a certa distância um do outro, pois uma discussão, pelo menos a curto prazo, geralmente resulta em seu afastamento emocional.

A Solução da Torá – Talvez agora possamos apreciar a sabedoria da Torá ao instruir os casais a se separarem fisicamente numa base mensal. A Torá fornece uma estrutura para a privacidade numa maneira construtiva. As Leis da Pureza Familiar podem evitar alguns conflitos, pois os parceiros têm outra maneira de se afastarem.

Quando um casal se separa porque a mulher se tornou nidá (começou a menstruar), a culpa e a mágoa pessoal não têm lugar. Por exemplo, seria um tanto absurdo para um marido dizer: “Por que a minha mulher não está interessada em ficar comigo?” Isso porque a separação é ordenada por uma fonte objetiva, e não emana do próprio casamento. (Obviamente, quando o período de separação se torna muito longo, qualquer que seja o motivo, isso pode resultar em tensão, e deve ser cuidado.)

A separação associada com a mitsvá do micvê também ajuda o casal a desfrutar a intimidade quando eles têm permissão de ficar juntos. Durante este tempo, podem ter uma intimidade mais completa. Além de permitir que os casais se separem de maneira não ameaçadora, as Leis da Pureza Familiar também asseguram que a atração que o marido e a mulher sentem no princípio continue durante todo o casamento.

O desencanto ou o medo do desencanto que pode vir com a familiaridade e os aspectos mais mundanos do casamento é um problema que o mundo secular tem tentado resolver com grande empenho.

A Torá oferece uma solução brilhante, porém incrivelmente simples. Ao separar os parceiros, promove a atração física que o marido e a mulher sentem um pelo outro. A saudade obviamente é muito mais forte após terem se separado por duas semanas do que o casal que nunca fica longe. Em vez de terem de confiar em maneiras diferentes mais estimulantes de intimidade física, a separação em si assegura a renovação.

É verdade que as expectativas que ocorrem antes de uma mulher ir ao micvê precisam ser cuidadas. Mesmo assim, lidar com a antecipação de estar juntos é um problema muito mais fácil que as dificuldades que surgem de um casal entediado ou desinteressado um no outro.

Um outro benefício das Leis de Pureza Familiar é ajudar o casal a aprender como se aproximar de outras maneiras, além da física. Como qualquer pessoa casada sabe, ser amoroso com seu cônjuge é uma maneira fácil de transmitir muitas mensagens. O mais importante é transmitir amor, carinho e proximidade; uma espécie de declaração e certificado da reciprocidade de sentimentos.

Uma declaração verbal, no entanto, é mais específica. Dar um abraço no parceiro é como dizer “Eu te amo” sem especificar como. É o equivalente a alguém que diz “Obrigado” a outra pessoa mas não diz pelo quê está agradecido. Como um abraço ou um beijo pode significar muitas coisas, a comunicação pode se tornar um pouco difícil.

Impedir o casal de se tornar fisicamente íntimo exige que os parceiros encontrem maneiras de se aproximar e expressar seu amor um pelo outro. Isso exige esforço. Porém, promove um relacionamento mais saudável, pois o casal tem múltiplas maneiras de conhecer um ao outro.

Uma esposa precisa demonstrar interesse no marido, por exemplo, perguntando sobre os aspectos da vida dele que lhe são importantes, e vice-versa. É mais fácil dar um beijo no outro após um dia no escritório que perguntar sobre os acontecimentos importantes do seu dia. No entanto, o vínculo emocional que se desenvolve a partir do último tipo de conversa é mais duradouro e substancial.

Obviamente, as Leis da Pureza Familiar não são garantia de felicidade no casamento. Porém seus benefícios psicológicos se tornam óbvios através desta mitsvá que fornece uma estrutura que permite ao casal ser simultaneamente íntimo e independente.

Marido e mulher precisam se esforçar para permitir que o outro tenha independência ao mesmo tempo em que encorajam o crescimento e a profundidade do relacionamento. Como ocorre em outras áreas da vida, D’us nos fornece as ferramentas para nos aperfeiçoar; porém cabe a nós reconhecê-las e usá-las de maneira positiva.

 

  1. Costumes Judaicos na Gravidez Por Chana e Dovid Zaklikowski

Os meses de gravidez são uma época muito valiosa e delicada. Como certamente seu médico já informou, a atitude, comportamento e opções nutricionais da mãe durante este período têm um profundo impacto sobre a saúde e futuro desenvolvimento do feto. Recentes estudos médicos também apontam os efeitos do ambiente físico e emocional no bebê por nascer. A mulher grávida deve ser cercada por uma atmosfera positiva, calma e tranqüila. Ira e ansiedade devem ser evitadas ao máximo.

O mesmo se aplica a respeito do desenvolvimento espiritual do embrião e feto; o comportamento da mãe, bem como seu ambiente, têm efeitos duradouros na nova vida em desenvolvimento. Nossos Sábios encorajam as mulheres a usarem os meses de gravidez para aumentar suas boas ações e refinamento espiritual. Para este fim, a mulher grávida deve ir à sinagoga sempre que possível, e participar em aulas de estudo de Torá.

Embora todas as boas ações e mitsvot sejam benéficas ao bebê que vai nascer, nossos Sábios enfatizam o valor de fazer mais caridade. Ser bom com os outros faz com que D’us nos trate da mesma maneira. Além da caridade regular que a pessoa distribui, a caridade deve ser feita todo dia – ter uma caixinha de tsedacá em casa facilita essa prática. A hora mais apropriada para doar para caridade é antes do Shabat ou do acendimento de velas numa Festa Judaica. Nessa hora, deve-se acrescentar em tsedacá, considerando que no dia seguinte a pessoa estará impossibilitada de fazê-lo, devido à restrição de manusear dinheiro nesses dias sagrados.

Assim como uma mulher grávida deve ser meticulosa sobre as suas necessidades nutricionais, deve também cuidar da “nutrição espiritual”. Comer somente alimentos casher tem um impacto extremamente positivo sobre o feto.

Eis aqui alguns costumes relacionados à gravidez e ao parto, que são praticados por várias comunidades judaicas:

  • Alguns têm o costume de manter a gravidez em segredo dos amigos e conhecidos até o quinto mês, a menos que se torne aparente… Esta restrição não inclui membros da família.1 • Alguns têm o costume de o marido abrir a Arca da sinagoga antes da leitura da Torá durante o último mês de gravidez. O Zohar diz: “Quando a congregação tira o Rolo de Torá, os Portões Celestiais da Misericórdia se abrem, e o amor de D’us é despertado.” O marido abrindo os Portões do Céu atrai a bênção misericordiosa de D’us para que o parto seja fácil e sem complicações.
  • Em algumas comunidades é costume que a mulher judia mergulhe num micvê durante o nono mês de gestação. Fale com sua rebetsin ou “atendente do micvê” sobre planejamento e preparação. É aconselhável consultar seu médico antes de ir ao micvê.
  • Durante a gravidez, mãe e pai devem aumentar sua recitação de Tehilim.2Antes de irem para a cama, é costume o marido recitar o Salmo 20. Ao terminar, deve repetir o segundo versículo do Salmo.
  • As mezuzot da casa devem ser inspecionadas por um escriba durante os meses de gravidez. Se a pessoa não tem mezuzot em toda a casa, agora é a época para adquirir novas mezuzot.
  • Uma mulher grávida deve esforçar-se para ser exposta a visões e sons sagrados. Para isso, sempre que possível ela deve evitar olhar para animais não-casher (visitas ao zoológico podem esperar até depois do nascimento).3Deve evitar ouvir fofocas, maledicência ou outras conversas perniciosas.
  • Em muitas comunidades, a mulher grávida não visita cemitérios a fim de evitar locais que podem levar a emoções negativas.
  • É costume ter uma cópia do Salmo 121 na mão durante o parto. Se possível, durante as etapas finais de trabalho de parto, o marido deve recitar estes Salmos: 1, 2, 3, 4, 20, 21, 22, 23, 24, 33, 47, 72, 86, 90, 91, 92, 93, 104, 112 e 113 até o 150.

Notas:

1 – Este é um costume Chabad-Lubavitch para evitar chamar atenção desnecessária à criança ainda não nascida.

2 – O Livro de Tehilim (Salmos) está dividido em 30 seções, com uma seção costumeiramente recitada a cada dia do mês judaico, Se você ainda não pratica esse costume, agora é uma boa hora para começar. Durante a gravidez, é aconselhável acrescentar alguns Salmos além do regime padrão diário.

3 – Embora todos os animais sejam criaturas de D’us e tenham um propósito Divino, animais não-casher possuem algumas características negativas que procuramos evitar.

