Congregação Judaica Shaarei Shalom – שערי שלום

Tempo de leitura: 17 Minutos
  1. Entendendo o livre arbítrio e o mal Por Rav Yanki Tauber

 

“Vejam, coloquei diante de vocês bênção e maldição.” Assim se inicia a leitura dessa semana da Torá, Reê (Livro judaico Devarim [Deuteronômio] 11:26-16:17), quando Moshê reitera, uma vez mais a doutrina do Livre Arbítrio. Liberdade de escolha. Sem isso, Maimônides nos lembra, a devoção é sem sentido, a moralidade um não-conceito, a Torá supérflua. De fato, não somente nos foi concedido um livre arbítrio entre o bem e o mal, mas também a opção de em qual nível fazer esta escolha. Uma escolha de escolhas, se me permite.

 

a – o bem e o mal. Bênção e maldição, luz e trevas. D’us criou ambos (veja no livro judaico Ieshaiáhu [Isaías] 45:7). Escolhemos qual dos dois, ou qual combinação a partir deles, irá definir a nossa existência.

 

b – Na verdade, há apenas o bem. D’us é a fonte de toda realidade; e como D’us é a essência do bem, somente o bem é real. Assim como não há uma coisa como a escuridão – somente luz ou sua ausência (que chamamos “escuridão”) – assim também, há somente bem ou sua ausência. Ou em vez disso – como nenhum local é vazio de Sua presença – bem ou sua ocultação. Portanto, a opção entre bem e mal não é uma escolha entre duas realidades, mas uma escolha entre ser e não-ser, entre realidade e ilusão.

 

c – Como “escolha”, por definição, é a afirmação livre e desimpedida da vontade; e como a vontade intrínseca da alma humana é pela vida e bem-estar; a única escolha verdadeira que pode haver é a escolha do bem. Porém, nos foi concedida a liberdade de escolha, o que significa que podemos escolher não escolher; aquilo que chamamos “liberdade de escolha” é na verdade a escolha de exercer a opção ou de renunciar à escolha. Quando afirmamos nossa verdadeira vontade – quando escolhemos – invariavelmente optamos pelo bem.

Qual é então – a, b ou c? Isso é com você. Este é o verdadeiro significado de “livre arbítrio”: não que você possa meramente escolher entre duas ou mais opções apresentadas a você por uma autoridade superior, mas que é você que determina o nível de realidade na qual sua vida consciente se desdobra. É você que determina a distância entre sua vida e sua Fonte, e assim a forma pela qual o “Livre Arbítrio” entra em sua experiência.

Faça sua escolha. [1]

  1. Escravos no judaísmo

Pergunta: Se D’us criou o homen livre e com livre arbítrio, porque Ele, segundo a Torá, permitiu aos judeus terem escravos? (Devarim/ Deuteronômio 15:12).

Resposta: Escravos são mencionados pela primeira vez na Torá logo após o Dilúvio. Nôach amaldiçoou seu neto Canaã, dizendo que os canaanitas seriam escravos dos seus próprios irmãos. Nos tempos de Avraham, a escravidão era comum. Mesmo Avraham tinha escravos, mas eram “escravos” somente no nome; eram mais como membros da casa. Os filhos de Israel haviam provado a amarga experiência da servidão quando foram escravizados pelos faraós do Egito por vários séculos.

Jamais imporiam semelhante destino a qualquer outro ser humano. Aliás, a Torá prescreveu severas leis para a proteção dos escravos. Tantas eram as obrigações impostas ao amo, que havia entre os judeus o dito: “Aquele que compra um escravo, adquire um amo sobre si mesmo”.

A possibilidade do judeu tornar-se escravo surgia no caso de roubo, quando o ladrão não pudesse restituir o bem roubado. O tribunal podia então vendê-lo como escravo. Outra possibilidade podia ocorrer quando um pobre se vendesse voluntariamente como escravo para pagar uma dívida com seu trabalho.

Esta era justamente uma forma de regeneração: ao invés de ser mandado para a prisão, o ladrão era vendido como escravo para que desta forma convivesse com seu dono, reparasse seu erro e aprendesse a viver uma vida honesta.

Em cada um desses casos, quando chegava shemitá (o ano sabático, que ocorre a cada sete anos), o “escravo” tinha que ser libertado. A Torá, no entanto, garante ao escravo o “privilégio” de continuar na servidão, se assim o desejasse e estivesse muito afeiçoado ao seu senhor.

