Congregação Judaica Shaarei Shalom – שערי שלום

Tempo de leitura: 20 Minutos

 

  1. IntroduçãoShabat, Nome dado, no judaísmo, ao dia de descanso semanal, simbolizando o sétimo dia da criação, em que D’us descansou : “… Era noite e era manhã, o sexto dia. E os céus e a terra e tudo que havia. E D’us completou no sexto dia Sua obra que Ele tinha feito; e Ele descansou no sétimo dia de toda a Sua obra que Ele tinha feito… E D’us abençoou o sétimo dia, e o santificou, porque nele Ele descansou de toda sua obra que D’us tinha criado…” (Bereshit/Gênesis 1:31-2:3). Pelo rito judaico, o Shabat sempre começa a ser celebrado ao anoitecer de sexta-feira e se estende até o pôr-do-sol de sábado. Em hebraico, a etimologia da palavra Shabat está relacionada com o verbo shvat, que significa “cessar”. Apesar de ser traduzida universalmente como descanso, uma tradução mais literal seria “cessação”, no sentido de parar o trabalho. Portanto, Shabat pode ser entendido como o dia em que D’us cessou seu trabalho de criação; deixando o conceito de descanso implícito. … O termo sabático é outro que deriva do original em hebraico. Os judeus observantes respeitam tanto os mandamentos positivos do Shabat – as três refeições festivas … –, como as restrições de algumas ações. No total, há 39 proibições de atividades (melachot ou “trabalhos”) que são descritas por fontes religiosas judaicas. Entre elas está escrever, acender o fogo ou produzir qualquer tipo de faíscas, construir ou montar qualquer coisa. Na maioria dos casos, a proibição é relacionada a um trabalho por meio do qual se cria algo que não existia antes. Isso porque, de acordo com a tradição judaica, assim como D’us cessou sua criação em seis dias e “descansou” no sétimo, as pessoas que se espelham em D’us se privam de criar no Shabat, como demonstração de que só Ele está por trás de todas as criações. [1]
  2. O Kidush da noite de Shabat “Aquele que recita o ‘Vayechulu’ (o Kidush) na noite do Shabat é considerado como se ele se tornasse parceiro de D’us na criação do mundo” (Talmud, Tratado Shabat, 119b). A recitação do Kidush na noite de Shabat, cujo cumprimento cabe igualmente a homens e mulheres, é um dos mandamentos judaicos mais significativos e amplamente observados. A guarda do Shabat – o único ritual judaico que é um dos Dez Mandamentos – é um dos pilares do judaísmo. É um mandamento tanto positivo quanto negativo. Isso significa que seu cumprimento se baseia em atos de cometimento e omissão. A Torá nos ordena “lembrar” (zachor) e “guardar” (shamor) o Shabat. … Como o Shabat abrange duas diretrizes Divinas, não se trata de uma mitzvá do tipo “tudo ou nada”. Portanto, mesmo aqueles que não o “guardam”, devem cumprir o mandamento que ordena:

“Lembra-te do dia do Shabat para santificá-lo” (Êxodo, 20:8), por meio da recitação do Kidush antes do jantar da noite de sexta-feira. … – a distinção entre os seis dias mundanos da semana e o sétimo, sagrado. Há um princípio geral no judaísmo de que, na medida do possível, um evento espiritual deve ser expresso através de um ato físico. … De modo geral, ao recitar o Kidush, o fazemos sobre uma taça de vinho necessariamente casher e, de preferência, tinto. No entanto, se entre os participantes alguém não pode ingerir bebida alcoólica, esta pessoa deverá tomar suco de uva casher. A bênção é idêntica à do vinho. No caso de não haver vinho ou suco de uva casher, pode-se fazer o Kidush sobre o pão e, em vez de recitar a bênção Bore Peri HaGuefen, “que cria o fruto da videira”, diz-se, Hamotzi Lechem min Ha’aretz, “que tira o pão da terra”.