  1. Mulheres na Torá Por Rav Tzvi Freeman

Existe uma Torá exterior – uma história de homens e mulheres, de guerras e maravilhas. E existe uma Torá oculta, segundo antigas tradições, na qual cada palavra revela sabedoria, beleza e luz insondáveis.

Por fora, as mulheres da Torá parecem desempenhar apenas um papel coadjuvante num drama dominado pelos homens. Vista de dentro, emerge uma história de homens manipulados por mulheres potentes e criados com valores femininos. Uma história que revela a qualidade interior da feminilidade que transcende a mente do homem.

Este é o segredo das palavras da sabedoria de Shelomô HaMelech, Rei Salomão: “Uma mulher de valor é a coroa do seu marido.” Assim como a coroa fica acima e além da cabeça. também a luz interior da feminilidade possui uma qualidade essencial, num local que a mente não pode atingir.

1 – Chava (Eva) – “Então Adam chamou sua mulher de Chava, pois ela era a mãe de toda a vida.” (Bereshit/Genesis 3:20)

Ela era o outro lado da imagem de D’us. Pois D’us não é apenas uma luz ilimitada, além de todas as coisas. D’us é algo que está aqui agora, dentro de todas as coisas, concedendo-lhes vida, para serem o que quer que sejam. Em sua fonte acima, ela é a “Shechiná” – a Divina Presença que Habita no Interior.

Foi isso que levou a terrena Chava a comer o fruto: este anseio de estar dentro, de experimentar o sabor da vida, de estar imersa nela. Com isso ela transgrediu – levou-se do âmbito do Divino a um mundo onde tudo que é real é o aqui e agora, onde não há ponto de vantagem a partir do qual discernir o bem do mal, nenhuma luz para distinguir o fruto de sua casca. E ela levou consigo a Shechiná e aprisionou-a também, para que se seguisse a devastação em todo o cosmos.

Porém o desejo por trás de sua transgressão era que o yen sagrado da Shechiná permeasse todas as coisas. E no final, ela conseguirá, e a vida interior também será Divina.

Enquanto o drama desse universo permanece incompleto, a Shechiná está silenciosa, não canta. Vemos o mundo que Ela vitaliza, mas não escutamos sua voz dentro dele. Na mente de todas as pessoas, ela desempenha um papel secundário – pois seu marido conquista e domina, enquanto ela, dizem, somente fornece vida e nutrição. Esta é a opinião de um mundo imaturo.

Há um tempo ainda por vir, quando o segredo da Luz Interior será revelado. Então a Mãe da Vida cantará em voz alta, sem fronteiras.

2 – Sarah – “Tudo que Sarah lhe disser,” disse D’us a Avraham, “escute.” (Bereshit/Genesis 21:12)

A primeira a curar a ferida feita por Chava foi Sarah. Ela desceu ao covil da cobra, ao palácio do Faraó. Ela resistiu à sedução dele e afastou-se. Enquanto vivia dentro, ela permaneceu ligada ao Alto.

Foi Avraham quem possibilitou que Sarah o fizesse. Porém o próprio Avraham não era capaz de tal coisa. Este é o papel de um homem – ativar a força que se encontra adormecida numa mulher. Sem uma mulher, um homem não tem vínculo com a Shechiná. Sem um homem, a mulher não pode ser a Shechiná. Uma vez que haja um homem, a mulher se torna tudo.

Sarah é a incorporação do poder cósmico de purificação e cura das almas. Aquilo que Chava confundiu e misturou, Sarah separa e refina; onde Chava entrou nas trevas, Sarah acende a luz. Sua obra continua em cada geração. Enquanto a alma de Avraham atrai almas e as mantém próximas da Infinita Luz, a alma de Sarah discerne as manchas que devem ser limpas e os detritos que devem ser rejeitados. Quando qualquer alma ou centelha de luz é curada e devolvida à sua fonte, você saberá que ali passou o toque de Sarah.

3 – Rivka – “Beba… e eu tirarei água também para seus camelos.” (Bereshit/Genesis 24:17-18)

Com essas palavras, Rivka comprometeu-se com Yitschac e se tornou mãe de duas grandes nações. Não apenas pelo seu ato de dar, mas pela sua prontidão, porque ela buscou toda oportunidade de fazer o bem, buscando-a com alegria e deleite, com toda sua alma e todo seu ser.

E ela implantou isso dentro de nós, como nosso legado. Precisamos apenas despertá-lo e encontraremos a Rivka interior.

Há poucas histórias tão detalhadas na Torá como a narrativa da união de Rivka e Yitschac – ela é contada e recontada três vezes. Pois nessa narrativa está o nascimento do nosso povo e nosso propósito. Ela encerra o segredo interior para o qual o cosmos foi criado: a fusão dos opostos, o paradoxo e a beleza da vida. Para isso, estamos aqui – para unir céu e terra. E na união de Homem e Mulher todas essas se encontram.

E quem é o casamenteiro neste drama cósmico? É o humilde servo de Avraham, que fala ao Amo do universo com a sinceridade do seu coração, que está obcecado com sua missão e com ela se deleita a cada passo. É todo e cada um de nós.

4 – Rachel e Leah – Uma voz é ouvida lá no alto, lamentando-se, chorando amargamente.

Rachel chora por seus filhos

Ela se recusa a ser consolada

Pois eles se foram.

“Não chora mais,” diz D’us a ela. “Refreia as lágrimas dos teus olhos.”

“Pois tua obra tem sua recompensa e teus filhos voltarão.” Yirmiyáhu/Jeremias 31:14)

Rachel é a incorporação da Shechiná quando Ela desce para cuidar dos Seus filhos, até viajar a jornada do exílio com eles, e assim ela assegura que eles voltarão.

Sua irmã, Leah, também é nossa mãe, a Shechiná. Porém ela é o mundo transcendente, oculto; aquelas coisas escondidas da mente Divina profunda demais para os homens entenderem. Ela é a esfera da realeza quando se eleva para receber em silente meditação.

Rachel é o mundo de palavras e ações reveladas. Ela tinha a beleza que Yaacov podia notar e desejar. Porém Leah foi elevada demais, muito além de todas as coisas, e assim Yaacov não pôde se apegar a ela da mesma maneira.

Porém é de Leah que descendem quase todos da nação judaica.

5 – Serach – Quando os filhos de Yaacov voltaram para casa com as notícias sobre Yossef, temiam que seu pai não acreditasse neles.

Então Serach, filha de Asher, tocou sua harpa e ficou do lado de fora da tenda de Yaacov. Ela compôs uma melodia sobre Yossef e suas viagens, concluindo cada uma com o coro “… E Yossef ainda vive.” “Sim!” exclamou finalmente seu avô, “Yossef ainda vive!” E então seus filhos puderam falar com ele.

Por isso, Yaacov abençoou Serach com vida. Ela ainda estava viva para mostrar a Moshê onde ficava o túmulo de Yossef. Ainda estava viva, uma mulher sábia que salvou a cidade de Abel nos tempos do rei David. E ela ainda vive, pois foi uma das poucas pessoas a entrar viva no Paraíso.

Se a Shechiná é um diamante e cada mulher uma faceta diferente, então Serach é a centelha de esperança que reluz em cada uma e emana lá de dentro. A centelha que nunca se afasta, que permanece acima e além mesmo quando a Shechiná que a contém afunda. Uma centelha duradoura que todos os rios do exílio não podem levar embora, e que oceanos de lágrimas não podem extinguir. Serach vive, ela vive no Paraíso, e portanto o paraíso vive dentro de nós.

6 – Miriam – Uma menina fica de pé em meio aos juncos na margem do rio, parada e calma, observando de longe. Ela é a guardiã da promessa, de tudo que seu povo ansiou, e ela não permitirá que aquela promessa saia da sua visão.

Seu nome é Miriam e Miriam significa amarga, pois é a amargura que a impele, toda a amargura nascida do duro destino de seu povo. Somente sua visão pode mitigar aquela dor ardente, e ela sozinha sustenta seu pulsar. É uma visão poderosa, que transformará o amargo em doce, as trevas do exílio na reluzente luz da liberdade.

Em seu mérito, fomos redimidos da escravidão, e pelo mérito das mulheres de fé hoje, o mundo inteiro será redimido de sua escuridão.

7 – Devorah – “Eles deixaram de morar em cidades sem muralhas em Israel, deixaram até que eu, Devorah, surgisse; surgi como uma mãe em Israel.” (Shofetim/Juizes 5:7)

Na pacífica sombra de uma antiga palmeira nas colinas de Efraim, ali você encontrará uma mulher sábia, uma profetisa a quem todos em Israel acorriam em busca de conselho, orientação e esperança.

Ela convocou Barak, um poderoso guerreiro, instruindo-o a guerrear contra os opressores de seu povo. Porém Barak insistiu que não iria, a menos que Devorah fosse com ele, e por isso ela zombou dele.

