Sinagoga Hebraica Portuguesa Shaarei Shalom

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Sinagoga Hebraica Portuguesa Sha’are Shalom do Rio de Janeiro

A HISTÓRIA DA NOSSA KEHILAH
INTRODUÇÃO

 

A história de nossa comunidade se confunde com a história do Brasil, ao falarmos de seu surgimento, desafios e permanência. Muito se fala sobre a vida judaica do Brasil, mas pouco se fala sobre o seu fundamento, como ela começou e os detalhes que a trouxeram até este país, antes mesmo de ser considerado um, já que o seu status inicial era o de colônia. Há um costume errôneo e comum de ambientar a existência judaica nestas terras no âmbito do desfecho da Primeira e Segunda Guerra mundial, ignorando seu passado mais antigo e glorioso.

Então é preciso de fato visitar fatos históricos anteriores e assim estabelecer a conexão entre o ontem e o hoje, sabendo que tudo o que está sendo relatado é baseado em fontes tanto nacionais, quanto internacionais. E sabendo que o tema é amplo, não podemos ignorar aquela que foi a mais poderosa instituição presente tanto em Portugal, quanto na Espanha e que tanto horror trouxe a nossos antepassados, sobretudo porque sua atuação não conhecia limites e ela se chamava Inquisição.

Mas antes que esse horror se espalhasse pela Península Ibérica e suas áreas precisamos entender o contexto do judaísmo no mundo. A galut (diáspora) forçada pela destruição do Templo de Jerusalém, em 70 da Era Comum espalhou comunidades por diversos países, fazendo com que os judeus precisassem se adaptar da mesma forma que fizeram nos tempos anteriores, de Nabucodosor e Ciro, muitas vezes habitando locais em que seu modo de vida não era respeitado.

Sob a Torah, seus rabinos e sinagogas formaram-se numa unidade que propiciou aos judeus a sobrevivência, mesmo diante de condições adversas que volta e meia surgiam. O conceito de Kehilah tão, importante se consolidou através da Halakha compreendida por todos, no ensino das crianças desde muito cedo e também nas Leis de Pureza Familiar que as mulheres observavam. Essa força os manteve unidos, do Oriente ao Ocidente, mesmo diante de governos desfavoráveis.

EUROPA

 

A chegada à Península Ibérica não pode ser precisada com exatidão, alguns afirmam que desde a época de Shlomo HaMelech, já haviam rotas de comércio entre Israel e a Ibéria. No Tanach, mais precisamente no profeta Ovadiah, é relatado o que acontecerá com os judeus de Sefarad (Espanha e Portugal), quando houver a futura reunião dos dispersos em Israel (E que seja em nossos dias!). A lápide judaica mais antiga encontrada em Portugal, data do século 482 D.E.C, num sítio arqueológico próximo à Silves.

É fato que tanto Portugal, quanto Espanha foram territórios férteis para a nossa comunidade. No norte, havia os cristãos e no sul, os muçulmanos e em ambos os territórios habitavam judeus, que muitas vezes acabaram por ser o ela de ligação entre estes dois inimigos, que se odiavam, precisavam de alguma forma, se comunicar. Os ofícios eram dos mais diversos: artesanato, comércio e até a agricultura. Em Segóvia, muitos tecelães, sapateiros, ourives, ferreiros, oleiros e tintureiros. Em Barcelona, artesãos e em Tudela, muitos médicos.

Porém, sob o jugo da Igreja Católica e diversos monarcas, as atividades principais tanto em Portugal, quanto em Espanha estão vinculados ao dinheiro, tendo no empréstimo, sua atividade principal. Em muitos lugares nestes reinos os judeus alcançam suas ascensão como conselheiros dos nobres, muitos como administradores das finanças reais. Em Castela, Joseph Ibn Zadok é o colhetor de impostos oficial de Afonso X, assim como diversos outros desempenham papéis similares nos demais territórios ibéricos.