Quando se usa pão em lugar de vinho, é preciso fazer a lavagem ritual das mãos (Netilat Yadaim) antes de fazer o Kidush, para que se possa comer o pão imediatamente após o término de sua recitação. O Shabat é consagrado por meio de um ato físico porque o propósito dos mandamentos da Torá é santificar o mundo, infundindo o material no espiritual. Isso explica por que se usa vinho, em particular, no Kidush: por um lado, serve como um componente do prazer humano; por outro, por ter sido a única bebida, à exceção de água (em Sucot), que serviu de libação no altar do sacrifício no Tabernáculo e no Templo Sagrado de Jerusalém. O vinho, portanto, serve tanto como propósito físico quanto espiritual. Como o Talmud diz: “O vinho alegra D’us e o homem”.

Mas como o vinho, especialmente o tinto, é um símbolo de severidade e julgamento (a cor vermelha remete ao sangue) – a Cabalá nos recomenda adicionar ao vinho do Kidush uma pequena quantidade de água, que simboliza amor e graça. Primeiro o vinho é colocado quase que até a borda do copo de Kidush; a seguir, acrescenta-se um pouquinho de água. Esta cria uma “mistura” adequada de harmonia entre a benevolência e a severidade – ou seja, as duas primeiras Sefirot emocionais: Chessed e Guevurá. Durante a recitação do Kidush da noite de sexta-feira, todos os presentes ficam de pé, porque o desempenho de tal mandamento Divino equivale a prestar testemunho de que D’us criou o mundo e, segundo a Lei Judaica, as testemunhas precisam ficar de pé ao depor.

Ao dizer o Kidush, a pessoa atesta que D’us criou os Céus e a Terra. Essa é a base e o fundamento para a santificação do Shabat e para a sua observância. Diz a Torá: “(O Shabat) é um sinal entre Mim e os Filhos de Israel para sempre, que em seis dias o Eterno fez os céus e a terra, e no sétimo dia Ele cessou e descansou” (Êxodo, 31:17). Enquanto recita o Kidush, a pessoa deve ter em mente que está cumprindo esse mandamento Divino tanto para ele como para todos os presentes. Já os ouvintes, estes devem ter em mente que o fato de ouvir o Kidush equivale a se eles próprios o estivessem recitando. Portanto, devem ficar em silêncio, e responder “Amén”. …

  1. O texto do Kidush – No texto do Kidush, há duas partes distintas, separadas uma da outra pela bênção do vinho. Em algumas versões do Kidush, há exatamente 35 palavras em cada uma das partes, perfazendo um total de 70, que é o número místico da noite de Shabat. Esse número também representa um múltiplo de dois números significativos: sete, o numeral do sétimo dia, e dez, que alude às Dez Sefirot – três intelectuais e sete emocionais. A primeira parte do Kidush, que é retirada da Torá, sendo, portanto, de autoria Divina, fala do Shabat do ponto de vista transcendental do Criador, como sendo o objetivo e conclusão perfeita da Criação. A segunda parte foi cunhada pelos Sábios.

A primeira parte descreve o aspecto Divino do dia sagrado, ao passo que a segunda expressa sua santidade sob a óptica do Povo Judeu, expressando todos os elementos que constituem a natureza do Shabat e o relacionamento especial entre esse dia e o Povo de Israel. A segunda parte do Kidush se inicia com a abertura para as bênçãos sobre qualquer mandamento Divino: “Bendito és Tu, Eterno, nosso D’us, Rei do Universo, que nos santificaste com Teus mandamentos”. Tais palavras expressam que os mandamentos Divinos são uma forma de adquirir santidade e, ainda mais, que os próprios mandamentos são um ato de santidade.