Devorah não via grandeza em imitar os atributos da masculinidade – lutar, vencer e conquistar – mas sim em ser uma mãe em Israel, que dá vida, nutrindo seu povo com bondade e fé.

8 – Ruth – “Aonde tu fores, eu irei. Onde habitares, eu habitarei. Teu povo é meu povo e teu D’us é meu D’us.” (Ruth 1:16)

Ela é o paradigma daquelas antigas almas que descobriam estar perdidas e ansiavam voltar para casa. Elas devem batalhar numa jornada ascendente, permeada de sacrifício e desafio ao longo de caminhos tortuosos e até bizarros, mas somente porque o pacote é tão precioso e sua entrega tão vital.

Neste caso, foi uma centelha da pura santidade perdida desde Avraham, destinada a aflorar como o bisneto de Ruth, David, o redentor de Israel. E, muitos milênios depois como o redentor definitivo.

9 – Batsheva – Existem almas que viajam numa estrada de veludo durante toda a vida, encontrando seu parceiro e seu lar em seu destino, como se tudo ocorresse segundo um roteiro cósmico ordenado. Outros viajam por um labirinto de passagens obscuras, batendo a cabeça contra as paredes em repetidos erros, às vezes conseguindo abrir uma ou outra passagem secreta rumo ao desconhecido.

Segundo a antiga sabedoria, este é o único caminho no qual as almas mais elevadas podem ser espremidas em nosso mundo estreitamente atado, onde as forças das trevas detém tanta influência. E foi assim que da união de Batsheva e David, uma união forjada no escândalo e na desgraça, um filho, Shelomô, nasceu, para construir o Templo, um portal para a Luz Infinita em Jerusalém.

10 – Esther – “Então vou procurar o rei, contrariando o protocolo. E se eu perecer, perecerei.” (Esther, 4:16) Uma mulher de segredos, de mistérios, ocultando sua verdadeira identidade sob muitas vestes – até que chegou a hora. Uma mulher como a estrela matutina – naquele local impossível onde a noite se torna tão escura que somente lhe resta revelar a alvorada.

Ela foi alguém que ousou penetrar na câmara mais recôndita do mal, elevando Haman, seu príncipe, ao pináculo da glória – somente para que ele pudesse fabricar sua própria queda.

Quando ela arrancou a máscara e sua luz interior resplandeceu, a fachada da intriga palaciana de sorte e coincidência abriu-se como uma cortina, revelando maravilhas e milagres nos bastidores. Dessa maneira, Esther contém a redenção definitiva, pois ela uniu o milagre ao mundano, ela descobriu a luz ilimitada dentro de uma nuvem escura.

Última Palavra – Das almas mais elevadas e esclarecidas, muitas tiveram esposas mais notáveis que eles próprios e filhas ainda mais notáveis que os filhos. Assim foi com Avraham, Yitschac e Yaacov. Assim foi com Rabi Akiva e Rabi Meir. Assim foi com grandes mestres da Cabalá.

Isso porque estes grandes homens, em sua vida pessoal, já estavam sentindo o sabor do Mundo Vindouro. Naquela época, a qualidade da feminilidade se agigantará sobre o homem.

VII. Primeiro as Damas  Por Rav Yanki Tauber

Mesmo na época atual, as mulheres aceitam graciosamente a regra geral de “Primeiro as Damas”, seja ao abandonar um navio que está afundando ou quando passam por uma porta. Entendida geralmente como uma concessão ao sexo mais fraco pelo mais forte, a regra na verdade está baseada num argumento muito diferente, pelo menos na tradição judaica.

Quando D’us instruiu Moshê para preparar o povo de Israel para receber a Torá no Monte Sinai há cerca de 3313 anos, Ele disse: “Fala à casa de Yaacov, e diz aos Filhos de Israel” (Shemot 19:3). A “casa de Yaacov”, explicam nossos Sábios, são as mulheres; “os Filhos de Israel”, os homens. Em outras palavras, fale primeiro com as damas.

Até então, a regra era “primeiro os homens”. Adão (Adam), como sabemos, foi criado antes de Chava (Eva). Nôach e seus filhos entraram na arca em primeiro lugar, seguido por suas esposas – pelo menos esta é a ordem em que estão relacionados em Bereshit 7:13 (uma situação inversa à do “navio que está afundando”, se me permite).

Quando Yaacov viajou com sua família, os homens iam à frente e as mulheres os seguiam (Bereshit 31:17), ao passo que Essav colocou as mulheres adiante dos homens; os Sábios notaram essa diferença e a vêem como uma indicação da superioridade moral de Yaacov sobre seu irmão hedonista. Então, por que D’us deu a Torá primeiro às mulheres?

O Midrash oferece diversas explicações. Para começar, as mulheres são mais religiosas que os homens (certas coisas não mudaram em todos esses séculos); consiga que elas aceitem a Torá, e os homens farão o mesmo (outra coisa que não mudou).

Segundo Rabi Tachlifa de Cesaréia, o contrário é o correto – as mulheres são as rebeldes, portanto precisam ser conquistadas primeiro: “D’us disse a Si Mesmo: Quando Eu criei o mundo, ordenei primeiro a Adam, e somente então Eva foi ordenada, com o resultado que ela transgrediu e perturbou o mundo. Se Eu não convocar primeiro as mulheres, elas anularão a Torá.”

O ensinamento hassídico vai mais fundo e encontra a explicação na essência da masculinidade e da feminilidade. O homem deriva da “linha de luz” (kav) que penetra o vácuo (makom panui) formado por D’us para criar o mundo. Porém o makom panui não é um “vácuo” absoluto – um resíduo da Divina luz ficou para trás, formando um éter invisível de Divindade que permeia e sublinha nossa existência. É a partir desse “resíduo” que deriva o componente feminino da Criação. Portanto o homem é um conquistador; seu papel na Criação é banir a escuridão terrena e trazer a luz dos Céus. A mulher está relacionada com aquilo que é, não aquilo que deve ser feito, encontrando a Divindade dentro do mundo, em vez de importá-la de fora.

Ambos são integrantes do plano do Criador: nossa missão na vida é trazer D’us ao mundo (o papel masculino) e tornar o mundo uma morada para D’us (a especialidade da mulher); banir as trevas (masculino) e revelar a luz implícita dentro da escuridão (feminino).

Durante os primeiros 24 séculos da História, a humanidade teve muito trabalho combatendo as trevas. Portanto o componente masculino dominava.

Mas então chegou o dia em que D’us, ansiando pela morada que Ele desejou quando fez o mundo, preparou-se para Se revelar no topo de uma montanha no Deserto do Sinai e transmitir ao Seu povo escolhido uma Torá delineando seus planos para a construção de Sua casa. O homem ainda terá de batalhar, mas todas as suas batalhas daqui em diante serão baseadas no princípio de que, embaixo disso tudo, o mundo é um lugar Divino.

Está na hora de ter uma palavrinha com as senhoras, disse D’us a Moshê.

Mulheres que Regressaram ao Judaísmo – Há mais de trinta anos, começaram a ficar evidentes os indícios do fenômeno de reflorescimento judaico, quando aqueles vindos de famílias assimiladas, voltaram a descobrir seu Judaísmo e se sentiram atraídos para uma vida de Torá.

Nos anos sessenta, o fenômeno ganhou um tremendo ímpeto ascendente, quando muitos judeus encontravam significado, direção e propósito na Torá. O fenômeno continua hoje, com mulheres e homens de todas as idades reencontrando-se com sua identidade judaica, muitas vezes depois de uma busca difícil e atormentada. No processo de dissipar um preconceito atrás do outro sobre o Judaísmo e sobre a vida judaica, e explorar a profundidade da Torá, as vidas são mudadas, e indivíduos separados da corrente de nosso patrimônio voltam a se conectar.

O que aconteceu com a mulher nos últimos anos? Wellsprings, uma publicação americana, visitou o Instituto Beit Chana de Estudos Judaicos em St. Paul, Minnesota. Fundado em 1969, Beit Chana oferece à mulher um programa intensivo de estudos judaicos.

Sob a direção de Rabi Moshe Feller, foi o primeiro de seu gênero projetado especificamente àquelas mulheres para quem o Judaísmo era algo novo. Por meio de debates informais e aulas de filosofia hassídica com o Rabino Manis Friedman, as mulheres têm oportunidade de aprender Torá e experimentar a vida judaica. onde decidiram prosseguir estudando.

Abaixo alguns depoimentos:

Anne Goldberg, de 23 anos, está completando seus estudos em Literatura Inglesa na Universidade Concórdia de Montreal, Canadá. Ela mora em Laval, Quebec.

