Congregação Judaica Shaarei Shalom – שערי שלום

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  1. A saga dos judeus etíopes – Por Sionei Ricardo Leão

A migração dos judeus etíopes para Israel no fim do século 20 é o único episódio em que africanos deixaram o continente para serem beneficiados com uma vida mais digna e próspera do ponto de vista social”

A migração dos judeus etíopes para Israel no fim do século 20 é o único episódio em que africanos deixaram o continente para serem beneficiados com uma vida mais digna e próspera do ponto de vista social, econômico e político por motivos de solidariedade religiosa e étnica. Um relato do século 10, feito em 1868 pelo estudioso orientalista e linguista semita Joseph Halevy, professor de escolas judaicas, falava do contato que ele travara com a comunidade dos beta Israel na então Abissínia ; como o Império Etíope era chamado. De acordo com ele, houve curiosidade e inquietação desde os primeiros momentos da interação. A abordagem, conforme Halevy registrou em livro, foi inicialmente cercada de desconfianças, pois os beta Israel viram com estranheza que pudesse haver judeus brancos. Eles só se entenderam quando, em meio à tentativa de diálogo, surgiu a palavra Jerusalém. Em 1908, 44 rabinos reconheceram como autênticos os judeus etíopes. A aceitação se fortaleceu em 1973, quando o rabino sefaradim Ovadia Yossef admitiu que os beta Israel são descendentes da tribo perdida de Dan. Um ano depois, o grão-rabino askenazim, Shlomo Goren, além de respaldar o que fizera Ovadia Yossef, defendeu o direito dos judeus etíopes de serem beneficiados com a Lei do Retorno para Israel. Os rabinos ; ao respaldarem a legitimidade dos beta Israel com o pressuposto da relação com a Tribo de Dan, pouco conhecida pelo grande público ; consagraram a presença dos negros nas Escrituras. Todas essas decisões em relação aos beta Israel se basearam no fato de os religiosos identificarem que eles praticam a fé de acordo com os rituais judaicos, incluindo o uso da língua hebraica, professam e transmitem ensinamentos de uma Torá que, segundo se apurou posteriormente, possui mais de 500 anos, além de guardar o shabat e celebrar as datas do calendário judaico. Eles se veem como descendentes do rei Salomão e da rainha de Sabah. Esta é conhecida entre os povos etíopes como Makeda, na tradição islâmica por Belkis e chamada de Nicaula por Flávio Josefo, historiador romano de origem judaica. Essa soberana deve ter reinado no século 9 a.E.C. O que se conhece sobre a rainha de Sabá está relatado na Bíblia Hebraica, no Talmude (coletânea das tradições orais judaicas), no Alcorão (livro sagrado muçulmano) e no Kebra Nagast ; texto religioso que descreve a história lendária da origem da dinastia salomônica dos reis da Etiópia, reconhecido por membros da Igreja Ortodoxa Etíope e pelo movimento Rastafari como uma escritura de inspiração divina.

Segundo essas narrativas, a soberana ao ouvir da fama do rei Salomão, organizou uma caravana e viajou para Jerusalém a fim de conhecê-lo. De acordo com o Kebra Nagast, a rainha, após permanecer por meses na companhia de Salomão, retornou para casa grávida e concebeu um filho que recebeu o nome de Menelik, o primeiro da dinastia salomônica dos reis da Etiópia. Apesar do passado glorioso, os beta Israel no século 20 haviam se tornado uma comunidade fragilizada sócio, econômica e politicamente. Eles corriam risco de serem dizimados em decorrência da guerra civil que então se travava na Etiópia. A partir de 1984, a comunidade iniciou um movimento de ;retorno; à terra prometida, um processo chamado de Aliyah, que é a imigração judaica para a Terra de Israel, com o acolhimento pelo Estado dos indivíduos que procuravam o pertencimento que entendiam ser de direito. Era cerca de 2,5 mil quilômetros de percurso. Era preciso atravessar o Sudão, a pé ou por transporte terrestre. Esforço exaustivo e arriscado, muitos não resistiram e morreram no caminho. Diante dessa realidade, o governo de Israel decidiu promover uma primeira ação de apoio e acolhimento a essa população a qual denominou Operação Moisés. O esforço teve êxito parcial, ao priorizar o deslocamento por via terrestre. Já em maio de 1991, as forças de segurança de Israel executaram uma segunda ação, agora com a utilização exclusiva e maciça de aviões para o transporte de 14.324 etíopes no curtíssimo prazo de 36 horas. A Operação Salomão foi a maior da história, sem paralelo em abrangência e rapidez. Nas duas operações, cerca de 20 mil etíopes foram acolhidos em Israel, onde receberam o status de cidadãos plenos, além de apoio financeiro e social para se estabelecerem no país. Hoje são 135 mil cidadãos vivendo em várias regiões, integrados e atuando em várias áreas da sociedade. Há um deputado federal no Knesset ; como é chamado o Parlamento de Israel ; eleito pela comunidade judia etíope. Uma indagação, certamente, diz respeito a se os beta Israel sofrem ou não racismo no país. Há episódios como o caso de doações de sangue de etíopes que foram secretamente rejeitadas por um laboratório, o que gerou um escândalo nacional até com passeatas. Isso levou o então premiê Shimon Perez a pedir perdão em público e abrir uma investigação oficial para apurar o caso. De todo modo, os comentários da jornalista Dora Rosenthal, autora de Os Israelenses ; pessoas comuns em uma terra extraordinária, traduz um sentimento nacional em relação a esse segmento. Segundo ela, é incomum que israelenses tenham um consenso, mas quase todos concordam que o resgate dos judeus etíopes foi um dos melhores momentos do país. [1]