Mesmo assim ele teria que sair livre no ano de jubileu. Desta forma, a Torá provê para que não exista nada semelhante a uma classe permanente de escravos na sociedade judaica, como era uma prática comum em todo o mundo e ainda persiste em alguns países. Até mesmo nos Estados Unidos, a escravidão foi abolida somente em 1865 (pela 13ª Emenda Constitucional).

A escravidão a qual se refere a Torá é totalmente diferente ao conceito de escravidão que conhecemos. Há uma série de leis sobre como deve ser tratado um escravo, muitas das quais estabelece que, suas necessidades devem ser supridas antes do dono. Por exemplo: a pessoa que tivesse um só travesseiro, é o escravo que o recebia para dormir, e não seu amo; o escravo deveria descansar no Shabat; deveria receber uma quantia em valores ou bens quando partisse em liberdade, etc.

Um escravo fugido, por exemplo, que viesse a um judeu procurar asilo não deveria ser entregue ao seu senhor, mas sim receber refúgio e proteção, ao contrário de qualquer outra propriedade que um judeu tem a obrigação de devolver ao seu legítimo dono. No ano de shemitá (sabático) os donos deviam libertar seus escravos. Caso o escravo não desejasse partir em liberdade, mas permanecer trabalhando na casa de seu senhor, sua orelha deveria ser furada.

Qual é o motivo desta lei? Explicam nossos Sábios: aquela orelha que ouviu os Dez Mandamentos e sabe que seu Único Senhor é D’us, mas mesmo assim deseja continuar submissa a um senhor de carne e osso, deve ser furada. Daqui vemos que a escravidão não é o estado natural do homem, e a Torá diz isso claramente.

Brachot Hashachar – Costumamos diariamente recitar nas Preces matinais a bênção “.Bendito seja D’us..que não me fez um servo”. Isto se refere ao escravo canaanita e a recitamos para agradecer a D’us pela liberdade de serví-Lo sem restrições de cumprir todos os mandamentos da Torá, não apenas alguns, como é o caso do servo. Num sentido mais profundo, essa bênção nos lembra que somos livres não só da servidão a outros, mas também da servidão à nosso própria natureza.

Pois ninguém é mais escravo que aquele que é servo de suas próprias paixões e hábitos. Mas D’us nos concedeu a sabedoria e a capacidade de sermos verdadeiramente livres e isto depende somente da nossa própria vontade e determinação. Assim como o dono, o escravo estava obrigado a cumprir as leis da Torá – o fato de ser escravo não o isentava de tal, e portanto, não tirava dele o livre arbítrio. [2]

III. Livre Arbítrio – 25 de Elul, 5724 (1964)

Saudações e bênçãos

Recebi sua carta de 16 de Elul. Creio já ter escrito a você antes, tanto a respeito de esforços para influenciar outros, como também a ajudar-se; é bom consultar amigos tementes a D’us, especialmente porque eles têm experiência nesses assuntos. Quanto à sua pergunta sobre livre arbítrio, o Rambam explica longamente este tema nas Leis de Teshuvá (Arrependimento), capítulos 5 e 6. O significado do livre arbítrio é simplesmente que uma pessoa é livre para agir, falar e pensar, e sempre tem a opção de fazer ou não o bem.

Assim, também está enfatizado na Torá: “Veja que coloquei diante de ti, etc. – escolha a vida.” Não há contradição entre o livre arbítrio humano e a Sabedoria Divina, pois o oposto do livre arbítrio não é o conhecimento, mas a compulsão. Em outras palavras, a Sabedoria Divina de forma alguma afeta a liberdade humana, e não a obriga.

Uma das ilustrações que tornarão mais fácil entender este assunto é aquela de uma pessoa que é clarividente, e pode prever acontecimentos no futuro, ou um psicólogo que conheça muito bem um amigo e pode prever suas reações, embora limitado a um curto período de tempo. Evidentemente, este conhecimento antecipado não afeta o evento e as ações que ocorrerão. Porém D’us é ilimitado em tempo e conhecimento, e Sua sabedoria se estende a todos os tempos e locais, mas nunca afeta a liberdade das ações humanas.

Anexei uma cópia de minha mensagem geral de Rosh Hashaná deste ano. Nela você encontrará respostas também para algumas de suas questões.