Por meio dos mesmos, somos santificados perante o Eterno, pois enquanto estamos engajados em um Mandamento Divino, estamos unidos a D’us. Enquanto estamos cumprindo Sua Vontade, nós seres humanos finitos, unimo-nos com o Ser Infinito. O Êxodo do Egito é também mencionado na segunda parte do Kidush, porque o Shabat – dia de descanso da labuta – é associado com a libertação de nosso povo da escravidão no Egito. Israel, povo de escravos, adquiriu a redenção e a liberdade, tornando-se uma nação de homens livres, capaz de cessar o trabalho e descansar em determinados períodos.

Em sentido mais profundo, o Êxodo do Egito simboliza a libertação de certas experiências e atribulações e prisões terrenas, e a ascensão ao serviço Divino. A libertação do Egito foi uma metamorfose para o Povo Judeu: passamos de escravos de um rei perverso a servos de um Ser Infinitamente benevolente. Todas essas idéias estão incorporadas no Shabat, quando descansamos de todos os labores do mundo físico e transcendemos o mundano, adentrando um período de tempo sagrado e santificado por D’us. Assim sendo, para podermos melhor apreciar o significado do Kidush, preparamos, com base nos ensinamentos de nossos Sábios, uma breve transliteração, tradução e comentários, frase por frase, explicando o texto do Kidush, a partir do Sidur do rito sefaradita.

(Vayehi Erev Vayehi Boker), Yom Hashishi – (E seja noite e seja manhã), O sexto dia. As duas palavras, Yom Hashishi, que concluem a contagem dos seis primeiros dias da Criação, não se referem ao testemunho da santidade do Shabat. Contudo, fazem parte do texto do Kidush porque as primeiras letras das palavras Yom Hashishi Vayechulu HaShamayim formam o Nome de Quatro Letras de D’us. Mas, como as palavras Yom Hashishi (o sexto dia) não têm significado lógico se estiverem fora de contexto, os Sábios incorporaram as palavras que as precedem “Vayehi Erev Vayehi Boker”, que são recitadas em voz baixa antes da oração do Kidush propriamente dito.

Vayechulu Hashamayim VeHaaretz VeChol Tzevaam – Os Céus e a Terra e todas as suas multidões estavam completes. Isso significa que o Universo inteiro, o mundo superior e inferior, e todos os tipos de criaturas de todas as espécies físicas e espirituais que os habitam foram criados por D’us durante os primeiros seis dias da Criação. A recitação desse verso é um ato de testemunho: atestamos a criação dos Céus e da Terra por D’us – a base e fundamento da santidade do Shabat e de sua observância. Em outra parte da Torá está escrito que “Entre Mim e os Filhos de Israel, é um sinal para sempre, que em seis dias o Eterno fez os céus e a terra, e no sétimo dia Ele cessou e descansou” (Êxodo, 31:17). A maioria de nossos Sábios entendeu o significado exato da palavra Vayechulu sendo diferente de uma palavra semelhante, Vayechal, encontrada no próximo verso, significando que D’us “terminou” ou “completou”.

Aqui o termo significa que tudo chegara a um estado de término, da perfeição de sua natureza essencial – ou seja, um todo em sua inteireza perfeita.

Vayechal Elo-him Bayom HaShevii Melachto Asher Assá– E D’us terminou no sétimo dia Seu trabalho que Ele havia feito. Não tinha o Eterno terminado Seu trabalho no sétimo dia, mas no final do sexto? Alguns Sábios explicam que a Criação ocorreu em sete dias, pois não é como se D’us tivesse criado o mundo em seis dias e depois o deixou por sua conta no sétimo. Pelo contrário: no sétimo dia, D’us criou o conceito de descanso. O Shabat e seu repouso são, em sua essência, a culminação da criação do mundo. São o cúmulo da perfeição que faltava ao mundo e que foi alcançado no sétimo dia da Criação. É importante explicar o propósito do repouso na Criação. … Sem o Shabat, o mundo não seria capaz de colher os frutos do labor Divino e humano. Trabalhamos seis dias na semana e depois descansamos no sétimo, para que nosso trabalho possa germinar e render seus benéficos resultados.