  1. Judeus Negros Lemba – Tudor Parfitt foi o protagonista do documentário NOVA “Tribos Perdidas de Israel”, fez uma viagem pelo sul da África para estudar as tradições incomuns de uma tribo negra africana chamada Lemba. Este grupo de fala bantu reivindicou ascendência judaica e observou muitas tradições semitas, como restrições dietéticas e práticas de abate de kasher, ritos de circuncisão masculina, regras rígidas contra casamentos intermédios e nomes de clãs semíticos. … judeus Lemba – Parfitt passou muitos meses com a Lemba, conhecendo seus líderes tribais e religiosos e observando alguns de seus rituais mais sagrados. Chegou à conclusão de que a origem de muitas das tradições de Lemba era, na verdade, semítica, não africana. Mas se essas tradições vieram de fontes islâmicas ou judaicas era impossível discernir a partir das evidências históricas e antropológicas disponíveis. Levaria estudos de cromossomo Y para aprofundar essa questão de origem.

Alguns anos depois de suas viagens, a Parfitt juntou-se a um grupo do The Center for Genetic Anthropology do University College de Londres para buscar uma contrapartida genética à tradição oral da descendência judaica. Usando uma técnica relativamente nova em estudos genéticos, a equipe identificou uma série particular de marcadores genéticos no cromossomo Y de homens Lemba. Eles então compararam esses marcadores com outros grupos com os quais o Lemba poderia ter compartilhado um antepassado comum há muito tempo. A equipe coletou amostras de DNA de judeus Lemba (africano), iemenita (árabe) e sefardita e judeus azhkenazi (incluindo Cohanim de ambas as comunidades) para comparar a quantidade de semelhança que existia entre cada um desses grupos. Como já vimos, quanto mais parecido é o cromossomo Y, mais relacionados são alguns indivíduos nos diferentes grupos para um antepassado paterno comum. Como conseqüência, pode-se estabelecer vínculos entre as populações. [2]

III. Abayudaya: Práticas judaizantes em Uganda – Em meio às montanhas verdes da região oriental de Uganda, próximo à cidade de Mbale, uma pequena comunidade de aproximadamente 600 pessoas vive dentro dos preceitos judaicos, fazendo a circuncisão em seus filhos no oitavo dia após o nascimento, seguindo as leis da cashrut, reverenciando e respeitando o Shabat, comendo matzá em Pessach, jejuando e tocando o shofar em Yom Kipur. Não descendem de nenhuma das tribos perdidas, nem são descendentes diretos ou indiretos de Abraão. No entanto, sentem-se parte do povo de Israel. São os Abayudaya, que no dialeto luganda, falado pela população local, quer dizer judeus. São os chamados judaizantes de Uganda, cuja presença singular no seio do continente africano levou o fotógrafo e jornalista norte-americano, Richard Sobol, a visitar a região e percorrer quilômetros e quilômetros para conhecê-los de perto. O registro de sua aventura resultou no livro intitulado Abayudaya: The Jews of Uganda, lançado nos Estados Unidos em 2002. Sobol viajou acompanhado pelo rabino Jeffrey Summit, que gravou e editou as preces e melodias judaicas entoadas pela comunidade, todas fortemente influenciadas pela harmonia artística e pelos ritmos africanos. Durante o lançamento do livro, Sobol falou sobre sua experiência na África: “Eu já tinha estado em Uganda para fotografar elefantes e ouvira uma gravação das músicas dos Abayudaya, que me fora dada por um estudante de antropologia da Universidade de Boston. Fiquei 48 horas escutando as melodias, que eram uma mescla de canções tradicionais hebraicas com ritmos africanos, mas não podia acreditar que fossem reais. Na minha concepção, a África era um mundo totalmente rural, no qual tal harmonia artística não se encaixava. Decidi que deveria ver por mim mesmo quem eram essas pessoas que cantavam e o mundo no qual viviam. Então, resolvi visitar a comunidade”. E ele descobriu o mundo dos Abayudaya, sua fé e devoção profundas. Durante a viagem, Sobol encontrou cinco pequenas comunidades judaizantes, cada uma com sua sinagoga – todas, porém, são construções simples, feitas de barro e chão de terra batida. São Mbale, Namanyoni, Moses, Pallisa e Putti.