“Meu interesse estava voltado ao campo da educação, mas recentemente a pergunta ‘O que vou ensinar?’ tem me perturbado. Antes de descobrir a Filosofia hassídica, e antes de ter experimentado a paz e a tranqüilidade do Shabat, algo que eu havia tentando conseguir através da meditação, eu me considerava uma ‘judia cultural’, e não uma judia religiosa. Ao tentar pôr em ordem este mundo caótico, sempre tentamos controlar todos os demais. No Judaísmo, começamos com o controle de nós mesmos, e a responsabilidade que devemos assumir sobre nossa própria vida.”

Segundo alguns planos originais de Anne, ela deveria ter partido para algum lugar na África no último mês de setembro. “Em vez de viajar a outros países” – disse ela sorridente – “viajarei ao Judaísmo. Agora tentarei conhecer o Judaísmo, para poder transmiti-lo.”

Teena Schuster, de 44 anos e residente em Skokie, Illinois, é uma fisioterapeuta, dançarina e mãe de quatro filhos.

“Em minhas aulas de dança conheci mães de 8 ou 9 filhos que tinham uma essência de felicidade, paz e satisfação. Estas mulheres pareciam ter a vida harmonizada de uma maneira que eu nunca encontrara nas mulheres seculares.” Tendo se casado há dez anos, Teena e seu marido estão agora realizando um casamento judaico, “Logo trarei D’us para dentro do meu matrimônio, e agora me dou conta do que significa ter vivido uma vida sem Torá.”

Linda Naim, 28 anos, de Boston. Recebeu seu diploma em Psicologia na Escola John Hopkins.

“Observando com sincero desprendimento a minha vida, senti que o mundo secular não tinha moralidade, e que se eu desejava desfrutar um casamento com significado, se eu queria educar filhos num mundo como este, teria que encaminhar meus filhos a um estilo de vida mais tradicional, onde existem regras e orientação acerca de como tomar decisões felizes.

“Comecei assistindo às aulas do Beit Chabad local. A sensibilidade judaica e o senso de humor que encontrei ali me pareceram bastante atraentes. Até então, a religião me parecia algo muito sério e melancólico. Aqui descobri aquilo que é o verdadeiro regozijo e a felicidade do Judaísmo. Os discursos hassídicos – Maamarim – exerceram grande influência sobre mim.

A hassidut de Chabad te conduz muito além da noção de recompensa e castigo, e te leva a um nível muito mais profundo. A percepção de que estudamos Torá para sermos melhores judeus me atraiu ao cumprimento das mitsvot.”

Meryl Cook, 24 anos, de Suffern, Nova York, recebeu o bacharelato em Estudos Germânicos na Faculdade Grinnel de Iowa.

“Meu interesse pelo Judaísmo sobreveio de uma perspectiva apologética. Eu pensava que se os alemães tivessem conhecido mais sobre os judeus, talvez tivessem sentido menos ódio. Eu havia integrado dentro de mim muitas idéias sobre o anti-semitismo, e não queria ter nada daquilo que eu acreditava ter sido o motivo das pessoas odiarem os judeus. Finalmente, mediante o estudo do Judaísmo, tomei consciência de que não preciso desculpar-me por ser judia. Devo concentrar-me em ser judia.

Finalmente fiz as pazes com meu Judaísmo. Chabad me deu uma maravilhosa ótica sobre mim mesma. Aprender sobre o Judaísmo me tornou orgulhosa de ser judia. Tenho pena de ver que tantas amigas minhas ainda não têm uma concepção genuína do que é realmente o Judaísmo, por não poderem sentir o orgulho que surge com suas vivências.”

Edith Altman, 59 anos, de Chicago, é artista de multimídia, e sua exposição “Reclamando o Símbolo: A Arte da Memória” foi premiada com um subsídio da Fundação Nacional Para as Artes. Nasceu na Alemanha. É filha de um sobrevivente do Holocausto.

“Ao debater sobre misticismo com meu pai, começamos a falar sobre Judaísmo. Sempre tive de lidar com esse tema do Holocausto e com questionamentos sobre D’us nesse contexto. Chabad me ajudou a tratar esta questão de maneira única. Ao voltar para o Judaísmo, acreditei que teria de escolher entre dois mundos. Porém tenho recebido muito alento para prosseguir com meu trabalho e sinto-me bem ao saber que posso integrar ambos numa existência comum e harmoniosa. Minhas duas semanas no Instituto foram uma experiência curativa. Saio revitalizada.”

Sharon Shaffer, 48 anos, de Detroit, é mãe e secretária da Junta dos Diretores da Fábrica Eyeglass. É formada pela Universidade Drake. A tragédia pessoal foi quem a levou a dar um giro pelo Judaísmo.

“Comecei estudando a Filosofia Chassídica e encontrei aquilo que eleva sensivelmente a pessoa no campo espiritual. Não se trata simplesmente de ‘faça’ e ‘não faça’. Sinto-me melhor comigo mesma e com o resto do mundo, agora que D’us ocupa uma parte tão grande em minha vida. Saber que há algo mais que simplesmente ‘existir’ é muito reconfortante.”

Que Não Me Fez Mulher… Mitsvot Especiais da Mulher

Entre as inúmeras Bênçãos Matinais, Brachot Hashachar, uma delas é pronunciada apenas pelos homens e gera muita polêmica e interpretações equivocadas. Como as demais brachot, ela possui a mesma estrutura: “Bendito seja D’us, Rei do Universo, que …”, “…SheLo Assani ishá”… “que não me fez mulher”. Pronto! Há mulheres que ficam indignadas, sentindo-se ofendidas, até ultrajadas, e homens constrangidos com tal declaração.

No entanto, não devemos nos impressionar ou sermos levados pelas aparências ou por interpretações pessoais. Qualquer um familiarizado com a alta estima na qual a mulher judia é tida na Torá e com o lugar o qual ocupa na vida judaica, não será ingênuo a ponto de pensar que esta bênção reflete algo negativo sobre a feminilidade judaica. Os mandamentos possuem um sentido mais profundo.

Durante a era da profecia houve sete profetisas mencionadas pelo nome no Tanach, e nota-se na Torá que Sara foi, em certos aspectos, até superior a Avraham, pois D’us disse a Avraham: “Tudo o que Sara te disser, ouve-a.” Sem mencionar outros fatos ocorridos em nossa história que engrandecem e colocam a mulher em um nível superior e ímpar na vida judaica.

Por natureza, a tarefa do homem é ser provedor, enquanto a mulher tem que dividir seu dia entre administrando a vida do lar, educação de seus filhos, e de toda a família com paciência e extrema competência, com todas as qualidades que a Divina Providência tão generosamente lhe conferiu.

Hoje aliada ao exercício da vida profissional, para muitas, exige ainda mais disciplina e perfeita estratégia para que não haja falhas em seu planejamento; e ela já se cobra muito de si mesma. A Torá, justamente por este motivo, eximiu a mulher judia da obrigação de cumprir certas mitsvot.

Apesar da mulher judia estar igualmente obrigada, como o homem, a cumprir todas as proibições da Torá, os mandamentos proibitivos (e estes são a maioria – 365 “não faças”para 248 “faça”).

Entretanto, no que se refere aos mandamentos positivos, a mulher judia está isenta do cumprimento de alguns deles (de modo algum, não todos), principalmente os que têm um fator tempo ou limite, em consideração aos seus importantes deveres conjugais e maternais, aos quais a Torá dá precedência. Neste aspecto, portanto, a mulher judia é antes “privilegiada”.

Entretanto, o homem judeu, a quem não foram concedidos os privilégios especiais, tem a seu favor a oportunidade de estar estreitar seu relacionamento com D’us mais frequentemente pelo cumprimento daquelas mitsvot das quais a mulher está isenta. Esta não é uma compensação pequena e é por esta razão – pela oportunidade de servir a D’us com estes preceitos adicionais – que o homem recita a bênção “que não me fez mulher”.

Sob o ângulo feminino, toda mulher judia deve estar consciente de ter sido dotada de uma maior sensibilidade que permite estabelecer uma conexão com D’us de forma direta e profunda. Sob este prisma, sua natureza é mais uma vantagem, um ponto a seu favor. O fato de D’us tê-la isentado de certas tarefas mostra todo apreço que Ele dedica ao seu papel essencial dentro do povo judeu e na garantia de sua continuidade.

Velas, Chalá e Taharat Hamishpachá – Mitsvot Especiais da Mulher

“E Yitschac a levou [Rivca] à tenda de Sarah, e tomou a Rivca e ela foi sua mulher”

Bereshit/Genesis 24:67

Onkelos interpretou esta frase no sentido de que as ações de Rivca foram tão boas e tão íntegras como as de Sarah, sua sogra.