Desejando-lhe um Kesivo veChasimo Toiva [que você seja inscrito e selado para o bem].

Com bênçãos, M. SCHNEERSON  [3]

  1. “O livre arbítrio não é aplicável em unicidade.” (Rabi Nachman de Breslov, Likutey Moharan I, 51)

Comentário: A unidade referida pelo Rebe Nachman é quando a dúvida não tem lugar. Por exemplo: sabemos com certeza o que vai acontecer se colocarmos nossas mãos no fogo.

Ninguém está desejando submeter-se a tal sofrimento, e nenhum indivíduo no mundo voluntariamente colocou a mão no fogo. De alguma forma, já não temos livre arbítrio para escolher entre duas atitudes. Se temos o livre arbítrio de fazer o bem ou o mal, que D-us proíba, é porque existe um muro entre Hashem – ou seja, a Unicidade absoluta – e nós. O Criador sabe disso: não é Ele quem decidiu que temos que viver neste mundo? Nossa tarefa é rezar pedindo ajuda do Céu para obter uma visão clara do bem e multiplicar nossos esforços para fazê-lo. [4]

  1. Parashá Balac – Rabi Nachman of Breslov

“[Bala’am] proferiu seu discurso, e disse:’ (…) O discurso de quem ouviu os ditos de D-us e sabe o conhecimento do Altíssimo.” (Números 24:15-16)

Se há uma coisa que nos irrita é quando nós estamos em uma situação em que não temos a oportunidade de fazer uma escolha. Independentemente da área que pode se referir: na maioria das vezes pensamos que um dos fundamentos essenciais da nossa liberdade é aquela que nos deixa a opção de dizer “sim” ou “não”, para fazer alguma coisa ou não fazê-lo …

O absoluto livre arbítrio – Enquanto nós prezamos o nosso direito de escolher – isto é, o nosso livre arbítrio – nós freqüentemente privamos as pessoas disso. Na verdade, nós muitas vezes fazermos escolhas em vez de nossos filhos, ao invés de deixá-los decidir o que querem. Se nós fizermos isso, é no seu próprio interesse: a criança não tem a inteligência para fazer as melhores escolhas e é na nossa qualidade de adulto que nós os fazemos para ele ou ela.

Isto é exatamente pela mesma razão que D-us dá as más pessoas o poder de enganar-nos, Deus não permita. Superficialmente, isso pode surpreender-nos: qual justificação o Criador pode ter para não nos mostrar o caminho da Torá, de forma clara e sem as dúvidas que coloca um número significativo de confusões em nossas mentes?

Na verdade, este é o mundo que nós gostariamos de viver: aquele em que as tentações não existiria, onde nós seriamos atraídos apenas pela vontade Divina e onde nós gostaríamos de fazer somente o bem. No entanto, essa visão idílica não existe e é … para nosso benefício! Rabi Nachman usa o exemplo do mau profeta Bila’am para nos fazer entender o porquê.

Bila’am quis amaldiçoar o povo de Israel. Embora o pedido inicial não veio dele, ele foi, no entanto, encantado de desempenhar esse papel. Se suas maldições poderia ter atingido cruelmente os Bnei Israel, é porque Bila’am era um profeta de um estilo muito original. Não só ele não era Judeu, mas o seu conhecimento do Divino era igual ao único levado pelo maior profeta de todos os tempos entre o povo Judeu: Moshê Rabeinu.

Rebe Nachman soube que a partir do próprio nome Bila’am. Em Hebraico, esse nome é escrito com as letras Beth (ב), Lamed (ל), Ayin (ע) e Mem (מ). De cada uma dessas cartas, nós podemos inferir os poderes extraordinários possuído por Bila’am. Na verdade, seu conhecimento da Torá era muito profundo e enorme.

Nós sabemos isso das letras Beth (ב) e Lamed (ל), que são respectivamente a primeira e a última letra com a qual a Torah está escrito. Por outro lado, a letra Ayin (ע) – cujo valor numérico é igual a setenta – é o símbolo da força prodigiosa de inferência que Bila’am tinha, na verdade, nossos Sábios nos ensinaram que a “Torá tem setenta faces”, isto é, como muitas maneiras de ser entendido e ensinado. Finalmente, a letra Mem (מ) – cujo valor numérico é igual a quarenta – é o símbolo dos 40 dias que Moshê manteve no cume do Monte Sinai para receber a Torá.