Com essa oportunidade nas mãos, muitos destes influentes judeus, utilizam-se de suas posições para abrigar seus semelhantes, que são perseguidos em outras partes do mundo, em especial nos Pirineus. Muitos israelitas expulsos da França em 1306 por Felipe, O Belo, vão encontrar em Portugal e Espanha uma comunidade próspera, que conta com diversas sinagogas e escolas talmúdicas. Um dos grandes protetores da comunidade é Judah Abravanel, tesoureiro de Sancho IV, e logo após de seu sucessor, Fernando IV.

Mas o que era uma maravilha, aos poucos se deteriora, à medida em que os cristãos começam a vencer a sua guerra contra os muçulmanos, fortalecendo à igreja local e forçando a nobreza à obedecer as ordens vindas de Roma. Do fim do século XIII para o início do século XIV, grande esforço é feito pra que cristãos e judeus, que experimentaram certa harmonia, sejam separados. O arcebispo de Toledo lança a falsa acusação de que os israelitas eram traidores à favor dos árabes, levando à pilhagens, destruição de sinagogas e assassinatos.

O século XV se anuncia sombrio, mas algo tinha que ser feito. Segundo consta, desde os tempos de Shelomo Hamelech, os judeus se destacavam como marinheiros, e isso foi se intensificando com o passar dos anos, em rotas que incluíam a própria Espanha e também a Índia, tanto em embarcações persas, gregas, árabes ou em navios próprios. Assim, tornaram-se grandes cartógrafos, uma ciência que era considerada segredo de estado. Nomes como Jacob Ben Machir Ibn Tibbon, Levi ben Gherson e Abraham Zacuto, são notórios nesta arte. Ela se mostrará muito útil aos judeus.

Da mesma forma que aconteceu na França, A morte de João I de Castela em 1390, encerra com a proteção da qual os israelitas gozavam, diversas judiarias são atacadas e destruídas, gerando um total de 50.000 mortos, ou um sexto da comunidade. Muitos dos sobreviventes fogem para terras islâmicas em Granada, além de Fez, Marrakesh, Argel, Túnis, Tripoli e outros lugares, alguns insistentes permanecem como judeus, para outros inicia o flagelo das conversões forçadas e perseguições, surgirá à figura do “Cristão-Novo”.

A INQUISIÇÃO ESPANHOLA

 

Então acontece um grande paradoxo, já que na mesma medida em que forçaram as conversões, ainda paira sobre estes “ex-judeus” uma eterna suspeita de que não abandonaram de fato o judaísmo, o que era verdade. Preocupa a igreja o fato destes conversos ocuparem posições no topo do governo e então passam a vigiar seus passos: com quem se relacionam, hábitos alimentares, se acendem fogo no Sábado e como realizam seus sepultamentos. Em 1 de Novembro de 1478, o Papa Sisto IV exige que os Reis Católicos nomeiem inquisidores em seus reinos para vigiar esses “judaizantes”.

Com isso, uma perseguição sem precedentes se inicia, em inquéritos assustadores, onde pessoas são torturadas, exumam-se corpos e queimam-se em efígie por acusações de prática do judaísmo. Em 1481, Dom Isaac Abravanel chega à Espanha, vindo de Portugal fugindo da ira do rei João II e tenta proteger os judeus locais colocando a sua força financeira à serviço de Isabel e Fernando. Financia a guerra para a retomada de Granada, tornando-se tesoureiro do reino.

Tomás de Torquemada, alçado ao posto de Inquisidor-Geral, por sua proximidade com a rainha Isabel realiza uma verdadeira devassa na Espanha, acreditando que os judeus da região devem ser expulsos ou mortos. Ele tem uma obsessão de que aquelas terras devem ser “purificadas” da presença judaica, instituindo processos, tanto contra conversos quanto àqueles que lhes são próximos. Enquanto isso, Cristóvão Colombo busca financiamento em Portugal para seu projeto de chegar às Índias, não por acaso, vai procurar judeus como Yehudah Crescas e José Diego Mendes Vizinho. Porém, frustrado com a recusa de Lisboa, acaba por seguir para a Espanha.