Vayishbot Bayom HaShevii Mikol Melachto Asher Assá – E Ele descansou no Sétimo Dia de todo o Seu trabalho que Ele havia feito. “Terminou” (Vayechal) e “descansou” (Vayishbot) não são palavras de idêntico significado. Terminar um trabalho tem a conotação de cessar ou abster-se de uma atividade; descansar implícita um estado de lazer. Há, de fato, dois mandamentos separados na Torá acerca do Shabat: o mandamento negativo de abster-se de trabalhar e o mandamento positivo de descansar. Este último não significa, contudo, que a pessoa deva dormir o dia todo. Significa que deve abster-se de trabalhos e atividades mundanas e se dedicar a atividades prazerosas (contanto que sejam permitidas no Shabat) – por exemplo, fazer fartas refeições – e a afazeres espirituais, tais como a oração e o estudo da Torá.

Vayevarech Elo-him et Yom HaShevii Vaycadesh Oto – E D’us abençoou o sétimo dia e o santificou. É importante enfatizar que a bênção e a santidade não são fenômenos visíveis nem tangíveis. O curso contínuo do mundo físico não cessa seu progresso durante o Shabat. A transição do mundano para o sagrado precisa, pois, ocorrer dentro de cada um de nós. A singularidade do sétimo dia reside na possibilidade de transformação do Shabat em uma fonte de bênção a partir da qual todos os demais dias da semana sejam abençoados. Mas isso depende de nosso comportamento no dia sagrado. “E o santificou”: A santidade desse dia está no fato de ter sido santificado como um dia sagrado desde o momento da Criação, santidade esta que foi revelada a Israel no Monte Sinai como um mandamento específico. Ademais, a santidade do Shabat não depende do fato dos homens o guardarem; ela existe independentemente da participação humana. O Talmud e a Cabalá ensinam que quando se inicia o Shabat, o judeu recebe uma alma adicional, que permanece dentro de seu corpo enquanto dura o dia sagrado. Mas cabe a cada um de nós usar esta dádiva Celestial, que nos permite sentir e partilhar da santidade do dia.

Ki Vo Shavat Mikol Melachto – Pois nesse dia Ele descansou de toda a Sua obra. O descanso e o repouso foram criados no Shabat como o propósito máximo do trabalho. Portanto, o Shabat é o que permite que o judeu colha os frutos de seu empenho semanal. Se não existisse o Shabat, nosso trabalho material e espiritual seria em vão. É importante notar que o conceito de descanso Divino é uma metáfora.

A Torá atribui qualidades humanas a D’us para que nós, seres humanos finitos, possamos entender um pouco sobre o Criador Infinito, que, por definição, está além de nossa compreensão. Descanso Divino não significa que D’us parou de trabalhar porque estava cansado. Tais limitações não se aplicam ao Infinito. D’us “descansar” significa que a Energia Divina (a Sefirá) que predominava no sétimo dia da Criação era Malchut, que é uma Sefirá passiva, diferentemente das demais seis (Chessed, Guevurá, Tiferet, Netzach, Hod e Yessod). Ver o artigo “As sete Sefirot da emoção” – (Morashá no. 69)

Asher Bara Elo-him Laassot – Que D’us criou para fazer. A palavra Laassot (fazer) parece fora de contexto. Há Sábios que traduziram essas palavras da seguinte forma: “Que D’us criou para o homem fazer”. Ou seja, a atividade criativa e a capacidade de alterar o estado do mundo nos foram dadas por D’us. Os seres humanos se tornaram, por assim dizer, parceiros de D’us na Criação. Fomos criados para trabalhar para aperfeiçoar e remodelar o mundo. Além disso, somos ordenados a fazê-lo da mesma forma que D’us o fez ao criar, Ele mesmo, o Universo: devemos trabalhar durante seis dias e repousar no sétimo.