Assim, nós podemos aprender segundo Bila’am que em todas as situações, o Mestre do mundo quer recompensar-nos pelas boas escolhas que fazemos: aqueles que nos permitem chegar mais perto Dele. No entanto, a recompensa Celestial se torna significativa somente porque é a nossa responsabilidade de fazer as escolhas certas. Isso pode ser comparado a um pai que recompensou seu filho porque ele fez uma boa ação. Se o pai recompensa seu filho, é porque ele sabe que era possível para seu filho escolher a não fazer esta boa ação, caso contrário, qual seria o significado deste prémio?

Nós agora entendemos porque muitas coisas tenta as vezes a empurrar-nos longe de Hashem. É o próprio Criador que investiu eles com este poder para testar o nosso livre arbítrio e cabe a nós a dizer “sim” ou “não”. Esta lógica também se aplica às pessoas: se algumas pessoas parecem inspirar-nos muito, nós devemos verificar se isso não é ir na direção oposta do Divino.

Eles querem nos liderar para longe de uma forma revelada: nós sabemos o que precisamos fazer. Por outro lado, se sua mensagem é mais sutil e está tentando nos convencer de que nós estamos chegando mais perto de D-us que eles realmente querem nos empurrar para fora, precisamos aumentar ainda mais nossas orações para não ser enganado.

Em todos os casos, nós nunca devemos ficar surpresos ou irritados com a dificuldade da situação. Isto é porque nós temos o livre-arbítrio que nós podemos esperar ser recompensado pelos nossos esforços para buscar a D-us. Um conselho: é bom chamar o Criador em nossas orações e pedir a Ele para nos ajudar a fazer as escolhas certas. [5]

  1. Os Oito Capítulos – A busca pelo equilíbrio, Por Rodrigo Bersot

Um dos textos mais estudados e comentados da literatura talmúdica é, sem dúvida Pirkei Avot, ou Ética dos Pais, como é conhecido em Português. A explicação para tamanha popularidade talvez resida no fato de ser um texto extremamente simples e com conselhos práticos. Outro fator que pode explicar seu sucesso está no fato de ser uma obra incomum, pois apresenta sinteticamente os ensinamentos dos sábios de várias gerações. Seu texto pode ser encontrado num Sidur completo.

Apesar de sua simplicidade, é um tratado que dá margem à diversificadas e profundas interpretações. A obra mais completa sobre Pirkei Avot em Português pode ser encontrada no livro A ética do Sinai, da editora Sêfer. Lá o autor Irving M. Bunim dá diversas interpretações de vários sábios judeus durante a história, além de introduzir seu próprio parecer.

“‘Mesmo sendo este tratado pequeno e de fácil compreensão na superfície, agir de acordo com o seu conteúdo não é fácil para todos, nem suas intenções compreensíveis, sem uma explicação detalhada’.”

O livro em estudo (Os oito capítulos, editora Maayanot) trata-se de uma introdução ao Pirkei Avot feita por Moshê Ben Maimon, mais conhecido como Maimônides ou RAMBAM no meio judaico. Com explicações sobre a alma, Maimônides ensina os pré-requisitos para cumprir os ensinamentos éticos do tratado, através da conduta moral. Segundo o próprio autor “mesmo sendo este tratado pequeno e de fácil compreensão na superfície, agir de acordo com o seu conteúdo não é fácil para todos, nem suas intenções compreensíveis, sem uma explicação detalhada. No entanto, leva à grande perfeição e à verdadeira felicidade”.

Esta introdução foi escrita por Maimônides em oito capítulos. Segundo o autor os ensinamentos contidos neles podem despertar o indivíduo a tomar uma nova postura de vida pautada na busca pelo Conhecimento Divino, que seria, ainda segundo o autor, o objetivo principal dos que se guiam pelos ensinamentos da Torá.

Recomendamos a leitura de todos os oito capítulos, pois encerram em si séculos de uma profunda sabedoria.

Neste artigo nos limitaremos a apresentar uma resenha do quarto capítulo, onde há uma interessante discussão sobre a virtude e o vício. Entretanto, a leitura de todos os oito capítulos é de fundamental importância para o pleno entendimento das ideias do filósofo.