No ano em que chega ao país, Colombo testemunha a morte de 52 conversos, que são queimados, após terem sido brutalmente torturados, assim como o grande rabino Abraham de Huesca que é queimado vivo, por realizar a mitzvah da Berit Milah naqueles que buscavam Teshuvah. O navegador genovês se encontra com o astrônomo Abraham Zacuto, mas também não tem sucesso com os monarcas, decidindo buscar apoio através de algum mecenas. Finalmente seu projeto é financiado com apoio do também judeu, Luís de Santangel.

Torquemada então dá seu “Coup de Grace”, não tolera mais os judeus na Espanha, querendo impor aos mesmos à fuga ou a conversão. Justamente em 20 de Março de 1492, quando é concluída a conquista de Granada aos muçulmanos, ele formaliza seu pedido de expulsão, ao Conselho Real. Fernando cede à Isabel e não há mais nada que a comunidade judaica local possa fazer, alguns partem sem quase nada levar de seus bens, enquanto outros ficam na esperança de que o Édito de Expulsão seja revogado. Os destinos são os mais diversos: Nápoles, Bordeaux, Londres, Amsterdã, África, Grécia, Turquia e também Portugal. No entanto, em terras lusitanas também encontrarão o mesmo destino que lhes ocorreu na Espanha.

PORTUGAL

 

Quando se abrigam em Portugal, primeiramente são tolerados e têm a seu favor, parentes que ali já viviam e também a língua, já que o idioma português e espanhol são muito parecidos. O rei João II os autoriza a ficar ali em troca de uma taxa de oito cruzados por pessoa, porém, em 1496, seu sucessor, Manuel I, ao casar com a filha dos Reis Católicos ameaça os judeus com a escolha entre fugir ou se converter. Abruptamente, o monarca muda de idéia, proíbe-os de partir e os converte à força, afinal precisa desses judeus para as expedições que levarão Pedro Álvares Cabral, Vasco da Gama e outros ao Novo Mundo.

Muitos desses judeus são mercadores, atuando no comércio de pimenta da Índia para Flandres e há de se observar, que estabeleceram rotas mundiais de comércio graças à “judeus da nação” que estavam em Antuérpia, Amsterdã e outras cidades. Deve-se ressaltar que tanto convertidos forçados, quanto àqueles que tinham evitado este destino cruel, se viam como irmãos e não consideravam os chamados “cristãos-novos” como Goyim. Estes judeus portugueses são tão eficazes no comércio, que o monarca abre mão de importantes casas comerciais, pertencentes a cristãos, sediadas em Lisboa, como Wesller, Fugger, Hahsteller, Marchioni e Carducci.

Infelizmente o ódio e a inveja, vão fazer com que estes judeus paguem um alto preço: no ano de 1506, 2.000 destes judeus convertidos de maneira forçada são assassinados, em 1507 os que sobreviveram começam a fugir, o que é um prenúncio para o terror que será a oficialização da Inquisição em Lisboa, no ano de 1547. Veremos que muitos destes embarcarão para destinos dos mais diversos, entre eles França, Holanda, Turquia, Marrocos, Argélia, Itália, Grécia, Egito e mais à frente, as Américas.

De fato, a descoberta do Brasil terá participação direta dos judeus, em particular de Gaspar da Gama, nascido em 1445 torna-se comerciante e navegador passando por Jerusalém e Alexandria, atuando como pirata no Mar Vermelho é vendido como escravo na Índia, até obter sua liberdade no ano de 1490 e ganha o nome de Yusuf Abdil, trabalhando com o príncipe muçulmano de Goa. Em 1498 conhece o navegador Vasco da Gama e o impressiona com seus conhecimentos de náutica, também informa a ele que é judeu, sendo posteriormente batizado Gaspar da Gama e torna-se piloto da frota portuguesa. Em 1500, ele acompanhará Pedro Álvares Cabral em sua viagem à América do Sul e descobrirá junto com o mesmo o Brasil.

