Congregação Judaica Shaarei Shalom – שערי שלום

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  1. Introdução – Quem foram Hillel e Shammai? Hillel e Shammai foram dois de nossos maiores Sábios, cujas discussões sobre a Lei Judaica resultaram na criação de duas escolas de pensamento: a escola de Hillel – que era, geralmente, mais leniente – e a escola de Shammai – que era mais rígida quanto às Leis da Torá. Ensina o Talmud que os ensinamentos de ambas as escolas refletem a Vontade Divina, mas que nós devemos seguir as diretrizes da escola de Hillel. Porém, na era messiânica, ensinam os nossos Sábios, a Torá será seguida conforme os ensinamentos da escola de Shammai. [1]
  2. O sábio Hillel – Hillel era reverenciado como verdadeiro líder espiritual e religioso. O rei Herodes não teve outra escolha senão aceitar a autoridade religiosa do Sanhedrin, reconhecer o prestígio de Hillel e respeitar o controle que este exercia sobre a vida religiosa. O sábio que era puro amor, humanismo e bondade, infinita paciência e profunda humildade.

Na Terra de Israel, no último meio século que antecedeu a Era Comum, houve uma grande disseminação da Lei Oral, que tornou os eruditos da Mishná os verdadeiros líderes do povo, embora a autoridade política e o alto sacerdócio se encontrassem em outras mãos.

Estes sábios são os Tanaim. Taná, em aramaico, significa aquele que estuda, repetindo e transmitindo os ensinamentos de seus mestres. O período dos Tanaim foi de criatividade, inovação e grande florescimento da cultura judaica, ao mesmo tempo em que foi de profunda turbulência e crise, culminando com a destruição do Templo no ano 70 da Era Comum, o que tornou necessária a reestruturação de toda a vida religiosa.

A primeira geração de Tanaim, que exerceu suas atividades no início do reinado de Herodes, é representada por Hillel e Shamai, fundadores de duas escolas que levaram seus nomes (Bet Hillel e Bet Shammai). Apesar de todas as controvérsias que se acenderam entre estas, ambas inscreviam-se na estrutura tradicionalmente aceita no judaísmo. As disputas haláchicas entre elas prosseguiram por muitas gerações até que finalmente prevaleceram os pontos de vista da Casa de Hillel. O Talmud Babilônico nos traz, numa única frase, a conclusão: “Ambas são as palavras do D’us vivo, e a decisão está de acordo com a casa de Hillel.”

As duas escolas refletem a personalidade de seus fundadores. Hillel era uma pessoa amável, simples, próxima às camadas mais modestas, e suas máximas breves refletem sua generosidade, piedade e amor à humanidade. Shamai era extremamente íntegro, mas rígido e irascível. No Talmud se diz: “Que o homem seja sempre humilde e paciente como Hillel e não exaltado como Shammai.”

Hillel foi o menos sentencioso e o mais tolerante dos sábios rabínicos. Falava a língua do povo, ao qual ensinava ética. Suas palavras refletem seu humanismo e bondade: “Não faça aos outros o que não quer que façam a você. Aí está toda a Torá. O resto é mero comentário.” Ou…”Sejam como os discípulos de Aarão, amando e buscando a paz, amando a humanidade e aproximando-a da Torá”. E, talvez, sua máxima mais famosa seja: “Se não eu por mim, quem por mim? Se eu for só por mim, quem sou eu? Se não for agora, quando?”

Hillel nasceu numa próspera família da Babilônia e com cerca de trinta anos foi estudar com os sábios Shemaia e Abtalion em Jerusalém. Lá, ele vivia em condições de grande penúria, trabalhando como simples lenhador. O amor ao estudo fazia com que adiasse seu retorno à cidade natal, onde seus correligionários viviam em paz, longe das turbulências que agitavam a Terra de Israel.

Conta-se sobre Rabi Hillel que, quando estudava em Jerusalém, era tão pobre que só ganhava uma moeda de cobre por dia de trabalho. Metade desse dinheiro ele dava ao bedel, para poder freqüentar a Casa de Estudo, e a outra metade usava para o seu sustento e o de sua família. Certo dia, não ganhou nada. Nesse dia, nem ele nem sua família comeram; mas, ansioso para ouvir as palavras de Shemaia e Abtalion, e como o bedel não o deixou entrar sem pagar, Hillel subiu no telhado e, deitado sobre a clarabóia, se esforçou para ouvir as discussões.

Concentrado como estava, não lembrou que era sexta-feira, em pleno inverno, nem que nevava. Passou, assim, a noite deitado sobre o telhado. No dia seguinte, a academia pareceu bem mais escura do que de costume: a clarabóia estava coberta de neve, mas olhando bem dava para perceber o contorno de um homem debaixo da neve. Logo reconheceram Hillel, a quem lavaram, massagearam com óleo, deixando-o esquentar-se perto do fogo. Ninguém hesitou em transgredir o Shabat para salvá-lo.