Capítulo 4 – Sobre o tratamento das doenças da alma

Neste capítulo, Maimônides aborda a questão da alma de uma maneira mais prática. Como um médico, ensinará como é possível melhorar as ações, para que se possa livrar-se dos excessos e das faltas. Para tal, definirá quais são as virtudes da alma, introduzindo o conceito do equilíbrio. Bom é aquilo que se situa entre o exagero e a escassez. Esse equilíbrio vale para todas as ações.

“A virtude pode ser definida como uma característica resultante do estado de equilíbrio da alma.”

Assim, diz RAMBAM, são ruins todos os extremos: tanto o excesso quanto a deficiência. Dessa forma a virtude pode ser definida como uma característica resultante do estado de equilíbrio da alma. O primeiro exemplo dado por Maimônides refere-se à moderação. Esta é a virtude que se encontra entre os extremos da luxúria e da insensibilidade ao prazer. Esses dos extremos são, nos dizeres do sábio, “vícios morais”.

 

 

 

RAMBAM dá outros exemplos. Para melhor vizualizá-los utilizamos aqui uma tabela:

  DEFICIÊNCIA  VIRTUDE EXCESSO
 insensibilidade moderação luxúria
 avareza generosidade extravagância
 degradação amor próprio  altivez
 apatia agrado irritabilidade
 rebaixamento humildade orgulho
 preguiça contentamento ganância
coração ruim bom coração coração muito bom**
 insensibilidade paciência raiva
 timidez modéstia  impudência

 

* “(…) a pessoa de bom coração é aquela que tem toda a intenção de fazer o bem para as pessoas (…) sem ferir ou envergonhar a si própria: este sim é o equilíbrio.” (p.24)

** “O de coração muito bom é quem faz as coisas descritas acima, com bom coração, mesmo que o prejudique ou envergonhe ou tenha de fazer muito esforço e tenha grande prejuízo com isto, este é o outro extremo.” (p.24)

A origem dos vícios morais – Maimônides diagnostica a forma como esses vícios morais enraizam-se na alma, e, como consequência, manifestam-se na prática. Segundo ele, todos esses vícios são fruto de uma repetição de uma ação referente a um hábito, em um longo período de tempo.

“O meio familiar e social em que uma criança cresce faz com que ela se acostume às ações desse meio, que podem estar equilibradas, ou no excesso ou deficiência.”

Assim, podemos constatar que Maimônides, em sua filosofia, rejeita a teoria determinista. Ao contrário, afirma que os seres humanos são plenamente livres nas suas escolhas e formação moral. Apesar disso, relativiza a questão ao afirmar que o meio familiar e social em que uma criança cresce faz com que ela se acostume às ações desse meio, que podem estar equilibradas, ou no excesso ou deficiência (veja o quadro acima).

O livre-arbítrio estaria, portanto, numa fase em que o indivíduo escolhesse continuar a viver da forma em que está acostumado ou buscasse outro caminho.   “Repetição – eis a chave da questão para Maimônides”. Repetição – eis a chave da questão para Maimônides. Somente através dessa é que adquire-se, ao longo da vida, virtudes ou vícios morais, que estarão “firmemente estabelecidos na alma” até que haja um interesse de mudança.

O tratamento dos vícios morais – Mais uma vez, Maimônides recorre à analogia com sua profissão – a medicina – para explicar o imaterial.

O corpo humano necessita de equilíbrio para manter-se saudável. Tudo o que está em excesso no organismo deve ser reduzido, e o que está insuficiente deve ser suprido. Utilizemos um exemplo moderno e de fácil assimilação para entendermos o que RAMBAM quer nos dizer: a vitamina A.

Todos nós necessitamos dela. O equilíbrio desta substância no organismo, entre outros efeitos, permite que ela combata os radicais livres, que são os responsáveis pelo envelhecimento. Um organismo, porém, que não possui quantidade suficiente estará sujeito a diversas doenças, como visão deficiente à noite, sensibilidade à luz, redução do olfato e do paladar, ressecamento e infecção na pele e nas mucosas, estresse, etc.

Da mesma maneira, o excesso de vitamina A no sangue pode trazer sérias complicações (pele seca, áspera e descamativa, fissuras nos lábios, ceratose folicular, dores ósseas e articulares, dores de cabeça, tonturas e náuseas, queda de cabelos, entre outras moléstias).