A DESCOBERTA DO BRASIL

 

É notório o incrível número desses “judeus secretos” que tomará parte no desenvolvimento desta nova colônia portuguesa: um deles é Fernando de Noronha, que recebe da monarquia de Portugal a concessão da região, e que recebe como voluntários muitos condenados pelo direito lusitano, a maioria deles com questões religiosas e obviamente, judeus. Eram médicos, advogados, mercadores e coletores e de impostos, que desenvolvem a região, primeiro na exploração da madeira e, depois com a indústria açucareira que entregará para a Europa, 1.600 toneladas de açúcar por ano.

Após diversas tentativas entre 1531 e 1544, a Inquisição finalmente se instala em Portugal no ano de 1547, ameaçando diversos destes judeus, que buscam no Brasil por paz e sobrevivência. A Bahia se torna o primeiro porto seguro, e muitos desses israelitas se destacavam na medicina e ciências, como “Mendes dos Remédios” e “Castro Boticário” e Jorge Fernandes este último, com uma história muito curiosa. Conta-se que foi denunciado pelo clérigo Fernão Ribeiro de Souza, por ter pedido antes de morrer que fosse lavado e enterrado ao modo judaico.

Ele não seria o primeiro nem o último dos judeus a enfrentar tais desventuras. Em 1580, com a união entre Portugal e Espanha, a Inquisição desembarca no Brasil, atrás das muitas denúncias que surgiram à cerca de imigrantes que judaizavam abertamente. Na Bahia eles tinham uma Esnoga, casavam entre si e realizavam os rituais de luto, de acordo com a Torah. Esta capitania foi estabelecida pelo também judeu Men de Sá, junto com sua mulher Anna Rodrigues, a mesma que já idosa seria presa, enviada para Lisboa e lá queimada viva.

Na mesma capitania André Lopes Ulhoa, era mais um desses judeus secretos abastados, que ao perder sua tia, lhe prestou o luto à nossa maneira, tomando suas refeições e recebendo as visitas sentado no chão. Por isso foi denunciado e entregue ao Santo Ofício, enviado a Lisboa, sofreu tormentos e um Auto de Fé, o mesmo se repetiria com inúmeros outros que fizeram morada no nordeste brasileiro. Mas ainda assim, cada vez mais desses judeus aportavam no Brasil, devido à forte perseguição que se alastrava por Portugal, valia mais a pena a tentativa de prosperar no Novo Mundo do que arriscar a permanência na Europa.

Entre eles se destaca João Nunes, que era mercador de grande fortuna em Olinda, Pernambuco, a ponto de emprestar dinheiro e possuir engenhos. Era respeitado e conhecido entre a “Gente da Nação” como Rabino, sendo consultado em todos os assuntos referentes à Lei Judaica. Outros dessa sociedade são Diogo Fernandes e sua esposa, Branca Dias, da qual muitos dos judeus de nossa Kehilah descendem. Trabalhando no engenho de um aparentado de sua esposa, Bento Dias de Santiago, constituíram Esnoga, onde celebravam o Yom Kippur e demais rituais do calendário hebraico. Estas atividades acabariam chamando atenção do visitador da Inquisição, sediado na Bahia, que rumaria à Pernambuco para fazer novas vítimas.

INVASÃO HOLANDESA

 

Quando começaram os rumores de que os holandeses invadiriam o Recife, esses “judeus escondidos” alimentaram muita expectativa, já que sabiam que se este intento se realizasse, gozariam de liberdade religiosa, da mesma forma que os outros judeus portugueses experimentavam na Holanda. A invasão à Bahia em 1624, já tinha contado com a colaboração de muitos judeus que ali habitavam, e apesar de terem permanecido somente por um ano, e logo expulsos pelos portugueses, essa experiência foi valiosa para a conquista de Pernambuco, que de fato veio a ocorrer em 1630.