Quem são, afinal, os Abayudaya de Uganda? De onde vieram e como mantiveram suas crenças e sua singularidade em um país tão distante culturalmente do mundo judaico contemporâneo e de Israel? Como sobreviveram à violência e às perseguições do regime de Idi Amin Dada, durante a década de 1970?

Quem responde a esta pergunta é Gershom Sizomu, líder comunitário que atua como rabino: “Nós somos africanos que escolheram seguir a Torá, a qual foi dada a Israel. Por isso, nos declaramos judeus e parte da comunidade de Israel”. Os Abayudaya são oriundos da tribo bantu. Seu passado está ligado à colonização britânica na África, no final do século XVIII e início do XIX. Quando a Grã-Bretanha começou o processo de colonização de Uganda, no final de 1800, logo percebeu que, para atingir seus objetivos, precisava contar com o apoio das lideranças locais. O chefe tribal Semei Kakungulu, conhecido e respeitado por seu talento tanto para caçar quanto para guerrear, era também líder espiritual de seu povo e das populações vizinhas. Aliou-se aos ingleses movido por uma ambição pessoal: ser nomeado rei da região oriental de Uganda. Assim, trabalhando lado a lado com os colonizadores durante 20 anos, na virada do século XIX para o XX, Kakungulu já exercia controle sobre amplas faixas do território, ainda que sob jurisdição e domínio britânicos. Este fato, no entanto, mais do que satisfação, despertou a preocupação dos colonizadores que não desejavam que nenhuma liderança local tivesse poder maior do que o deles. Começaram, então, a retirar o apoio que lhe davam, levando-o a se refugiar, cada vez mais, na região oriental do país. Simultaneamente à vinda dos governantes britânicos, vieram para a África, inclusive Uganda, missionários cristãos. Seu objetivo era converter a população local ao cristianismo. Neste processo, também necessitavam da influência dos líderes tribais para convencer a população a desistir de suas crenças e abraçar a fé cristã. Como ocorrera na esfera política, Kakungulu foi fundamental para ajudar na expansão do cristianismo em meio às regiões nas quais exercia domínio. No entanto, diante da falta do apoio dos ingleses para a realização de suas aspirações políticas, Kakungulu começou a se dedicar com maior intensidade ao estudo da Bíblia trazida justamente pelos missionários cristãos – uma Bíblia que incluía o Velho e o Novo Testamento. Esta sua imersão nos estudos, começando principalmente pelo Velho Testamento (a Torá), foi fundamental para a mudança espiritual vivenciada pelo líder tribal. Depois de vários dias recluso, estudando, e inspirado pelos mandamentos de D’us presentes nos textos sagrados, Kakungulu decidiu que a verdadeira mensagem divina estava presente na Torá entregue por D´us aos judeus. Assim, abriu mão dos ensinamentos do Novo Testamento e abraçou os mandamentos dados a Moisés. Afirmando que a circuncisão era o primeiro sinal visível da aceitação de um D’us Único e Todo-Poderoso, ele circuncidou a si próprio e aos seus filhos, como exemplo. Sua atitude foi condenada pelas lideranças da igreja protestante Bamalaki, à qual pertencia, que lhe disseram que tal ato era praticado apenas pelos judeus, o único povo que não aceitava o Novo Testamento e a divindade de Jesus. Kakungulu então respondeu: “Sendo assim, a partir deste dia, eu sou judeu – e chamem-me Mayudaya”. Mayudaya é o singular para a palavra judeu no dialeto luganda. Kakungulu, então, fez um apelo a seus seguidores para que rompessem com a igreja protestante e com o que o poder britânico representava. Foi atendido por muitos milhares de pessoas. Assim, o líder tribal e seus adeptos começaram uma nova vida. Inicialmente separaram-se das suas raízes tribais baganda e, sob a liderança de Kakungulu, deram os primeiros passos para a formação de uma das primeiras comunidades judaizantes da África, com origens tribais. Kakungulu ensinou a seus seguidores as leis de Moisés e fez com que as aceitassem.