Savri Maranan – Atenção, senhores! É costume que os ouvintes respondam a esse chamado dizendo, “LeChaim” – “À vida!”. Isso é permitido, pois não é considerado uma interrupção.

Baruch Ata Ado-nai, Elo-henu Melech HaOlam, Bore Peri Haguefen– Bendito és Tu, Eterno, nosso D’us, Rei do Universo, que crias o fruto da videira. Como vimos acima, essa bênção é recitada quando o Kidush é feito sobre o vinho casher (ou suco de uva casher). Quando não há vinho nem suco de uva casher, usa-se pão. Caso não haja nem pão pode-se usar outra bebida alcoólica casher. (Nesse caso, recita-se a bênção do Shehacol: Baruch Ata… Shehacol Nihiá Bidvaro). Os ouvintes respondem “Amén” após ouvir essa bênção.

Baruch Ata Ado-nai, Elo-henu Melech HaOlam, Asher Kideshanu Bemitzvotav VeRatzah Banu – Abençoado és Tu, Eterno, nosso D’us, Rei do Universo, que nos santificaste com Teus mandamentos e que a nós desejaste. Essa benção indica o deleite e a satisfação Divina conosco, como consta no verso, “Pois o Eterno se alegra com Seu povo” (Salmos, 149:4). Ao compartilhar conosco Sua Vontade, que é a Torá e seus mandamentos, D’us nos santificou. Ensina o Talmud que um emissário é como seu mestre, pois age em nome do mestre e incorpora sua vontade. Da mesma forma, quando executamos a Vontade Divina, estamos servindo de seus emissários neste mundo e, assim, nos unimos a Ele.

VeShabat Kodsho Beahava Uveratzon Hinchilanu– E nos deu, em amor e boa vontade, Seu sagrado Shabat como um legado: Os conceitos “amor” e “boa vontade” são mencionados em todas as orações e bênçãos de Shabat. Expressam a idéia de que a dádiva do Shabat para o Povo de Israel é uma expressão do amor Divino. O Talmud ensina que “O Santo, abençoado é Ele, disse a Moshé: ‘Eu possuo uma dádiva preciosa na Minha casa entesourada, chamada de Shabat, e Eu desejo dá-la a Israel’” (Shabat, 10b). Como um legado: a dádiva do Shabat não foi um legado apenas para uma geração, e sim, para todas as gerações do Povo Judeu. Como está escrito: “E os Filhos de Israel guardarão o Shabat, para fazer do Shabat uma aliança perpétua por todas as suas gerações” (Êxodo, 31:16).

Zikaron Lemaase Bereshit:Em lembrança da obra da Criação. Está determinado nos Dez Mandamentos, “Lembra-te do dia do Shabat para santificá-lo.

Em seis dias o Eterno fez os Céus e a Terra… e descansou no sétimo dia” (Êxodo, 20:8, 11). O Shabat é o testemunho de que D’us criou o Universo e de que Ele é a única Fonte de tudo o que existe. Todos os universos, físicos e espirituais, e tudo o que neles há, desde a mais ínfima partícula de pó até a mais elevada das criaturas celestiais, foram criados e são sustentadas por Ele, que transcende e preenche toda a Criação.