Segundo a interpretação de Rashi, Rivca assumiu as características de Sarah em relação a três mitsvot fundamentais. Em primeiro lugar, quando acendiam as velas na sexta-feira à tarde em honra ao Shabat, as velas não se extinguiam no período normal de tempo, mas permaneciam milagrosamente acesas desde a tarde de sexta-feira até a tarde da sexta-feira seguinte. Em segundo lugar, a chalá que assava para o Shabat também se mantinha milagrosamente fresca durante toda a semana. Em terceiro lugar, devido a sua meticulosa observância de Taharat Hamishpachá (Leis de Pureza Familiar), a Divina Presença pairava sobre sua tenda na forma de uma nuvem especial (Gur Ariê). Por que Rashi apresentou as mitsvot nesta ordem: velas, chalá e depois Taharat Hamishpachá?

Acender as velas do Shabat é a primeira mitsvá feminina que se confia a uma menina. Rivca foi levada pela primeira vez à tenda de Sarah e acendeu ali as velas com a idade de três anos. Os eruditos da Torá deduziram portanto que três anos é a idade, desde tempos imemoriais, em que as meninas começam a acender as velas em honra ao Shabat.

A chalá é uma referência à mitsvá de separar e queimar uma pequena quantidade de massa ao assar o pão. Esta mitsvá também é ensinada às meninas se, e quando, começam a assar, obviamente algum tempo depois de completarem três anos e está ligada com a mitsvá de cashrut.

Taharat Hamishpachá se menciona em terceiro lugar por que esta é, cronologicamente, a última das mitsvot especialmente encomendadas à mulher. Na noite anterior ao casamento a mulher judia tem a mitsvá de submergir no micvê. Deste modo, santifica seu matrimônio desde o início, como aprendemos com os exemplos de Sarah e Rivca, pois cada uma destas três mitsvot traz grandes bênçãos ao lar judaico.

Quando uma mulher não está presente ou não se encontra em condições de fazê-lo, o homem deve cumprir a mitsvá de acender as velas e separar a massa. Portanto, devemos supor que Avraham, que observava a Torá em todos os seus detalhes, acendeu as velas durante os três anos posteriores ao falecimento de Sarah, até que Rivca foi levada à sua tenda. No entanto, o texto menciona unicamente que a bênção retornou somente quando Rivca acendeu as velas, embora esta tivesse apenas três anos de idade. Isto nos ensina que as mulheres e as meninas têm o poder inerente de fazer com que a luz e a paz espirituais se manifestem no mundo físico.

O casamento e os Dez Mandamentos – Com a entrega dos Dez Mandamentos aprendemos importantes ligações entre a Torá, a mulher judia e o casamento em geral. D’us entregou as tábuas a Moshê “quando terminou de falar com este” (Shemot 31:18). A palavra hebraica kejalotô (quando ele termina) se relaciona etimologicamente com a palavra calá (noiva).

Nossos Sábios ampliam e desenvolvem este conceito de forma muito bonita: as tábuas foram escritas pelo dedo de D’us. Do mesmo modo se decreta no céu que um casal em particular se una em matrimônio. Havia duas tábuas separadas, mas estas estavam unidas por um inseparável vínculo de pedra. Também eram idênticas em tamanho e formato. No casamento, duas pessoas separadas se unem como iguais.

Elas fundem o afeto que sentem uma pela outra e se unem. As tábuas eram feitas de uma substância material – a pedra – mas a inscrição era Divina, uma escritura Celestial (gravada na pedra). O casamento significa união física, mas esta união deve conter também os elementos espirituais do respeito, afeto, lealdade e devoção. Estes são atributos que aliviam as responsabilidades contraídas no casamento, assim como as letras Celestiais faziam com que as tábuas ficassem leves para que Moshê as pudesse carregar.

Segundo a tradição, Moshê enriqueceu devido a uns pedaços de pedra preciosa que havia encontrado. D’us ordenou que estas pedras pertencessem a Moshê. Do mesmo modo, nossos Sábios nos ensinaram que as riquezas e o êxito material, a paz e a luz no lar estão diretamente ligadas com as mitsvot da mulher e o poder que ela tem de atrair bênçãos ao mundo e a sua família, em particular.

Assim como as duas tábuas de D’us nunca se dividiram, mas permaneceram juntas, o casal deve resolver enfrentar o futuro juntos, com esperança, coragem e determinação para conseguir o êxito.

Assim como os mandamentos de D’us preencheram as tábuas, nossa vida familiar deve abraçar a mensagem Divina. Marido e mulher devem dedicar sua vida conjugal aos princípios de nossa Torá e prestar atenção especial às leis da pureza familiar, Taharat Hamishpachá. Tendo D’us como parceiro neste sagrado projeto, todo casamento tem o potencial pleno e a segurança quase absoluta de conseguir êxito e satisfação completas e duradouras.

Akeret Habayit – Numa família judaica, a esposa e mãe é chamada em hebraico Akeret Habayit. Isso significa literalmente o “esteio” da casa. É ela que em grande parte determina o caráter e a atmosfera do lar.

D’us exige que todo lar judaico tenha um caráter judaico não somente no Shabat e nos Dias Festivos, mas também nos dias comuns e nos assuntos cotidianos em todos os aspectos. O que torna um lar judaico especial é que ele é conduzido em todos os detalhes segundo as diretrizes da Torá. Assim o lar se torna uma morada para a Presença Divina, sobre a qual D’us declara: “Façam para Mim um santuário, e eu habitarei entre eles” (Shemot 25:5).

É um lar no qual a Presença Divina é sentida todos os dias da semana, e não apenas quando estão engajados na prece e no estudo de Torá, mas também quando realizam atividades comuns como comer e beber, etc., segundo a diretriz: “Conhece-O em todos os teus caminhos.”

É um lar onde a hora da refeição não é apenas um tempo para comer, mas se torna um serviço a D’us, santificado pela ablução das mãos antes da refeição, recitar a bênção antes de comer e dar Graças após a refeição, sendo que cada alimento ou bebida trazidos para casa são estritamente casher.

Um ambiente onde o relacionamento mútuo entre marido e mulher é santificado pelo cumprimento meticuloso das leis de Taharat Hamishpachá (Leis da Pureza Familiar, que incluem a ida ao micvê), e permeado com a consciência de um ativo terceiro “parceiro” – D’us – na criação de uma nova vida, no cumprimento do Divino mandamento “Frutificai e multiplicai”.

Isso assegura também que os filhos nasçam em pureza e santidade, com coração e mente puros, que lhes permitam resistir à tentação e evitar as armadilhas do ambiente quando crescerem. Além disso, a estrita observância de Taharat Hamishpachá é um fator fundamental na preservação da paz e da harmonia (Shalom Bayit) no lar, que assim é fortalecido – obviamente, um fator na preservação da família como uma unidade.

É um lar onde os pais sabem que sua primeira obrigação é instilar nos filhos, desde a mais tenra idade, o amor e o temor a D’us, permeando-os com a alegria de cumprir mitsvot. Apesar do seu desejo de dar aos filhos todas as boas coisas da vida, os pais sabem que o maior, na verdade o único legado eterno que podem conceder aos filhos é fazer da Torá, das mitsvot e das tradições judaicas sua fonte de vida e um guia para a conduta diária.

Em tudo aquilo que foi dito acima, a esposa e mãe judia – a Akeret Habayit – tem um papel fundamental, o mais importante de todos. Cabe a ela – e em muitos aspectos somente a ela – a grande tarefa e privilégio de dar ao lar sua atmosfera realmente judaica.

Ela recebeu a tarefa, e está encarregada, da cashrut dos alimentos e bebidas que entram na sua cozinha e aparecem na mesa de jantar. Ela recebeu o privilégio de dar as boas vindas ao sagrado Shabat, acendendo as velas na sexta-feira, antes do pôr-do-sol. Assim ela ilumina seu lar com paz e harmonia, e com a luz da Torá e mitsvot. É em grande parte por seus méritos que D’us concede as bênçãos da verdadeira felicidade ao seu marido e filhos, e a toda a família.

Além das mitsvot como o acendimento das velas, separar a chalá da massa, e outras que a Torá confiou especialmente às filhas judias, existem assuntos que, pela ordem natural das coisas, estão no domínio da mulher. O motivo para isso estar na ordem natural é que se origina da ordem supra-natural de santidade, que é a fonte e origem do bem no mundo físico.

Isso se refere à observância de Tarahat Hamishpachá, que por sua própria natureza está nas mãos da mulher. O marido é encorajado a facilitar esta observância mútua; e certamente não impedi-la, D’us não o permita. Porém a principal responsabilidade – e privilégio – recai sobre a esposa.