Uma pessoa que não possui a quantidade sificiente da vitamina no corpo, não poderá simplesmente ingerir a mesma porção da substância que uma pessoa normal. Provavelmente terá que tomar um suplemento.

É neste ponto que a comparação se torna interessante. Para sanar os vícios da alma, deve-se aplicar tratamente semelhante. Se, por exemplo, um indivíduo está habituado com a prodigalidade, a extravagância, o tratamento que deve ser aplicado a ele não é outro senão tomar atitudes avarentas. Não pode simplesmente praticar atos generosos. Deve buscar o oposto ao vício. Do contrário, nunca conseguirá se livrar dessas atitudes extravagantes.

 “É mais fácil para o indivíduo se virar da extravagência para a generosidade, do que da avareza para a generosidade.”

O oposto também é válido. Se está habituado a ter atitudes avarentas, só conseguirá chegar ao equilíbrio – a generosidade – quando repetidamente tomar atitudes extravagantes. Uma ressalva é feita, porém: não se deve fazer o indivíduo repetir ações de avareza tanto quanto de extravagância. Segundo o sábio “esta sutileza é a regra da terapia, e é o seu segredo.”

E isto é facilmente compreendido: é mais fácil para o indivíduo se virar da extravagência para a generosidade, do que da avareza para a generosidade. Isto também é válido para as outras ações da alma, como a luxúria. Para tratar um indivíduo insensível não se deve estimulá-lo tanto quanto se deve fazer um indivíduo com luxúria praticar a insensibilidade, pois, novamente, é mais fácil um indivíduo passar do estágio da insensibilidade para o estágio da moderação, do que passar do estágio da luxúria para o da moderação.

“A Torá, segundo a tradição judaica, é perfeita e conforta a alma. Assim, exige dos que a cumprem que tenham uma vida equilibrada, seguindo a moderação e evitando os extremos.”

RAMBAM segue esclarecendo um tipo de comportamento trilhado pelos piedosos, ao fazerem mais do que a Lei pede, e, portanto, se inclinando para o excesso ou deficiência. Desta forma, inclinam-se à generosidade excessiva, por exemplo. Ao ver este comportamento, os ignorantes pensam que estarão sendo piedosos se também se comportarem de tal forma.

O que eles não consideram é que essa inclinação ao excesso ou deficiência faz parte do tratamento do caráter desses sábios, e que, portanto, não são comportamentos comuns, que devem ser imitados pelas pessoas de alma saudável. É como se alguém visse o médico aplicar um remédio a um doente e pensasse que este remédio poderia aumentar sua saúde, o que é absurdo.

“O mais alto nível que um ser humano pode alcaçar viria quando este avaliasse suas ações e pensamentos e os dirigisse de acordo com o equilíbrio da Torá. Ao atingir este estágio, estaria perto do Criador.”

A Torá, segundo a tradição judaica, é perfeita e conforta a alma. Assim, exige dos que a cumprem que tenham uma vida equilibrada, seguindo a moderação e evitando os extremos. Segundo o autor todos os mandamentos ajudam a trilhar esse caminho da moderação.

O mais alto nível que um ser humano pode alcaçar viria quando este avaliasse suas ações e pensamentos e os dirigisse de acordo com o equilíbrio da Torá. Ao atingir este estágio, estaria perto do Criador. No final do capítulo Maimônides faz uma citação taxativa: “Todo aquele que avalia o seus caminhos e os observa, merece a salvação do Todo-Poderoso.” [6]

Fontes:

[1] quarta-feira, 31 de julho de 2013: http://abibliajudaicanoseucontextojudaico.blogspot.com.br/2013/07/entendendo-o-livre-arbitrio-e-o-mal.html

[2] http://www.pt.chabad.org/library/article_cdo/aid/1595122/jewish/Escravos-no-judasmo.htm

[3] http://www.pt.chabad.org/library/article_cdo/aid/697448/jewish/Livre-Arbtrio.htm

[4] Escrito pelo Rabino David-Yitzhok, Uma Ruptura Santa : http://jornalmitsva.blogspot.com.br/2012/03/frase-do-dia_28.html

[5] http://umaquebradesanto.blogspot.com.br/2011/07/parasha-balac-rabi-nachman-of-breslov.html

[6] Kolot: https://sites.google.com/site/kolotvozes/artigos/os-oito-capitulos—a-busca-pelo-equilibrio

 

Coordinador: Saul S. Gefter

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