Techila Lemikraei Kodesh – A primeira das convocações de santidade (festas sagradas). O Shabat é a primeira de todas as festas, tanto por ter sido santificado desde a Criação e também porque é a primeira a ser mencionada na Torá (Levítico, 23:2-3). As festas judaicas, como Pessach, Sucot e Shavuot, são denominadas pela Torá de “convocações de santidade” porque antes de o calendário judaico ser criado, o início de um novo mês dependia da proclamação do Beit Din, o tribunal judaico. Portanto, o dia exato no qual ocorreria uma festa sagrada dependia da proclamação, por esse tribunal, do início de um novo mês, isto é, de Rosh Chodesh. Já o Shabat, este é independente de qualquer proclamação do Beit Din; ele é sempre o sétimo dia da semana, pois foi o Criador quem o proclamou. A bem dizer, o Shabat nem deve ser referido como “convocação de santidade”. Mas o terceiro livro da Torá, o Levítico, que relaciona as festas sagradas, inicia-se com uma menção ao Shabat. A razão para tal é que o sétimo dia é a matriz de todos os dias sagrados judaicos. De fato, apesar de muitos não o saberem, qualquer Shabat é o dia mais sagrado do ano judaico, até mesmo mais do que Yom Kipur. Trabalhar no Shabat constitui uma transgressão muito mais séria do que fazê-lo em Kipur. Ademais, com algumas exceções, as leis referentes às datas sagradas – ou seja, o que podemos ou não fazer – derivam das leis referentes ao Shabat. Pois como está escrito: “A santidade do Shabat é superior a todas as santidades, e sua bênção é superior a todas as bênçãos” (Aruch HaShulchan, Orach Chaim, 242:1).

Zecher Litsiat Mitsrayim – A recordação do Êxodo do Egito. O Shabat se relaciona com a Criação do mundo e com o Êxodo do Egito. Esses dois conceitos são interligados: o Shabat nos faz lembrar que D’us criou o Universo todo e o Êxodo nos ensina que Ele está envolvido em Seu mundo mediante o controle da natureza, manipulando-a segundo Sua Vontade, enquanto se relaciona com todas as Suas criaturas por meio de Sua Divina Providência. O Shabat nos ensina que D’us, como Criador de tudo, é Infinito e transcende o Universo. Mas o sétimo dia também nos transmite que D’us, como Força responsável pelo Êxodo, que realizou grandes milagres para nossos antepassados e os libertou da escravidão egípcia, é iminente, profundamente envolvido na vida de cada um de nós.

Quando recitamos o Kidush, devemos ter em mente o seguinte. Apesar de sermos criaturas finitas, estamos aqui, de pé, testemunhando que foi o D’us de Israel quem criou tudo o que existe, e como Ele é iminente, presente em todos os lugares e a todo tempo, Ele está atento a nosso testemunho de que Ele é nosso D’us. O Talmud nos ensina que aquele que recita o Kidush se torna parceiro de D’us na Criação, pois serve de testemunha de que tudo o que existe, nos reinos do físico e do espiritual, tem uma única Origem, que é o Criador Infinito, Mestre e Senhor de Tudo. Assim está dito nos Dez Mandamentos, como aparece em Deuteronômio, 5:15: “E lembrarás que servo foste na Terra do Egito, e que o Eterno, teu D’us, te tirou de lá, com mão forte e com braço estendido; portanto o Eterno, teu D’us, te ordenou para guardar o dia do Shabat”.

Os comentaristas bíblicos explicaram que, como Criador do mundo, D’us é também seu Senhor e Mestre. O Êxodo do Egito é um sinal de Sua Providência e domínio sobre o mundo, e prova de Sua criação desse mundo.

VeShabat Kodshecha BeAhavá Uveratzon Hinchaltanu– E Teu sagrado Shabat, com amor e boa vontade Tu nos deste como um legado. O Shabat não é um fardo, mas uma dádiva de amor e favorecimento Divino. Não fora pelo Shabat, muitos de nós trabalharíamos sete dias por semana, tornando-nos escravos de nós mesmos. D’us nos força a parar no sétimo dia sagrado e a nos retirarmos das tarefas mundanas, em nosso próprio benefício. O Shabat é, pois, um dia de reposição de nossas forças físicas e espirituais. É um momento em que devemos esquecer-nos de nossas preocupações e desfrutar a vida e suas bênçãos.