Esta é a grande tarefa e missão que D’us concedeu às mulheres judias – observar e disseminar o cumprimento de Tarahat Hamishpachá e outras instituições vitais da vida familiar judaica. Pois além de ser a mitsvá fundamental e a pedra angular da santidade na vida familiar judaica, bem como estar relacionada ao bem-estar dos filhos em corpo e alma, estas leis se estendem a todas as gerações judaicas, até a eternidade.

É importante salientar que o Criador dotou cada mulher judia com a capacidade de cumpri-las na vida diária, da maneira mais completa, pois caso contrário não seria lógico ou justo D’us dar obrigações e deveres impossíveis de cumprir.

Deve-se notar que o próprio Judaísmo da pessoa depende da mãe. Na Lei Judaica, se a mãe do indivíduo é judia, então ele é judeu. Se apenas o pai é judeu, mas a mãe não é, então o filho não é judeu. Este fato indica o papel fundamental da mulher na preservação da identidade e dos valores judaicos.

Isso não significa que o lugar da mulher judia é somente no lar e que ela não deveria ter uma carreira. Ao contrário, é a constatação de que o papel mais importante da mulher judia é o de dona de casa – o lar e a família são o núcleo da comunidade judaica.

Os modernos psicólogos estão cada vez mais afirmando aquilo que a Torá sempre nos ensinou: que um lar seguro e amoroso, construído sobre valores éticos e sólida moral, é o edifício básico da sociedade. Ter uma carreira ao custo de abandonar as próprias obrigações e privilégio nesta área é um equívoco. Quando uma mulher judia cria um lar judaico e educa seus filhos em Torá e mitsvot, está sendo merecedora do elogio do Rei Shelomô: “Uma mulher de valor, quem pode encontrar… uma mulher temente a D’us, ela deve ser louvada.”

De volta às raízes – Toda mulher judia é descendente das Matriarcas Sarah, Rivca, Rachel e Leah. Cabe a cada mulher judia relembrar suas raízes.

Na verdade, ao refletir sobre as funções vitais das raízes no mundo vegetal, pode-se deduzir, através de uma analogia, uma lição para a mulher judia contemporânea.

As raízes são a fonte de vitalidade da planta desde seu nascimento, quando a semente se enraíza e depois, levando-a a crescer e nutrindo-a constantemente durante a vida com os elementos vitais da água e os minerais do solo.

Embora as raízes também trabalhem para sua própria existência, crescimento, desenvolvimento e força, sua função principal é nutrir a planta e assegurar seu crescimento, bem como seus poderes de produzir frutos, e frutos dos frutos. Ao mesmo tempo, as raízes fornecem uma base firme e ancoram a planta para que ela não seja levada pelo vento ou outros elementos da natureza.

É nesse sentido, destas funções básicas das raízes físicas, que devemos entender nossas raízes espirituais. As “raízes fundamentais” do nosso povo judeu são nossos Patriarcas Avraham, Yitschac e Yaacov como declaram nossos sábios: “Somente eles são chamados Avot (Pais)”. No lado materno nossas raízes são nossas Mães, Sarah, Rivca, Raquel e Leah. Cada um desses fundadores e construtores da Casa de Israel contribuiu com uma qualidade distinta que, mesclada às outras, produziu o caráter singular do povo judeu.

Típico – e original – (no sentido de parentesco) – é o Patriarca Avraham, sobre quem está escrito: “Único foi Avraham”, pois ele foi o único em sua geração a reconhecer a unidade de D’us e, com completo auto-sacrifício, proclamou a unidade de D’us (puro monoteísmo) a um mundo mergulhado no politeísmo e na idolatria.

Sua descendência, o povo judeu, ainda é único na continuação de sua obra – uma pequena minoria num mundo que tem muitos deuses. É dele que herdamos e extraímos força, do atributo de Mesirat Nefesh (auto-sacrifício), bem como a suprema obrigação de transmitir nosso legado aos nossos filhos; pois foi por seu grande mérito que, através de sua devoção e dedicação total a D’us, “ele legou aos seus filhos e descendentes para guardarem os caminhos de D’us.”

Referindo-se aos nossos Patriarcas como “raízes”, nossos Sábios indicam um aspecto ainda mais essencial das raízes que vai além do papel dos pais. Para assegurar, os pais têm filhos e transmitem a eles algumas de suas próprias qualidades físicas, mentais e espirituais. No entanto, a sobrevivência dos filhos não depente diretamente dos pais, pois podem afastar-se dos pais e do lar, e continuarem a prosperar depois que os pais se forem.

O mesmo não se aplica a uma planta e suas raízes. As raízes são indispensáveis para a existência da planta e sua influência vivificadora deve fluir continuamente para manter a planta viva e crescendo. Da mesma maneira, nossos Pais e Mães devem sempre vitalizar e animar nossas próprias vidas.

Todo judeu e judia deveria entender que faz parte do grande “sistema de raízes” que começou com nossos Patriarcas e Matriarcas e continuou a florescer através dos tempos, nutrindo e sustentando nosso povo, que D’us chama de “um ramo da Minha planta, a obra de Minhas mãos, para ter orgulho deles.”

Porém, infelizmente, existem alguns judeus que, por um motivo ou outro, não são conscientes de suas raízes, que ficaram tão atrofiadas a ponto de correrem perigo de secar (D’us não permita). Portanto, cabe às plantas e raízes sadias trabalhar para reviver e fortalecer as outras, a ajudá-las a redescobrir sua identidade e seu lugar no sistema de raízes.

Nesta obra que salva vidas, o papel da mulher judia é de suprema importância, pois ela é a Akeret Habayit, o alicerce do lar, que em grande parte determina o caráter e a atmosfera da família, e o futuro dos filhos em particular.

Tendo isso em vista, não pode haver maior realização para uma menina judia do que preparar-se para seu papel vital de construir a Casa de Israel como uma digna descendente das Matriarcas. É um processo duplo: buscar ativamente o próprio crescimento e ao mesmo tempo trabalhar pela preservação e crescimento do nosso povo, espalhando e fortalecendo Yiddishkeit na comunidade judaica em geral, especialmente em áreas nas quais mães e filhas judias mais podem contribuir como cashrut, Taharat Hamishpachá, acendimento das velas, chinuch (educação judaica), etc.

Ainda seguindo com a analogia das raízes, temos mais um ponto importante: não se procura a cor mais brilhante ou a beleza externa nas raízes, nem estas estão preocupadas com aquilo que se fala a respeito da sua aparência. As raízes fazem humildemente seu trabalho, na verdade, ocultas durante a maior parte do tempo. Assim é o trabalho das verdadeiras mães e filhas judias.

Num mundo onde a última moda é importante, e onde a esperteza muitas vezes tem precedência sobre valores e princípios eternos, nossas valorosas mães e filhas não estão preocupadas com aquilo que alguns vizinhos ou transeuntes possam dizer sobre sua maneira de se comportar e sobre seus lares de acordo com a lei da nossa sagrada Torá.

Se elas parecem “antiquadas” para o observador com idéias “modernas” de “nova moralidade”, nós judeus nos orgulhamos de nossas raízes “antiquadas” – porém sempre novas e eternas; nós nos esforçamos para nos tornar cada vez mais enraizados e fiéis às primeiras raízes do nosso povo, que D’us designou como “um reino de sacerdotes e uma nação sagrada”.

Faríamos bem em relembrar o dito chassídico: “A verdadeira riqueza judaica não é o dinheiro nem a propriedade. A riqueza judaica eterna está em judeus que guardam a Torá e mitsvot, e trazem ao mundo filhos e netos que seguirão o caminho de Torá e mitsvot.”

Os Bebês Perdidos – Mais de 90% das gravidezes diagnosticadas terminam em nascimento completo, com corpo e alma. Mas, e os 10% que não o conseguem? O que acontece com a alma nos casos de aborto espontâneo, crianças natimortas ou bebês que morrem?

Quando alguém passa por este tormento, fica a pergunta: Por que a vida física começou para terminar tão cedo? Quando a tragédia ocorre, faz-se o que precisa ser feito – e, em alguns casos, isto significa enterrar os mortos – e a vida segue em frente. Mas as perguntas relativas à vida, ao amor e à perda permanecem por muito tempo.

Os cientistas podem explicar como funciona a gravidade, como as células crescem ou como nasce um bebê, mas não podem dizer por que ocorrem. Porém, no que tange à tragédia humana, sentimos que temos o direito de exigir explicações. Achamos que se pudéssemos compreender por que algo acontece, seríamos melhor confortados. Porém, num caso como este, compreender o porquê está além da razão humana.

Isto pede um pouco de humildade para aceitar que seres humanos são incapazes de compreender tudo. Nas preces antes de dormir proclamamos: “Tu [D’us] conheces os segredos do mundo.” O Alter Rebe, autor do Tanya, explicou que, embora algumas pessoas conheçam os segredos da Torá, ninguém sabe por que há sofrimento no mundo – além do Próprio D’us.