Para isso, compilou uma espécie de guia espiritual no dialeto luganda e denominou-o Ebigambo Ebiv u Um Kitavo Ekitavo (Citações do Livro Sagrado). Com um total de 90 páginas, esta obra tornou-se o primeiro manual para as práticas judaizantes em Uganda. Construir um modo de vida baseado em uma religião totalmente nova e em local tão distante do resto do mundo judaico, foi uma desafio imensurável e constante. Após a adoção da circuncisão, a prática do Shabat também se tornou rotina para a nova comunidade. O ritual religioso repetido no sétimo dia da semana assumiu uma importância muito grande para Kakungulu e seus adeptos, mas se tornou também uma fonte de problemas diante da resistência dos missionários cristãos de aceitar a conversão em massa de parte dos súditos do poder britânico. Àqueles que questionavam os seus motivos para adotar os ensinamentos e leis judaicas e procuravam convencê-lo a retornar ao caminho cristão, Kakungulu respondia sempre citando passagens da Torá. Em 1922, o líder tribal construiu a primeira sinagoga em Mbale, próximo à sua casa. Uma construção simples de tijolos e barro, um local para preces e para estudos, que se tornou o centro da vida judaica. Lá eram feitos os serviços religiosos de Shabat, para os quais Kakungulu adaptou e musicou parte de textos do Deuteronômio, que falam de Moisés, da Terra Prometida e das esperanças dos filhos de Israel. Assim, mesmo sem poder político, porém dono de uma grande riqueza pessoal, Kakungulu foi não apenas o fundador dos judaizantes em Uganda, mas o principal responsável pela sua manutenção e continuidade – apesar da oposição dos colonizadores, da segregação e do preconceito de seus vizinhos, da pressão dos missionários e da falta de informação sobre a vida e os costumes dos judeus de outras regiões. Até então, sua única fonte ainda era a Bíblia trazida pelos missionários. Kakungulu fazia o que podia para interpretar os textos sagrados e transmiti-los a seus seguidores.

Em 1926, no entanto, Kakungulu deixou a região onde vivia e foi para Kampala resolver uma questão sobre uma disputa de terra. Nessa viagem teve a oportunidade de encontrar, pela primeira vez, um mercador judeu chamado Yosefu. O mercador, surpreso, perguntou-lhe: “Desculpe-me, mas os ingleses me disseram que o senhor é judeu”. E Kakungulu respondeu: “Sim, seguimos os mandamentos de Abraão e seus filhos. Fazemos a circuncisão de acordo com os mandamentos de D’us, guardamos o Shabat no sétimo dia e comemos alimentos casher”. Não acreditando no que estava ouvindo, Yosefu decidiu aceitar o convite do líder tribal e retornou com ele para conhecer a comunidade perto de Mbale, onde permaneceu por seis meses. Durante este período, conversaram sobre os ensinamentos dos rabinos, os preceitos judaicos, as festas que não estão incluídas na Torá, a prática do barmitzvá e o calendário judaico. Antes de partir, deu à comunidade o seu primeiro livro em hebraico, com explicações e comentários rabínicos em inglês. Assim começou o ensino e o uso do hebraico entre os membros da comunidade. Yosefu foi o primeiro dos muitos judeus estrangeiros que passaram posteriormente por Uganda e foram conhecer os Abayudaya. Além de líder espiritual, Kakungulu era também o patrocinador da vida judaica local. Com sua morte, vitimado pela malária, em 1928, a comunidade foi-se empobrecendo e enfraquecendo espiritualmente, e se voltou, cada vez mais, para as estruturas educacionais e assistenciais mantidas pelos missionários. Porém, para poderem ser atendidos, os necessitados precisavam aceitar os ensinamentos de Jesus. Este pré-requisito foi aceito por alguns dos Abayudaya e por outros, não.