O Shabat, esse legado que os Filhos de Israel receberam, tem preservado não apenas o judaísmo, mas também os judeus enquanto nação. É voz corrente, muito apropriadamente, que “o Shabat guarda os judeus mais do que os judeus guardam o Shabat”. Por razões óbvias, aquele que guarda o Shabat tem muito menos chance de se assimilar e de perder sua identidade como judeu. Não basta lembrar que somos judeus apenas em Rosh Hashaná e Yom Kipur, ou seja, judeus de três dias. No mínimo uma vez por semana o Shabat nos faz lembrar quem realmente somos.

Baruch Ata Ado-nai Mekadesh HaShabat – Bendito és Tu, Eterno, que santificas o Shabat. Essa bênção conclui o Kidush. Diferentemente da santidade das festas judaicas, a santidade do Shabat não depende do Povo de Israel; pelo contrário, é D’us, Ele Próprio, quem o santifica. Essa bênção é escrita no tempo presente, porque o Shabat foi santificado não apenas na época da Criação, mas a manifestação e influência contínua dessa santidade aparecem e emanam como novas a cada semana. Após beber o vinho do Kidush, procedemos à lavagem ritual das mãos (Netilat Yadayim). Depois recitamos a bênção sobre o pão e jantamos. Após a refeição, recitamos o Bircat Hamazon, em que agradecemos ao Criador por Sua beneficência e generosidade e pedimos por uma época em que todos os dias sejam como o Shabat – uma era de paz, abundância, deleite e descanso para toda a humanidade. [2]

  1. Significado do Shabat – O nome do sétimo dia da semana é derivado do hebraico – Shabat – que significa simplesmente “cessar de trabalhar”. O Shabat não é somente um dia de descanso: é um dia de santidade, quando as pessoas podem, por um curto período de tempo, deixar de lado suas preocupações e objetivos materiais da vida, e devotar-se para a renovação espiritual e para a atividade religiosa. O Shabat é totalmente observado quando há ambos, descanso físico e recreação espiritual. Esta combinação de elementos do Shabat é enfatizada nos Dez Mandamentos e em outras partes da Torá, onde ambos os aspectos, o social e o religioso, são descritos. No Kidush, a benção da santificação recitada no dia do Shabat, a importância social deste dia está expressa na frase “zecher l’yitziat Mitzraim” – em recordação à saída do Egito – … O significado religioso é apontado pela designação do dia como “zikaron lemaasê Bereshit” – em memória à Criação do Universo pelo poder divino, superior a todas as outras forças. Um Dia de Descanso – Proibição de Trabalho. O cessar de toda forma de trabalho é fundamental para a observância do Shabat. Os rabinos definiram “trabalho” com 39 categorias principais (associadas com a construção do Santuário no deserto), que virtualmente englobam todo tipo de atividade com potencial de quebrar a paz e o descanso no dia do Shabat. …

Sempre que houver caso de perigo à vidas humanas, a Lei Judaica requer que o Shabat seja violado. Observância na Sinagoga – Kabalat Shabat. Os serviços religiosos no Shabat são diferentes dos serviços dos outros dias da semana. … Observância em Casa – Uma experiência espiritual. No círculo familiar o Shabat é visto com todo seu poder de transformar um vida pesada de trabalho no dia-a-dia numa experiência alegre e espiritual. Diversas preparações são feitas na véspera, em honra ao Shabat.