Após a morte de Shemaia e Abtalion, provavelmente Hillel voltou para a Babilônia, mas visitava frequentemente Jerusalém em peregrinação antes das Grandes Festas ou a cada vez que precisava esclarecer alguma dúvida sobre as leis.

Hillel foi o primeiro dos autores da Mishná a afirmar que o judaísmo tinha como objetivo implementar o cumprimento dos deveres de cada indivíduo em relação a seu próximo e que todos os mandamentos são meios para alcançar esta finalidade. Também foi o primeiro a estabelecer o princípio do amor fraterno como condição principal para todos os mandamentos da Torá.

Conta a Hagadá que um gentio procurou Hillel, pedindo que lhe ensinasse toda a Torá enquanto ele se equilibrava sobre uma perna só. Este, em vez de expulsá-lo por sua insolência, como fizera Shammai, disse-lhe calmamente: “Não faça aos outros o que não quer que façam a você. Eis toda a Torá. Todo o resto é comentário. Vai e estuda!”

Hillel era tão bondoso com os outros que tolerava todos os caprichos, sem ficar com raiva. Certa vez, ofereceu a um homem pobre um cavalo e um escravo que corresse na sua frente, como era costume. Como não conseguiu o escravo, ele mesmo ficou correndo na frente do homem, por um percurso de três milhas. A paciência de Hillel era tão inabalável, que há várias histórias sobre tentativas frustradas de o fazer enfurecer-se.

Uma vez um homem apostou 400 moedas de prata que faria Hillel perder a paciência. Foi procurar o mestre na sexta-feira, quando este tomava banho, preparando-se para o Shabat: “Quem é Hillel e onde ele está?” Hillel se enrolou em uma toalha e foi ver quem o chamava. “Eu tenho uma pergunta, disse: “Por que os babilônios têm a cabeça redonda?” “Boa pergunta”, respondeu Hillel. “É porque suas parteiras não são suficientemente competentes”. Pouco depois o mesmo homem voltou e, novamente, chamou Hillel com arrogância, perguntando por que o povo de Tadmor tem a vista fraca. “É porque Tadmor é situada em uma região desértica e a areia entra nos olhos de seus habitantes”.

Pouco depois, o homem voltou a chamar Hillel para fazer-lhe mais uma pergunta: “Por que os africanos têm os pés tão largos?” “Porque eles andam descalços em terreno pantanoso.” Aí o homem disse: “Eu tenho mais uma pergunta, mas estou com medo de que você fique bravo”. “Faça quantas perguntas quiser e eu responderei da melhor forma que meus conhecimentos permitirem”. “Você é Hillel, o Nassi dos judeus?” “Sou”. “Então espero que os judeus não tenham ninguém mais como você! Por sua causa perdi uma grande soma de dinheiro, apostando que conseguiria enfurecê-lo.” E Hillel respondeu: “Mesmo que você perca o dobro deste valor, não conseguirá fazer-me perder a paciência!” [2]

III. Beit Hillel e Beit Shammai

Hillel é conhecido por ser um sábio que preservava o amor, o humanismo, a bondade, a paciência e a humildade. Ele foi o primeiro dos rabinos fariseus, nasceu na Babilónia durante o século I a.e.c., mudou-se para a Judeia com 14 anos; passou alguns anos em Jerusalém e depois  mudou-se  para a Galileia.

Os seus ensinamentos encontram-se relatados no Pirkei Avot (a ética dos pais), escrito na Babilónia e depois acrescidos de outros ensinamentos, sendo adicionados ao Talmud. Nessa época, houve uma grande disseminação do Talmud, que tornou os eruditos da Mishná os verdadeiros líderes religiosos do povo, os chamados Tanaim (de Taná, em aramaico, significa aquele que estuda, repetindo e transmitindo os ensinamentos de seus mestres).

O Sábio Hillel – A primeira geração dos Tanaim, que exerceu suas atividades no início do reinado de Herodes, é representada por Hillel e Shammai, fundadores de duas escolas que levaram seus nomes (Beit Hillel e Bet Shammai). As duas escolas refletiam a personalidade do seus fundadores. Hillel era uma pessoa amável, simples, próxima às camadas mais modestas, e suas máximas breves refletem na sua generosidade, piedade e amor à humanidade. Shammai era extremamente íntegro, mas rígido e irascível.

Hillel foi responsável pelo estabelecimento da Halachá, o conjunto de regras baseadas na interpretação da Tora, ou seja, como um judeu deveria viver de acordo com a Tora. Ele foi o líder de uma revolução espiritual no judaísmo. Ele acreditava na presença contínua de D’us no Universo e que a única maneira dos homens servirem a D’us era por meio de seus atos, sendo diretamente responsáveis por eles perante D’us. Falava também de união mística entre D’us e o homem. Apesar de todas as controvérsias que se acenderam entre estas, ambas se inscreviam na estrutura tradicionalmente aceite no judaísmo. As disputas pela Halachá entre elas prosseguiram por muitas gerações até que finalmente prevaleceram os pontos de vista de Hillel.