Assim, apesar das dificuldades, a comunidade foi lutando e se mantendo, aproveitando as visitas dos viajantes para fortalecer seus laços com o judaísmo. Na década de 1960, por exemplo, o judeu indiano, David Salomon, foi a Mbale para supervisionar a construção de uma estação de tratamento de águas, na região. Publicou vários anúncios para contratar trabalhadores. Entre os candidatos selecionados havia muitos Abayudaya que, após aceitarem o emprego, disseram-lhe que não poderiam trabalhar aos sábados por serem judeus. Surpreso, Salomon decidiu visitar a comunidade e entregou-lhes livros educacionais em hebraico e outros objetos religiosos. Ao retornar a Kampala, encontrou-se com o então embaixador israelense em Uganda, Arye Oded, e contou-lhe o que havia visto. Havia então cerca de 36 núcleos judaicos, todos com pequenas sinagogas. Curioso e muito surpreso, Oded visitou a comunidade e tornou-se amigo de Samson Mogombe, um dos discípulos de Kakungulu que atuava como rabino da comunidade. O embaixador foi responsável pelo envio de livros de preces e objetos rituais de Israel e dos Estados Unidos para os Abayudaya e por sua aproximação com comunidades do exterior. Até que, em 1972, o presidente Idi Amin Dada expulsou todos os israelenses de Uganda e proibiu a prática do judaísmo e da religião de outras minorias em todo o país. Começava uma nova era de dificuldades. Ainda que clandestinamente e sob risco de vida, os Abayudaya continuavam a rezar o Shemá Israel e a manter sua crença no D’us Único e Todo-Poderoso. Ao ler sobre o exílio dos judeus na Babilônia, acreditavam que sua fé estava sendo testada. Com a queda de Idi Amin Dada, em 1979, dois dias antes de Pessach, os Abayudaya deixaram a clandestinidade e reassumiram sua identidade judaica. Para eles, o fim do regime do ditador, às vésperas da comemoração da saída do Egito, era um verdadeiro milagre divino e, como fizeram os judeus libertos pelo faraó, assaram a matzá e prepararam o Seder para comemorar a sua própria liberdade. A maioria dos quase três mil Abayudaya, no entanto, havia-se convertido a outras religiões restando apenas cerca de 600 membros na comunidade.

A reconstrução da vida judaica após o regime de Idi Amin Dada não foi um processo fácil. Para reerguer uma sinagoga onde Kakungulu construíra o primeiro centro judaico, próximo a Mbale, um grupo de mulheres e homens jovens lutou contra muçulmanos e cristãos que também ambicionavam o local. Inspirados no modelo kibutziano, criaram uma sede chamada Clube Judaico de Jovens. Levantavam-se cedo para ouvir o Shemá Israel transmitido pela rádio israelense Kol Israel e, às vésperas do Shabat, ouviam os debates rabínicos sobre a leitura semanal da Torá. Assim, reunidos ao redor do rádio, tinham a impressão de não estar sozinhos e, apesar de seu isolamento, estar ligados a outros judeus. Este grupo de jovens foi responsável pelo ressurgimento dos Abayudaya durante as décadas de 1980 e 1990. A partir de então, iniciaram contatos para se aproximar de comunidades do exterior. Construíram também uma escola judaica, a “Semei Kakungulu High School”. Em 1992, um dos líderes comunitários, J. J. Keki (Joab), eleito presidente do Conselho Executivo dos Abayudaya, foi a Nairobi (Quênia) para conhecer a comunidade judaica local e teve a oportunidade de encontrar dois judeus norte-americanos que se interessaram em visitar os judaizantes de Uganda. Ao retornarem aos Estados Unidos, entraram em contato com a Kulanu, uma pequena organização cujo objetivo é dar assistência às comunidades judaicas em regiões remotas.

Desde então, a entidade vem levantando doações para o envio de materiais pedagógicos e objetos religiosos para ajudar a manutenção do judaísmo dos Abayudaya. Em 1995, uma comunidade do Maine (EUA) lhes fez a doação de uma Torá.

Em 2001, membros da comunidade deixaram o continente africano pela primeira vez e visitaram os EUA. J.J.Keki esteve no país durante dois meses, participando de serviços religiosos em várias sinagogas e contando a sua história. Seu irmão, Gershom, estudou durante seis meses em um seminário rabínico. De volta ao seu país, ambos vêm contribuindo para a continuidade da vida dos judaizantes em Uganda, contando agora com o apoio de várias entidades judaicas norte-americanas, israelenses e internacionais. [3]

Fontes: [1]   https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/opiniao/2019/12/07/internas_opiniao,812675/artigo-a-saga-dos-judeus-etiopes.shtml

[2] https://herancajudaica.wordpress.com/2017/11/05/judeus-negros-lemba/

[3] Morasha, Edição 47 – Dezembro de 2004: http://www.morasha.com.br/judaismo-no-mundo/abayudaya-praticas-judaizantes-em-uganda.html

Coordenador: Saul Stuart Gefter



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