São bem recebidos pelo governador Maurício de Nassau, que vai lhes permitir liberdade religiosa, e atuação em diversas áreas profissionais para que ajudem no desenvolvimento do Recife. Muitos vão atuar como mercadores, senhores de engenho, prestamistas, instalando-se como comunidade abertamente, reunindo os outrora “judeus escondidos” e judeus vindos de Amsterdã. Esses provenientes da Holanda, vieram sob a orientação do Rabbi Isaac Aboab da Fonseca e de Moses Raphael Aguillar, que vão formar a esnoga Kahal Zur Israel, que em seu auge contará com 1450 judeus, numa população total de 12000 pessoas.

Com um grande senso de solidariedade esses judeus vão em busca de seus irmãos, que não gozam de liberdade em outras partes do Brasil e enviam missões para resgatá-los e levá-los em segurança para o Recife. Um desses heróis era Isaac de Castro, que tinha chegado ao Novo Mundo em 1641, aos dezesseis anos e recebeu uma responsabilidade muito grande: ir à Bahia para procurar esses “judeus escondidos” e encaminhá-los à Pernambuco. Muitas dessas travessias são bem-sucedidas. Apesar de muito inteligente e dedicado à causa, sabia dos riscos dela, em 1644 é descoberto e lhe dão duas escolhas: o judaísmo ou a morte. Em 1647, aos 22 anos é morto na fogueira recitando “Shemá Israel”.

No Brasil holandês, a comunidade judaica floresce e não demora a receber os judeus portugueses que no passado haviam fugido para Turquia, Marrocos, Argélia, entre outros. Há muitos refinadores de açúcar e corretores que adquirem grandes canaviais por toda Pernambuco, e passam a comerciar através dos navios da Companhia das Índias Ocidentais. Em 1648, a importância dos comerciantes judeus é tão grande, que o novo governador do Recife Adriaen Lems, comenta que durante as festividades judaicas o comércio praticamente para.

Infelizmente para os nossos, aquele paraíso durou pouco. Em 1654, depois de 24 anos, os Portugueses recuperam o Recife, forçando os judeus a fugir ou permanecer no Brasil sob incerteza. Nesta altura já há mais de 2.000 judeus ali, então o Conselho Supremo do Recife tenta um último acordo com os conquistadores, através de seu general, Francisco Barreto, pedindo para que ele permitisse aos judeus ficar no Brasil somente até liquidar seus negócios, mas este indeferiu dizendo que ao final do prazo de três meses concedido aos holandeses para deixar o país não poderia impedir a Inquisição de capturar os judeus de origem portuguesa.

Ao todo 15 embarcações partiram para Caiena, Suriname, Curaçao, Jamaica, Barbados, Panamá, Costa Rica, Antilhas Holandesas e Holanda. Alguns infelizmente não chegaram ao destino, como um desses navios que acabou interceptado por piratas espanhóis, eles seriam vendidos como escravos, se não fossem salvos por uma embarcação francesa o Saint Charles, cujo capitão Jacques La Motthe estava a caminho de uma 0pequena colônia holandesa chamada Nova Amsterdã. Treze anos mais tarde, esta colônia será trocada com os ingleses pelo Suriname e será chamada Nova York, nela nossos irmãos construíram a esnoga Shearit Israel.

 

NOVAMENTE SOB DOMÍNIO PORTUGUÊS

 

Nem todos os nossos conseguiram fugir do Brasil, e acabaram por utilizar as opções que tinham, muitos rumaram nordeste adentro, tentando se passar por Goyim, enquanto que outros buscaram refúgio na próspera região Sudeste, em especial no Rio de Janeiro. E é para lá que as atenções da Inquisição irão se voltar, já que cada bispo no país tinha autorização para acusar, prender e processar qualquer pessoa que fosse acusada de praticar judaísmo. E infelizmente, muitos parentes de membros de nossa esnoga pereceram nos acontecimentos que vão se seguir.