Os seus ensinamentos eram muitas vezes opostos aos ensinamentos de Shammai. Dizem que o Talmud regista 300 discordâncias entre eles, mas esse número inclui as discordâncias entre os seus discípulos, uma vez que ambos criaram escolas rabínicas. Como já citado, Hillel era um homem de paz, humilde e respondia a todas as perguntas que lhe eram feitas, mesmo as constrangedoras. Ao contrário de Shammai, Hillel tinha alunos não-judeus. Ele estimulava, nos homens, a auto-estima com o seu pensamento mais famoso: “Se eu não for por mim mesmo, quem será por mim?

E, se somente por mim, o que sou eu? E, se não for agora, quando?”. E com outro: “Aquele que tenta engrandecer seu nome o destrói; aquele que não aumenta seu conhecimento o diminui e aquele que não estuda merece morrer”. Hillel teve na sua academia 80 discípulos, muitos dos quais importantes. O conselho dos membros da corte de Herodes não foi seguido. Ele faleceu no ano 10, 14 anos depois da morte de Herodes, o Grande.

Shammai, assim como Hillel, era um judeu nascido no século 1 a.e.c., um líder religioso importante e grande na literatura rabínica, na Mishnah (primeira discussão feita a partir da Torá que vai para o Talmud). Ele era o “adversário” de Hillel, sendo sempre mencionado junto a ele. Diferentemente de Hillel, Shammai era um homem rígido, justo e sem paciência. Uma das histórias que se conta é que um dia, um homem veio em busca de Shammai e pediu para ser convertido: “Converto-me na condição de  você me ensinar toda a Torá, enquanto eu estou apoiado em um só pé”, Shammai empurrou-o para fora com a régua em sua mão, então veio Hillel e lhe disse: “ Não o faças aos outros o que não desejas para ti. Esta é a Torá, o resto é comentário. Vai e aprende.”.

Numa época de grande agitação política e social, Shammai foi uma grande influência, recusando-se a ser intimidado pela potência estrangeira.

Ele cresceu à sombra da opressão de Herodes, e acreditava sempre que era necessário ter uma postura firme para lidar com os adversários da tradição judaica. Conta-se que, quando Herodes apareceu na sala do Sinédrio, rodeado pela guarda real, totalmente armados, o silêncio reinava. Podia-se sentir o sentimento de intimidação naquela sala, quando, apenas Shammai, sem medo, levantou-se para falar contra ele. Passou então a fazer decretos para separar e proteger a comunidade judaica da interferência de Herodes e dos romanos.

Ele alertou o perigo de Herodes aos seus colegas, avisando-os de que ele iria dominá-los sem piedade. Na verdade, Shammai foi um dos poucos a sobreviver. No entanto, apesar de toda a sua tenacidade em assuntos jurídicos e políticos, temos uma perspectiva bastante diferente de Shammai quando nos voltamos para a Halachá. Lá, Shammai diz: “Cumprimente cada homem com um semblante alegre e um sorriso”.

Os preceitos morais da Halachá estão associados aos sábios que não só ensinavam, mas viviam daquela maneira. Aqui, Shammai era um homem com um sorriso radiante e pronto, que seus colegas e discípulos conheciam tão bem. Então, como compreender Shammai? Porque ele mesmo não seguia seus ensinamentos? A resposta encontrada é que Shammai não é o homem dos “pedidos”. Ele acreditava, assim como na história da conversão do homem apoiado em um pé só, que, para aprender a Torá não se podia ter pressa, e, se um candidato a conversão tem pressa, é porque não a merece.

Shammai – No Talmud se diz: “Que os homens sejam sempre humildes e pacientes como Hillel e não exaltados como Shammai.”. Isso soa como uma condenação, mas, na verdade, é como um conselho: “Se você é como Shammai, e suas motivações são puramente por uma questão do Céu e do bem de Israel, então pode ser tão severo com os outros como ele era.”. Entretanto, mesmo que não possamos compreender Shammai por completo, podemos tentar compreendê-lo apenas um pouco. Shammai – O Entendido. [3]

Fontes: [1] http://estudosjudaicos.blogspot.com/2008/06/quem-foram-hilel-e-shamai.html [2] Revista Morasha: http://judaismohumanista.ning.com/profiles/blogs/o-sabio-hilel-revista-morasha [3] Eterna Sefarad: http://zivabdavid.blogspot.com/2013/02/bet-hilel-e-bet-shamai.html

Coordenador: Saul Stuart Gefter



10 Responses

    1. Shalom. Agradecemos a sua participação.
      Os debates entre Shamai e Hilel são famosos e foram muito edificantes para a formação do pensamento judaico atual. Foram tão importantes que existe abundante material disponível na internet sobre o pensamento de cada um desses h̊akhamim especificamente, bem como a comparação entre suas escolas de pensamento. Basta apenas uma simples consulta no Google e será possível de desfrutar de farto material.
      Entretanto, caso esteja pensando em um livro especificamente, recomendamos o livro “HILLEL AND SHAMMAI”, de Jesse Russel e Ronald Cohn. Infelizmente, não temos ciência se este livro está disponível em língua portuguesa.

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