Mesmo reconhecendo o fato de que não podemos saber as razões, a dúvida ainda permanece. Até Moshê (Moisés) perguntou “Por quê?” Em certa ocasião, D’us concedeu a Moshê uma visão profética, na qual viu todas as gerações futuras, inclusive o justo Rabi Akiva sendo torturado pelos romanos. Moshê perguntou: “Isto é justo? É correto? É recompensa por sua retidão?” D’us replicou: “Não faça perguntas. Esta é Minha vontade e assim tem que acontecer. Por maior que sejas, Moshê, ainda és um ser humano e não podes compreender; portanto pare de perguntar o porquê” (Talmud, Menachot 29b).

Embora não possamos compreender por que há sofrimento, podemos entender o que realmente acontece a uma alma que parte deste mundo. O ser humano é composto de duas partes: um corpo finito e uma neshamá, alma infinita. O corpo pode ser visto e, embora a alma não seja visível, seu efeito pode ser observado. A alma dá vida e energia ao corpo e é a força vital que o mantém funcionando.

Em termos cabalísticos, o corpo é a vestimenta da alma, e esta é a essência da pessoa. Maimônides explica que cada objeto físico é composto de muitos elementos que, finalmente se decompõem, assim como a matéria passa a ser energia. No entanto, a alma é espiritual e não pode se decompor. A vida pode ser entendida a partir da perspectiva do corpo, limitado no tempo e no espaço; ou pela visão ilimitada da alma, adquirindo um novo significado.

As almas descem para a Terra para desempenhar uma missão específica – elevar o mundo físico e torná-lo um lugar onde D’us possa habitar. A descida da alma ao mundo físico é como uma viagem. Do ponto de vista da alma, a vida na Terra não passa de uma parada de abastecimento na longa jornada.

Quando a alma entra no corpo, tem uma missão a cumprir. Muitas vezes, não a completa da primeira vez e deve retornar para concluir a tarefa. Isto se chama guilgul (reencarnação). Segundo as fontes místicas, quase todas as almas já estiveram aqui antes e precisam retornar para cumprir sua missão. Às vezes demora uma vida inteira para completá-la e, às vezes, apenas um dia.

Nós, simples seres humanos, não podemos saber com precisão qual é o propósito principal da missão de uma alma. A Torá delineia diretrizes gerais, instruindo-nos a cumprir mitsvot, mas não sabemos quais destas são a finalidade primeira pela qual nossa alma desceu ao mundo físico. Às vezes, ela vem a este mundo e não se expressa completamente. Neste caso, uma gravidez pode resultar apenas na má formação de um feto ou num natimorto.

Qual era a finalidade? O fato de uma alma ter entrado num receptáculo físico significa que uma intensa forma de santidade foi atraída para este mundo, em geral, e para uma grávida, em particular. O Talmud explica que “um anjo ensina a Torá completa a toda criança ainda no ventre materno; e uma luz oculta brilha sobre sua cabeça neste instante, permitindo-lhe ver de um lado a outro do mundo”.

Mesmo se esta alma deixa o mundo, a essência de sua santidade permanece neste espaço físico, especialmente dentro da mãe, para o resto de sua vida. O que acontece a seguir, depende do quanto desta santidade é revelada. Assim como o desenvolvimento físico de uma pessoa – que começa na concepção e continua durante a fase de embrião, feto e, finalmente, vida humana – a alma também passa por um processo de desenvolvimento semelhante.

Quando a vida começa para a alma? Um pouco de alma penetra no óvulo no momento da concepção. Depois, desenvolve-se junto com a progressão física. Por exemplo, a Torá afirma que níveis significativos da alma são revelados num berit milá (circuncisão), no início de sua educação judaica, e no momento de bat/bar mitsvá. A alma está numa jornada, com um passado e um futuro.

Podemos ver apenas um dia por vez, talvez dez anos, ou até mesmo uma vida por vez. Mas somos incapacitados de ver a cena completa que narra toda a história, a partir da incorporação inicial da alma até a realização final de sua missão.

Às vezes, a alma é tão santa e brilhante que não pode existir no plano físico por muito tempo. Porém, por razões que apenas D’us conhece, tais almas devem entrar “em contato” com este mundo terreno. De fato, nossos sábios sustentam que a Redenção suprema ocorrerá apenas depois de todas as almas terem descido para o mundo físico.

Esta breve visão do que acontece com a alma de um bebê não responde por que sua família deva passar por dor e sofrimento. D’us poderia ter criado uma situação com o mesmo resultado sem todo este pesar. Mas uma vez que Ele não o fez, deve-se aceitar Sua vontade. Se nos concentrarmos na cena completa, o sofrimento será analisado, e os enlutados voltarão a atenção para auxiliar a alma que parte em sua jornada.

Os costumes judaicos com relação à morte de um ente querido envolvem a elevação de sua alma para um nível mais alto. Estes costumes incluem recitar o Cadish (Prece de Louvou a D’us), estudo de mishnayot específicas, Yizcor em Yom Kipur, Pêssach, Shavuot e Sucot, observar o yahrzeit (data de falecimento no calendário judaico), cumprir mitsvot (preceitos judaicos) bem como fazer doações, especificamente em mérito da alma.

O costume de recitar o Cadish deriva da seguinte história talmúdica. Certa vez, Rabi Akiva viu um homem esquisito, negro como carvão. Carregava peso suficiente para dez homens e corria tão ligeiro quanto um cavalo. Rabi Akiva ordenou que parasse e lhe perguntou:

“Por que você faz um trabalho tão pesado?” A aparição respondeu: “Não me detenha, senão meus supervisores ficarão bravos comigo.” Rabi Akiva perguntou: “Quem é você? “Sou um morto” – replicou. “Todos os dias sou punido, cortando lenha para uma fogueira na qual sou queimado.” “O que você fez na vida, meu filho” – perguntou Rabi Akiva. “Era um coletor de impostos, complacente com os ricos e rigoroso com os pobres.” Rabi Akiva persistiu. “Já tentou saber se há algum modo de salvar-se?” “Soube que se eu tivesse deixado um filho que ficasse diante da congregação e bradasse, “Barechu et A-do-nai hamevorach” (“Bendizei ao Eterno, que é bendito…) e “Baruch A-do-nai hamevorach leolam vaed” (“Bendito seja o Eterno que é bendito para todo o sempre”), seria liberado de minha punição. Quando morri, minha esposa estava grávida; mesmo se tivesse nascido um filho, não haveria alguém para ensiná-lo.”

Rabi Akiva foi até a cidade natal do homem e perguntou sobre o desprezado coletor de impostos. Descobriu que o homem realmente tinha um filho, que nem mesmo tinha sido circuncidado. Rabi Akiva o encontrou, providenciou a circuncisão e, pessoalmente, ensinou-lhe Torá até ser capaz de liderar a congregação. No instante em que o garoto louvou o nome Divino, a alma torturada do pai foi libertada de sua punição.

Esta história ilustra o fato de que D’us nunca “fecha o livro” de uma alma desde que as “ondas da vida” ainda estejam em movimento. Portanto, agir em prol de um falecido é um modo de os vivos oferecerem, à alma que partiu, não apenas um prazer, mas um avanço nos Céus.

Nos Treze Princípios de Fé de Maimônides, o décimo segundo é a crença na vinda de Mashiach, nosso justo redentor. O décimo terceiro é acreditar na Ressurreição dos Mortos quando todas as almas encontrarão expressão física neste mundo. A Torá afirma que não haverá mais morte e D’us exporá o bem que é inerente à dor e sofrimento. É difícil para nós hoje limitados a acreditar, mas passaremos a compreender, e talvez até mesmo apreciar, o propósito do sofrimento.

VIII. Adam Solitário Por Rav Aron Moss

Pergunta: Meu marido simplesmente parece não entender. A noite passada ele chegou em casa uma hora atrasado, sem ao menos ligar para dizer que não chegaria na hora. Esta é a quinta vez que ele faz isso, e estamos casados há apenas três meses! Pode parecer bobagem, mas isso me incomoda muito. Não quero que ele me veja como uma mulher criadora de casos, o que devo fazer?

Resposta: Pode parecer desapontador, mas seu marido está agindo como um sujeito bastante normal. E você parece bastante normal também. É por isso que está tendo este problema.

Existe uma coisa que você precisa saber sobre os homens. Eles são solitários. Estar num relacionamento não é natural para eles. Não pensam automaticamente sobre como suas ações afetam outra pessoa. O estado de negligência emocional de um homem é solidão.