Aqui podemos falar de José Gomes da Silva, exímio mercador, antepassado de Yosef Gomes, membro de nossa Kehilah, nos dias atuais. Em 1694, casa sua filha Catarina Henriques, com Manuel de Paredes da Silva, neste casamento no hoje conhecido bairro do Irajá (Rio de Janeiro) foram convidadas muitas pessoas, todos judeus de origem portuguesa. Infelizmente lá havia Catherina Soares Brandoa, convidada não se sabe como percebeu no rito matrimonial prática de judaísmo e ao chegar em Portugal, denunciou à Inquisição um total de 79 dos convidados, que viriam a ser caçados pelo Santo Ofício.

Em 1707, Teresa Barrera de 20 anos, natural de Olinda é condenada e deste ano citado até 1711, mais de 160 pessoas de famílias inteiras são presas, incluindo crianças. Um golpe ainda mais duro era a separação, já que as execuções eram realizadas em Lisboa, o que fazia com que os acusados fossem enviados para lá, onde transcorria a aplicação das penas, enquanto que seus parentes que não tinham condições de viajar ficavam no Brasil, agonizando, à espera de notícias dos entes queridos.

ANTÔNIO JOSÉ DA SILVA, O JUDEU E SÃO JOÃO DE MERITI

 

A localidade onde fica localizada a esnoga Shaare Shalom tem história e a mesma está conectada à antiga judiaria que lá existia, no bairro da Covanca, hoje atual distrito de São João de Meriti, no estado do Rio de Janeiro. Lá nasceu em 1705, Antônio José da Silva Coutinho, que mais tarde devido ao seu judaísmo e obra artística, seria apelidado de “O Judeu”. Muitos dos que hoje fazem parte de nossa comunidade são de sua parentela, inclusive o grande genealogista, David Perez.

Era filho do grande advogado e poeta João Mendes da Silva, e a família teve que se mudar repentinamente de São João de Meriti para Portugal, quando sua mãe Lourença Coutinho foi acusada de judaísmo e deportada pela Inquisição com destino à Lisboa. Em Portugal vai se dedicar à faculdade de Direito e a escrever sátiras e vai acabar preso junto com a sua mãe e a esposa, acusados de judaísmo. Ao admitir ser judeu, e passar pelo Auto de Fé, acabou libertado.

Chegou a exercer advocacia por três anos, porém o seu verdadeiro amor era pela arte, ao qual se dedicou a escrever sátiras, em especial retratando a sociedade portuguesa da época, o que lhe rendeu muito sucesso e o título de maior dramaturgo de sua época. Muitas de suas peças eram musicadas, chegando mesmo a ser consideradas como óperas, isso também lhe rendeu o mérito de ser precursor da “Modinha”, um estilo musical muito apreciado no país luso. Infelizmente, em 1737 acaba sendo preso de novo, mais uma vez acusado de ser judeu, sendo morto pela inquisição, em 1739.

Enquanto isso, no Brasil vai acontecer uma verdadeira caça a qualquer coisa que se assimile a prática do judaísmo, nossos parentes então optam por se ocultar em distritos ao redor do Rio de Janeiro e partir para o Nordeste. Os destinos ao norte são os mais diversos, Pernambuco, Paraíba, Sergipe, Bahia, Ceará e os demais estados onde estabelecem suas judiarias, casando dentro da própria família e transmitindo a tradição silenciosamente, aguardando o momento em que a Inquisição irá deixá-los em paz.

SOCIEDADE ISRAELITA DO RITO PORTUGUEZ

 

O Tribunal da Inquisição é extinto em 1821, mas não sem deixar um rastro de destruição para nossos antepassados no Brasil, de forma eu muitos judeus viviam escondidos ou amedrontados, mas de alguma forma buscavam se reagrupar no Rio de Janeiro para restabelecer a Kehilah de forma organizada, como houvera em anos anteriores. Em 1824 é documentada na cidade a presença de judeus de origem portuguesa, de nossa comunidade, como Salomão Pinto, Izaque Pinto, Joseph Hassan e José Abraham, este último tendo morado na Rua da Quitanda 111.