A sexta-feira é chamada de Erev Shabat – véspera de Shabat. A mesa representa um altar, a santidade elevada pelo pão (chalá), velas acesas e vinho de Kidush. Alguns costumes de Shabat: Chalot Dois pedaços de pão representam a porção dupla de maná que caía para os hebreus nas sextas-feiras durante sua passagem pelo deserto, para que eles não precisassem ir atrás de comida no Shabat. Os pedaços de chalá são cobertos com uma toalha, simbolizando a proteção sobre o maná. Luzes de Shabat – Dois é o número mínimo, simbolizando os mandamentos pares para “lembrar” – Zachor – e “observar” – Shamor” o Shabat (Exôdo 20; Deutoronômio 5, 12). Benção sobre as Crianças Na véspera de Shabat o pai, chefe da casa, coloca suas mãos sobre as cabeças de seus filhos e sussura uma benção tradicional, junto com a benção para que elas cresçam de acordo com a tradição dos patriarcas e matriarcas de Israel. Kidush O Kidush é recitado antes do início da refeição. … (Se não há vinho disponível, a cerimônia pode ser feita com o pão). Zemirot – Hinos de Shabat são cantados durante a refeição. … Seudá Shlishit (lit. ‘A Terceira Refeição’) – Três refeições formais são prescritas para o Shabat: na sexta-feira ao anoitecer, no sábado após o serviço matutino de Shabat, e no fim da tarde do Shabat. …Oneg Shabat – “Alegria do Shabat” – Este é um termo que se tornou popular nos últimos anos e descreve a reunião na tarde do Shabat para estudo, frescor e recreação social. … Havdalá – “Cerimônia de Despedida” – A partida do Shabat é uma mistura de despedida com ritual religioso. A palavra Havdalá significa, literalmente “divisão”, e se aplica ao ritual colorido realizado com vinho ou outra bebida (não água), uma vela acesa e uma caixa com especiarias. Faz-se o vinho transbordar do cálice, o que é uma simbologia para representar a esperança de que a semana que entra será repleta de bençãos divinas. A luz representa o primeiro produto da Criação de D’us e a vela acesa simboliza o início da semana de trabalho. As especiárias nos lembram da fragrância da ‘alma adicional do Shabat’, que neste momento já partiu. [3]

III. O Shabat é o dia mais importante para o judeu – As Tefilot para o Shabat são sagradas e os judeus devem fazê-las com Cavaná – com intenção verdadeira – e para isso, devem compreender o que estão rezando, não podendo fazê-las pelas metade ou em parte. Tampouco devem estar perdidos e desconcentrados o que tornaria uma Sinagoga um lugar à toa – D-us nos livre – ou um simples local para encontros semanais. [4]

Fontes: [1] Agencia Judaica de Israel: [2] Morasha, Ed. 72, julho 2011: http://www.morasha.com.br/shabat/o-kidush-da-noite-de-shabat.html [3] CONIB: http://conib.org.br/glossario/Shabat/

[4] https://euroenigma.wordpress.com/tag/cabalat-shabat/

Coordenador: Saul S. Gefter



2 respostas

  1. Para nós professores uma análise confiável de certos conteúdos é fundamental para não recorrermos a erros analíticos em função do desconhecimento de causa.
    No meu caso, professor de geografia, tenho primado por não cometer esse tipo de erro. Para tal, a consulta de fontes confiáveis é fundamental.
    Sendo as análises acima, muito bem sistematizadas e de fonte confiável, entendo que, ao passar o conteúdo para meus alunos não colocarei em risco a integridade de preceitos tão significativos para os seguidores da fé Judaica.
    Agradeço e reforço a iniciativa dessa instituição no emprenho em divulgar tais conhecimentos.

    1. Esta esnoga agradece sua participação gentil, honesta e racional. Ao analisar a praxis de um grupo ao qual não pertencemos, é correto e honesto realizar a contextualização de quem a pratica, destacando a época, o contexto geográfico e a estrutura de sua sociedade, sendo que neste ultimo contexto encontra-se as práticas religiosas.
      Hoje em dia, é notório o aumento do antissemitismo que, ao longo da História, sempre foi o resultado de um pré-julgamento e de um preconceito (no sentido de conceituação anterior à análise honesta do que estamos lidando, ou seja pré-conceito). E o que vemos atualmente não é um fenômeno nada diferente do que já vivenciamos antes.
      Portanto, agradecemos a sua sincera observação e seu compromisso como um verdadeiro professor de não realizar pré-julgamentos baseados em fundamentalismo religioso ao transmitir conhecimentos aos seus alunos. Os futuros cidadãos que o senhor ajudar na formação reconhecerão o seu esforço e lhe agradecerão.

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