Isso não se aplica às mulheres. A mulher tem um senso inato de relacionamento, de conexão com outros. Uma mulher naturalmente compartilha ela mesma e cria um vínculo com os outros. Um homem não. Ela é um ser de relacionamento, ele é um ser solitário.

Obviamente, é uma grande generalização dizer que todos os homens são solitários e todas as mulheres são conectoras, e as generalizações nunca são acuradas. Mas dizer que as generalizações nunca são acuradas é por si mesma uma generalização, e portanto também não é acurada. Então vamos generalizar: embora obviamente existam muitas exceções, falando de maneira geral, o estado natural do homem é ser solteiro, e o estado natural da mulher é estar num casal.

Há uma base sólida para essa teoria. Remonta até o início dos tempos, ao primeiro homem e à primeira mulher, Adam e Eva. Adam foi criado sozinho. Seu estado original era de um solteiro. Porém Eva foi criada a partir de Adam. Ela nunca foi solteira. Eva, pela própria natureza, era um ser de relacionamento, porque foi criada com seu parceiro perto dela.

Tinha um senso inato de interconexão; sabia intuitivamente que não estamos sozinhos neste mundo, que nossa ações causam impacto nos outros, e que podemos e devemos ser sensíveis àqueles que nos rodeiam. Isso era inato à psique de Eva, pois ela nunca esteve sozinha. Mas tudo isso era novo para Adam. Ele teve de aprender o que um relacionamento significa e como estar consciente do outro, pois em seu âmago ele era um ser sozinho.

Adam é o homem essencial, e Eva a mulher essencial. E assim é até hoje, as mulheres são seres de relacionamento, e os homens são seres sozinhos. Nem todas as mulheres são boas nos relacionamentos, e nem todos os homens são ermitões sem esperança. Porém, as mulheres são mais propensas a saber como se ligar a outros, e os homens são mais inclinados a manter as próprias emoções dentro de si mesmos.

Portanto seu marido não tem ideia de que você se aborrece quando ele chega tarde em casa. Ele pode estar pensando: “Por que ela não pode se ocupar até que eu chegue?

Ela é tão insegura que não pode cuidar de si mesma por uma hora extra ou pouco mais?”

O que ele não entende ainda é que embora ele seja um solitário, você é uma conectora. Você não precisa que ele esteja fisicamente com você o tempo todo, mas emocionalmente, ele deve estar com você o tempo todo. Se ele ao menos ligasse para dizer que está atrasado, você não se sentiria sozinha, porque ele demonstrou que se importa, que está ligado a você.

A missão de Eva foi ajudar Adam a sair de seu isolamento e aprender como se conectar. Você também precisa fazer isso. Explique ao seu marido que não é o atraso dele que a incomoda; é que ele não teve suficiente consideração para comunicar o atraso a você. Ajude-o a entender que ele não está mais sozinho, e mostre como o mundo é belo quando compartilhado com alguém. Dê tempo a ele.

Você não pode curar a solidão existencial da noite para o dia. Mas se perseverar, com gentileza e amor, ele abrirá aquele local solitário dentro dele e a deixará entrar. Então vocês poderão partilhar a vida em seu próprio Jardim do Éden, e jamais serão solitários outra vez.

  1. A Malabarista Por Elana Mizrahi

Em meio àquele que parecia ser um dia muito longo, olhei na minha geladeira e vi que não tinha opção – tinha de ir ao supermercado. Empilhei meus dois filhos no carrinho de bebê e fomos até o mercado naquele dia de calor escaldante. Chegamos e começamos as nossas compras. Enquanto meu filho pedia uma ou outra guloseima, eu tentava me concentrar na tarefa que tinha de cumprir.

Minha filha de um ano e meio tinha conseguido escapar do carrinho de compras enquanto eu examinava os tomates. Eu a vi e tentei chamá-la enquanto ela agarrava pacotes de cereais. Segurava um pacote de cuscus e ele rasgou. “Oh, não!” pensei, enquanto via o cuscus (em outras palavras, meu dinheiro) escorrendo para o chão. Naquele instante meu celular tocou. Atendi, tentando ser agradável, mas enquanto minha filha se contorcia tentando se livrar dos meus braços e meu filho continuava falando sobre aquilo que ele queria, tive dificuldade para me controlar e não gritar: “não posso falar agora; telefono depois.” De que maneira eu consigo fazer isto?” pensei comigo mesma.

Eu me senti como um malabarista, aqueles dos quais eu me lembrava de ter visto na minha juventude: de pé num monociclo, os pés pedalando rapidamente enquanto atiravam três, quatro ou cinco bastões com fogo para cima. Apanhavam um bastão com a mão direita, depois outro com a esquerda, então dois, e finalmente apanhavam um com a boca inclinada para cima. Sim, eu me sentia como um malabarista enquanto balançava uma criança e segurava a outra, enquanto trabalhava e cuidava da nossa casa.

E quer saber a parte mais irônica disso tudo? Toda dia eu rezo para que D’us me abençoe com mais filhos. Não, não sou louca. Talvez você me pergunte (e com certeza eu pergunto a mim mesma): “Onde você vai carregar um terceiro filho, na cabeça?” Bem, se eu precisar, vou.

Veja, tudo começou há muitos anos quando me casei e um ciclo menstrual que não ocorreu não obteve uma confirmação de gravidez no teste. Mês após mês, ano após ano, os testes continuavam negativos. Quase quatro anos de “não” e então, de repente, um “sim”. Você pode imaginar, um sim? Fiz três testes apenas para confirmar, porque não podia acreditar. Durante a náusea, o vômito, as pernas inchadas, tudo que eu conseguia pensar era naqueles testes negativos e na maldição transformada numa linda bênção confirmada a cada sintoma.

Os desafios da maternidade nada são comparados aos desafios da gravidez e do parto. Porém a vasilha quebrada no chão é apenas isso, uma vasilha quebrada – e o leite derramado é facilmente enxugado. As mulheres que me veem perguntam como tenho tanto paciência. Outras perguntam se já tenho dois, para que ter mais? A paciência vem com a perspectiva; quando você espera e anseia por algo, sua apreciação da chegada é maior.

E por que ter mais? Cada filho traz sua própria bênção. Agora eu não consigo imaginar minha vida sem o segundo filho, assim como não poderia imaginar minha vida sem o primeiro.

Há algo de incrível que percebi quando me tornei mãe. Na verdade começou antes mesmo que meu primeiro nascesse, quando ele chutava e dançava na minha barriga e eu não era mais a dona do meu próprio corpo. Há uma bênção matinal que diz: “D’us, dá força para os fatigados.” Os fatigados, os cansados, os exaustos: isso, na minha opinião, sem dúvida é uma mãe.

Ele fornece energia para os cansados, ou seja, eu. Aquela que tem sono pesado acorda ao menor gemido, aquela que não consegue funcionar sem oito horas de sono está amamentando e preparando lanches e ajudando com o trabalho de quatro.

O mais incrível que descobri é que D’us dá algo a você. Ele não dá apenas a você, mas dá a você tudo de que precisa para cuidar de tudo. Os Sábios dizem que ninguém recebe um teste pelo qual não possa passar – seja um teste que consiste em não ter aquilo que deseja, ou um teste que consiste em ter o que parece mais do que podemos suportar.Toda pessoa tem uma missão especial a cumprir.

A palavra em hebraico para bebê é tinok, que tem as mesmas letras e está relacionado com a palavra ticun, correção. Toda pessoa que vem ao mundo tem sua missão especial para cumprir na vida, e todo bebê traz um ticun, uma correção, para o mundo e especificamente para os pais.

O filho que é inteligente ou bonito nos ajuda a trabalhar em nossos traços de orgulho ou arrogância; o filho que é lento ou repetitivo nos ajuda a trabalhar a paciência. Este filho vem para ensinar a você como amar, aquele como dar. Este o ensina a ceder, e aquele o ensina a jamais desistir.

Quando jovens noivas me procuram em busca de conselhos, frequentemente me perguntam sobre adiar o nascimento dos filhos. Eu admito para elas: não sou objetiva. Aqueles quatro anos ansiando por filhos, ansiando quando eu não podia tê-los, me mudaram.

Afetaram-me tanto que depois de nove anos de casamento e dois filhos ainda não consigo me livrar da ansiedade de não ser capaz de conceber e levar uma gravidez a termo. Mesmo que eu tenha mais filhos, não sei se o sofrimento vai desaparecer. Porém eu tento me colocar no lugar delas e lembro-me como eu me sentia quando estava noiva e como era assustadora a ideia de me tornar mãe. Digo a elas com um coração repleto de empatia e sinceridade: quando se trata de bênção – cada filho não apenas é uma bênção, mas traz bênção e plenitude.

Coordenador: Saul S. Gefter

 

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