Neste mesmo ano, em que o Brasil era uma monarquia, também é publicada a Constituição Política do Império, que em seu artigo. 5, declara: “A Religião Chatholica Apostólica Romana continuará a ser a Religião do Império. Todas as outras Religiões serão permitidas com seu culto doméstico, ou particular em casas para isso destinadas, sem forma alguma exterior de templo.” Isso impedia que houvessem sinagogas de forma aberta no Brasil e fez com que os judeus portugueses tivessem que agir de forma discreta.

Mesmo assim, em 1839, o judeu inglês de origem portuguesa Isey Levy, endereça uma carta ao Rav Solomon Herschell de Londres, perguntando se o rabino poderia oficiar o casamento de sua irmã Frances Levy. Rav Solomon envia instruções de como proceder e lhe recomenda judeus que conhece no Rio de Janeiro, que são observantes. Embora a comunidade estivesse se organizando, foi possível conseguir Shochet e o casamento acabou por ser realizado na cidade de acordo com a nossa tradição.

A grande responsável por manter nossa tradição viva foi a Sociedade Israelita do Rito Portuguez mantida por membros de nossa família que se preocupavam em manter viva a tradição da forma que recebemos, dando assistência aos judeus de origem espanhola e portuguesa, sem alarde, mas preocupada em não deixar perder nossas raízes. Alguns dos sobrenomes de seus fundadores estão presentes até hoje em nossa Kehilah, tais como: Duque, Freire, Gomes, Barbosa, Lopes, Salis, Umbellina, Sampaio, Azevedo, Coutinho e Azeredo.

No ano de 1888 ela entraria em evidência devido a um desentendimento com outra instituição judaica no que concerne à liderança do rabinato da Sociedade Israelita do Rito Portuguez. A entidade tinha como seu rabino o Rav Abraão Hachuel, porém havia alegações de que o rabino da SILRP seria na verdade o senhor Solomon Abraham Pariente, porém em 15 de janeiro de 1888, o presidente da SILRP Sr. Benjamin Ben, publica uma carta no Jornal do Commercio, para esclarecer sobre a questão do Rabinato. No dia 16 de Janeiro, também é publicada no mesmo jornal, uma carta do senhor Solomon Pariente informando, que de fato faz parte de outra sinagoga, não pertencendo, portanto ao Rito Portuguez.

As atividades vão continuar de forma discreta, até que o grande jornalista João do Rio, consegue assistir à uma festa de Purim desta sociedade, para uma série de reportagens que publicou no jornal Gazeta de Notícias no ano de 1904, chamada “As Religiões do Rio” esta nomeada “As Sinagogas”. Ele relata uma esnoga na Rua da Alfândega 363, onde ele dá a seguinte descrição: “Sobe-se uma escada íngreme, dá-se num corredor que tem na parede as tábuas de Moisés. Aí vive outro Moisés, o Hazan, com uma face espanhola e um ar bondoso”.

 

O SÉCULO XX

 

Neste início de século XX seguiu-se com uma grande imigração de judeus rumo ao Brasil, das mais diversas localidades tanto do Norte da África, quando do Oriente Médio e, principalmente da Europa. Foi um período em que muitas sinagogas foram erguidas no Rio de Janeiro, para representar os costumes destas comunidades recém surgidas. Eram francesas, alemãs, libanesas, sírias, russos, poloneses e lituanos. A vida judaica se fundamentava na Praça Onze, no Centro do Rio de Janeiro, que a esta época ganhou o caráter de bairro judeu, devido ao número de israelitas que abrigava.

Este foi um período em que a comunidade ashkenazi cresceu com muita força na cidade, e embora permanecêssemos presentes, boa parte dos nossos tinha sido destruída pela Inquisição, o que fez com que muitos se unissem à sefarditas de outras localidades para dar continuidade à tradição. Muitas sinagogas foram erguidas pelas forças dos nossos, que sempre foram avessos à movimentos liberais ou reformistas. Nas cadeiras das mesmas encontramos os nomes dos nossos: Oliveira, Siqueira, Salgado, Pinto, Peres que ficaram imortalizados pelo desejo de manter vida a tradição Sefaradi Tahor.

Com o andar do século foi sugindo nestes judeus de tradição portuguesa o desejo de se reunificar, numa sinagoga de rito autêntico, da mesma forma que nossos irmãos em Amsterdã, Londres e Nova York, então nossos avós e pais começaram a desenvolver uma forma de tornar isso realidade, cientes de que teriam dificuldades devido a forte mudança que isso representaria no Rio de Janeiro, então começaram a surgir reuniões entre essas pessoas para definir como isso aconteceria.

No nordeste à situação era ainda mais grave, já que muitos lugares careciam de recursos e estrutura para uma vida observante, apesar do esforço mantido pela endogamia, e alimentação baseadas em peixe e vegetais. Muitas então, avós de membros de nosso Kahal vieram para o Rio de Janeiro, à procura de vida melhor e de modo que pudessem viver de maneira judaica plena. Isso de certa forma causou um choque, pelo fato de muitas sinagogas terem medo de receber tantos judeus de origem portuguesa, que poderiam fazer com que os mesmos perdessem a identidade de suas próprias comunidades.

 

FIM O SÉCULO XX INÍCIO DO SÉCULO XXI

  Com essa firmeza de pensamento e ação foi definido que os esnogueiros precisavam estar juntos numa única esnoga como o nosso caráter hispano-português, de forma que não fosse dividido com nenhum outro rito, por mais que fosse considerado Sefaradi. Alguns judeus de nossa origem, como Augusto Bentsur, Yonathan Benayon, Amram Duque, Yoel Sobreira, Ovadiah Rafael, Aharon Ranulfo, David Peres e outros buscavam mobilizar os patrícios nos moldes nossos avôs e avós faziam, e isso foi caminhando para um entendimento. Também era necessário encontrar uma liderança rabínica inclinada à estes objetivos, para que a comunidade tivesse o caráter necessário que abarcasse os judeus de origem ibérica. Essa figura surgiu através da liderança de Rav Abraham Cohen Z´L, embora de origem turca e radicada nos EUA, ele era fruto de uma família judia espanhola que tinha fugido para a Turquia após o édito de expulsão dos reis católicos. Através de um encontro com Bentsur e Benayon, ele se disponibilizou a trabalhar com a comunidade e de fato o fez, instruindo na Halakha e na visão de uma Kehilah com aspecto Sefaradi Tahor. Isso foi dando frutos, na medida em que o relacionamento dos judeus locais com o rabino se expandia, houve formação de rabino de nossa origem, assim como sofer e hazanin que passaram a abrilhantar o trabalho da Kehilah, também foi construída a primeira Mikveh, certificada pelo Rav e sob a supervisão do brilhante Amram Duque. Houve também um grande crescimento na esnoga, à medida que judeus de nossa origem e que estavam em outras instituições, buscam um lugar para se sentir “em casa”. Quando surge a Shaare Shalom, ela já esta de forma organizada, após breves períodos no bairro de Vicente de Carvalho e no distrito de Nilópolis, ela se instala em definitivo no distrito de São João de Meriti, de onde, infelizmente e tão injustamente foi arrancada à família de Antônio José da Silva, como relatamos antes. Em homenagem à antiga judiaria que lá existiu, constituímos uma nova, onde os esnogueiros podem se reunir e viver o judaísmo segundo nosso rito português, de forma autêntica. De lá para cá, muita coisa mudou, a esnoga cresceu, foram formados novos rabinos, muitos casamentos foram realizados, assim como crianças fazendo berit milah, adolescentes fazendo Bar/Bat Mitzvah, a construção da Mikveh Sobreira, onde as senhoras observam as leis de Taharah Hamispaha, os estudos no Bet Midrash e as tefilot com miniam e a observância do Shabat, Kashrut e Hagim. A certeza maior depois de tudo o que foi feito é a sensação de que estamos honrando nossos antepassados, porque não deixamos a Inquisição nos derrotar, além da certeza de que temos um futuro glorioso pela frente.

R. Ovadiah Rafael